sexta-feira, 11 de julho de 2014

KUNG FU FUTEBOL CLUBE

NOTA 7,0

Para os saudosistas dos antigos
filmes de lutas marciais esta
comédia é um prato cheio com o
bônus de bons efeitos especiais
Nos nostálgicos tempos das fitas VHS existia uma categoria peculiar e não-oficial em que certas produções eram catalogadas nos acervos das locadoras. Elas poderiam figurar entre fitas policiais, de ação, comédia ou aventura, mas um detalhe em especial reunia alguns títulos em um seleto grupo: os filmes de kung fu. Para os fãs talvez o enredo fosse o de menos. O importante eram as cenas de lutas coreografadas e até surgiram distribuidoras especializadas em importar produções orientais do tipo. Contudo, assim como os trash movies e as ficções científicas que bombavam antigamente, este gênero caiu em declínio e já a alguns anos goza de uma posição bastante inferior, praticamente inexistente, o que fez com que alguns atores asiáticos buscassem trabalho em Hollywood, sendo Jackie Chan e Jet Li bons representantes. No entanto, quem diria que no início do século 21 produções do tipo voltariam a circular mundialmente. E este texto não é para exaltar épicos como O Clã das Adagas Voadoras e O Mestre das Armas, mas sim falar a respeito da tentativa de resgate dos filmes de kung fu contemporâneos, a milenar arte marcial aplicada em meio ao caos do trânsito e entre um clique e outro no computador. Kung Fu Futebol Clube é um ótimo exemplo, uma mistura improvável de influências totalmente díspares. Dos golpes do saudoso Bruce Lee ao ritmo alucinante dos videogames, o longa reúne comédia, futebol, artes marciais e efeitos especiais que lhe dão direito no mínimo a alguns elogios por conta das inovações que propõe. A trama, no entanto, é das mais rebuscadas. Feng (Man Tat Ng) foi uma estrela dos gramados em sua juventude, mas inocentemente buscou sua própria decadência ao aceitar errar propositalmente um pênalti em um importante jogo ludibriado pelo presidente de seu time, o inescrupuloso Hung (Patrick Tse Yin). Anos depois, ele é apenas um auxiliar da equipe, mas ainda nutre o desejo de um dia se tornar um treinador, vontade que aumenta ainda mais quando conhece por acaso Sing (Stephen Chow), um jovem que vive como mendigo por força das circunstâncias. Em um passado não muito distante ele era um mestre das artes marciais, mas não conseguiu sobreviver às custas de seu talento. Mesmo assim ainda busca formas de reavivar a esquecida técnica do Kung Fu Shaolin se apresentando pelas ruas de Hong Kong.

