quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A VIDA SECRETA DAS ABELHAS

NOTA 7,5

Drama teria como assunto
principal o amadurecimento de
uma garota, mas personagens
coadjuvantes roubam a cena
Tem gente que adora assistir filmes cujos títulos são curiosos e que se justificam por um simples detalhe ao longo da narrativa, algo que pode ser tão sutil que ao término alguns espectadores mais desatentos podem não conseguir identificar a ligação entres esses elementos. Agora se você é do tipo que gosta de escolher seus filmes deduzindo seus conteúdos através dos títulos óbvios já sabe muito bem o que esperar de A Vida Secreta das Abelhas: uma agradável produção com ganchos dramáticos que deixa o espectador com o espírito leve e saboreando um doce sabor de alegria. A ideia central do longa é falar sobre as confusões de sentimentos que pegam de surpresa uma garota que está fazendo a transição da vida de criança para a de adolescente. Não por acaso muitos apontam esta obra como um projeto exclusivamente feito para marcar transição semelhante na vida pessoal, mas principalmente na profissional de Dakota Fanning, mas infelizmente o brilho da ex-estrela mirim parecia já dar sinais de desgaste, tanto que seu ritmo de trabalho caiu consideravelmente desde então. Contudo não se deve rotular o longa escrito e dirigido pela cineasta Gina Prince-Bythewood como o ponto de partida para essa guinada inversa na carreira da atriz, afinal a garota faz seu serviço direitinho, mas a trama dramática de sua personagem precisa dividir espaço com outros tantos ganchos que acabam conquistando muito mais a atenção do espectador. Baseado no livro homônimo de Sue Monk Kidd, a história se passa em uma região interiorana dos EUA, mais precisamente na Carolina do Sul no ano de 1964, um local e período marcados por intensos conflitos racistas. Dakota vive Lily, uma adolescente de 14 anos que sofre com as poucas lembranças que tem da mãe falecida em um trágico acidente que a própria garota teria ocasionado acidentalmente quando era criança. Além da dor de se sentir responsável por este fato, nos últimos dez anos ela foi criada com desprezo pelo pai, T. Ray Owens (Paul Bettany), que sempre fez questão de ressaltar a ideia de que sua esposa não gostava da filha e queria ir embora de casa. Rudimentar e adepto do alcoolismo, ele nem mesmo se deu conta de que Lily crescera, sendo alertado pela empregada negra Rosaleen (Jennifer Hudson), obviamente outra pessoa que ele trata da pior maneira possível devido a sua cor e petulância e que não perde a chance de livrar-se dela quando a moça se envolve em uma discussão por responder a uma ofensa preconceituosa. Tendo a escrita como seu maior passatempo, Lilly toma coragem e decide fugir com sua babá para bem longe, de modo que ambas conseguissem finalmente escrever suas próprias histórias de vida, de preferência com finais felizes.

Lily decide partir para o interior seguindo a única pista que tem do passado de sua mãe e Rosaleen resolve segui-la, embora saiba que aonde fosse na companhia de uma garota branca passaria por algum tipo de humilhação. Bem, nem sempre. Ao se depararem com alguns potes de mel em um empório que levavam a imagem de uma Virgem Maria negra no rótulo, elas procuram as donas da marca, as irmãs Boatwright, que embora também sofressem com as consequências negativas das lutas dos negros pelos direitos civis, aparentavam ter uma vida acima da média para os padrões de sua etnia. Batizadas com nomes de meses, August (Queen Latifah), June (Alicia Keys) e May (Sophie Okonedo) conquistaram suas independências financeiras e certo respeito pela sociedade preconceituosa da época graças ao trabalho no ramo da apicultura que já desenvolviam há anos. Pela primeira vez tendo a percepção do que é uma vida feliz, Lily passa a fazer inúmeras descobertas pertinentes sobre sentimentos, pessoas e a respeito de si mesma, vivendo inclusive um pouco dos efeitos do preconceito, afinal acaba sendo a única branca da casa, e experimentando o amor através de um flerte proibido aos olhos dos burgueses. Muitos apontam que embora com um currículo então já respeitável e calcado principalmente em dramas chorosos, Fanning não conseguiu dar a carga dramática necessária para sua personagem, sendo que Lily só tem forte expressão na trama na introdução e nos minutos finais, porém, é preciso ressaltar que deixar a garota em segundo plano em boa parte do longa foi uma escolha da própria diretora. Ao contrário do livro, o filme prefere manter o foco nos dilemas e cotidiano das Boatwrights que vivem situações que alternam momentos dramáticos e de humor, cada uma das irmãs com um perfil bem delineado. August é a mais velha, muito inteligente e generosa. Um pouco acima do peso, só pelo seu visual já assume automaticamente o papel de mãezona do clã. June é professora de violoncelo, mas a sensibilidade que sua profissão exige não se reflete em sua personalidade. Ela parece estar sempre de mau humor, é a única das irmãs que não aceita totalmente a permanência de estranhas em casa e vive discutindo e se reconciliando com o namorado Neil (Nate Parker) que sempre tem seu pedido de casamento declinado. Por fim, May, embora não tenha uma presença física e de personalidade tão imponente quanto as outras, é o tipo mais interessante da família. Portadora de problemas mentais, seu quadro é agravado quando se lembra da irmã gêmea, April, já falecida. Sempre quando surgem notícias tristes ela chora instantaneamente e seus sentimentos e ideias ela só consegue expor por escrito e deposita os bilhetes em um muro que serve como uma espécie de santuário para ela.