Dono de um poderoso chute, Sing, conhecido como “Perna de Ouro”, é descoberto por Feng, antigamente chamado pela mesma alcunha do rapaz, e juntos eles decidem formar um time de futebol revolucionário. O andarilho então resolve chamar seus velhos companheiros dos tempos áureos de luta para se juntar a equipe de olho no atraente prêmio em dinheiro que seria oferecido em um campeonato nacional, assim eles poderiam se livrar dos subempregos que foram obrigados a aceitar após o fracasso como esportistas. Porém, as coisas não são tão fáceis. Além de nenhum deles ter habilidade com a bola, também perderam o espírito guerreiro de antigamente. Por outro lado, para entrar no torneio e chegarem a disputar a final, o grupo descobre que o gramado pode ser um lugar muito violento, assim suas habilidades com luta seriam essenciais. Os atletas aplicam ao jogo técnicas de artes marciais, transformando o futebol em um esporte completamente diferente. Cambalhotas, pulos a muitos metros do chão e chutes com força para derrubar traves fazem parte da estratégia para vencerem a disputa cujo patrocinador é justamente Hung, um sujeito arrogante, trapaceiro e grande inimigo de Feng desde que assumiu que planejou o acidente que afastou o antigo “Perna de Ouro” dos gramados. Perceberam que a essência do enredo você já deve ter visto e revisto em muitas produções ianques? Muda-se o esporte, mas o espírito de superação sempre é o mesmo que rege tramas do tipo, sem descartar a presença de um vilão. A grande diferença no caso seria a inserção da cultura e representantes asiáticos em um universo onde americanos, latinos e europeus parecem mais íntimos. Com direção do próprio Chow, que também assina o roteiro em parceria com Tsang Kan Cheong, o longa foi uma das maiores surpresas do cinema mundial no ano de 2001, ou melhor, para aqueles que conseguiram ver a obra na época. No Brasil, ela foi lançada diretamente em DVD com quatro anos de atraso, mesmo com toda a fama que colecionou ao longo do tempo. Bateu todos os recordes de bilheterias nos cinemas da Ásia, foi manchete de capa nas revistas locais e virou um fenômeno de popularidade no mundo todo, aquele tipo de filme que vai comendo pelas beiradas e gerando expectativas aonde o lançamento vai demorar um pouco a acontecer. Na Itália, inclusive, a dublagem foi feita por jogadores profissionais enquanto Chow teve que se virar no inglês para dublar a si mesmo na versão lançada nos EUA.

Como é fruto de uma coprodução entre Hong Kong e a China, sua distribuição mundo a fora dependia de contratos firmados com outras empresas, o que dificultou as coisas. Diante do burburinho gerado nos países asiáticos e com os 13 prêmios internacionais conquistados, era para os empresários do setor estarem mais atentos, mas deram sopa para o azar. Houve uma época que chamou a atenção da imprensa mundial o fato da obra figurar por muitos meses seguidos como um dos filmes mais pirateados da internet já que não havia a previsão de seu lançamento em vários países. Pode-se dizer que só chegou a muitos lugares na cola de outros. O cineasta Quentin Tarantino, fã confesso do cinema oriental, recomendou um lote de títulos asiáticos para a distribuidora Miramax (já há alguns anos sob comando da Disney), dentre eles estava o épico Herói que, embora também com atraso, teve um lançamento digno. Já Kung Fu Futebol Clube foi reeditado para agradar às plateias ocidentais, assim nós brasileiros recebemos uma versão com cerca de meia hora a menos que o original, mas é estranho que mesmo com a demora o título tenha sido ignorado no país do futebol. O tão aguardado DVD não fez o sucesso esperado, mas hoje é um tesouro para quem o tem original. O fracasso em alguns países também pode ter influência dos EUA. Se não faz sucesso por lá a tendência é não confiar no êxito em outras praças. Apesar dos efeitos especiais, ritmo ágil e brincadeiras com grandes sucessos como E.T.- O Extraterrestre, Matrix e Parque dos Dinossauros, a trama é centrada na combinação entre esportes pouco populares para os norte-americanos. Além disso, apesar de metidos a moderninhos, após a beleza estética do épico fantasioso O Tigre e o Dragão os ianques podem ter se espantado demais ao ver jogadores voando acrobaticamente pelos ares e uma bola de futebol praticamente provocando um tornado em campo. Isso sem falar em uma latinha de cerveja chutada com tanta força que consegue atravessar a cidade e ainda destruir um muro. Chow, ídolo do humor em Hong Kong e que viria novamente a ter êxito internacional com Kung-Fusão, inspirou-se em animações muito populares em seu país, desenhos que abordam o mundo dos esportes e os atletas geralmente são dotados de superpoderes. Em meio a tanta adrenalina, ainda há um desnecessário gancho romântico com a participação de Mui (Vicki Zao), uma tímida e feinha adolescente que também faz uso de técnicas de kung fu para preparar pães em uma barraquinha de rua. Claro que Sing com seu bom coração vai ver uma alma linda por trás do rosto cheio de espinhas e... Você já sabe o que acontece.

Comédia - 87 min - 2001

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