É um pouco discutível dizer que esta é uma obra que quer falar do tema universal dos conflitos que envolvem a adolescência, afinal para tanto se faz necessário a forte presença de um personagem que catalise as emoções, dúvidas e alegrias dessa faixa etária, algo que infelizmente Dakota ficou devendo parecendo a maior parte do tempo apenas uma espectadora passiva do cotidiano diferenciado de uma família negra. Ou melhor, a culpa não é da atriz, como já dito, mas sim da concepção de sua personagem que embora inerte em algumas sequências, sempre deixa latente um sentimento de segurança. Tal tipo não apresenta traços psicológicos críveis, afinal já é cientificamente comprovado que são quase nulas as chances de alguém que teve uma infância tão sofrida levar uma vida futura livre de problemas de comportamento, que podem se manifestar de forma introspectiva ou até mesmo com momentos de alegria ou violência exagerados. Lily acaba só tendo seus grandes momentos quando se concentra em seu passado, caindo num choro compulsivo que passa a ser encarado como um recurso maniqueísta para fazer o público se emocionar forçosamente. Diante disso, muito mais tocante, funcional e menos esquemático torna-se o desfecho da personagem May. Bem, embora tenha uma bonita história no geral e seja plasticamente deslumbrante, conseguindo transmitir com perfeição o clima bucólico do interior graças aos tons pastéis adotados para a cenografia e figurinos, realmente não se pode negar o poder manipulador da obra. Mesmo com poucos personagens, é possível se observar uma diferenciação estereotipada das raças. Fora Lily, os brancos acabam sendo representados pela figura medonha do pai da garota que parece reunir diversas características desfavoráveis a qualquer ser humano. No lado dos negros, aparentemente a maldade não existe, mesmo com os comentários por vezes espinhosos de June, e da boca de August saem belas frases que sempre carregam alguma mensagem de auxílio. Isso acaba trazendo um pouco de artificialismo à narrativa, algo acentuado com a limitação das ações dentro de um único ambiente. É como se a fazenda das Boatwrights fosse protegida por alguma barreira invisível, sendo que os reflexos das lutas pelos direitos dos negros, entre eles o direito ao voto, o grande sonho de Rosaleen para se sentir gente de verdade, só vêm a tona mencionados em diálogos esporádicos e visualmente apenas quando Lily vai ao cinema acompanhada de Zach (Tristan Wilds), afilhado de August, e o adolescente acaba sendo raptado por um grupo de brancos exaltados. A suavização dos temas raciais tem uma justificativa plausível. Will Smith, que entende tudo de grandes bilheterias e repercussões, é o produtor da fita e certamente fez o máximo que pôde para transformá-la em um programa familiar. Dessa forma A Vida Secreta das Abelhas é no fundo uma produção comercial em embalagem de luxo, mas não seja preconceituoso. Vale a pena uma conferida.

Drama - 109 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...