quinta-feira, 26 de julho de 2012

ATRAÇÃO PERIGOSA

NOTA 8,0

Ben Affleck surpreende
dirigindo e escrevendo uma
história de fundo dramático

e com pinta de filme de ação
Alguns artistas precisam a cada novo trabalho provar do que são capazes e até mesmo tentar apagar erros do passado. Matar um leão por dia, ou melhor, por filme. Esse deve ser o lema de muitos atores, entre eles Ben Affleck, um profissional competente, mas que ainda muito jovem viu todos os holofotes voltados para si ao ganhar um Oscar pelo roteiro de Gênio Indomável que escreveu em parceria com Matt Damon. Ambos atuaram neste longa e foram muito elogiados, mas depois trilharam caminhos opostos. Enquanto um viu sua carreira crescer a largos passos o outro se viu em meio a tropeços profissionais e também na vida pessoal. Depois de muitas críticas negativas em longas de ação e comédias, um conturbado romance na vida real com a atriz e cantora Jennifer Lopez, o então ex-astro promissor viu seus caminhos clarearem com uma elogiada atuação no drama Hollywoodland - Bastidores da Fama, o que certamente lhe deu fôlego para novos desafios. O homem que vemos em Atração Perigosa já é reflexo dessa injeção de ânimo. E não é só o protagonista que surpreende, mas também o profissional que se encontra atrás das câmeras. Dirigindo e atuando neste drama camuflado de ação, Affleck mostra que conhece cinema e apresenta um filme de excelente qualidade e bem acima da média. O que poderia ser um thriller qualquer cheio de perseguições, tiroteios e palavrões foi transformado em uma história envolvente e que faz o espectador torcer para que o vilão se de bem. Isso mesmo, que o vilão se bem. Ele interpreta Doug MacRay, um rapaz com habilidades para planejar assaltos e que lidera um grupo de ladrões de bancos que sempre consegue sair impune dos seus crimes. Um dia, ao realizar um assalto, seu parceiro Jem (Jeremy Renner) leva uma refém por precaução. Ela é Claire Keesey (Rebecca Hall), subgerente do banco, solta próximo a uma praia algum tempo depois. O fato traumatiza a moça, deixando-a com medo e receosa, mas para os bandidos o crime também os deixou em maus lençóis. Jem descobre que Claire mora a apenas quatro quarteirões do refúgio do bando, tornando-se uma ameaça. Doug fica encarregado de vigiá-la, mas, após uma conversa ocasional, inicia um relacionamento com ela. Agora, ele tem a chance de mudar de vida e se redimir de seus crimes, mas Jem o pressiona para continuar a roubar, pois Doug tem uma dívida de gratidão com ele.
 
O protagonista mostra que por trás de um bandido há um ser humano que tem um porque de estar naquela vida, que tem seus sofrimentos e mágoas. Não que isso seja justificativa para cometer crimes, mas o enredo propõe a redenção do indivíduo. Porém, o contraponto também está representado no filme. O bandido de Renner, indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel, já esteve preso por anos e agora em liberdade não pensa em mudar de vida e incita o amigo a continuar a cometer os delitos com seu bando. As ações da trama acontecem no bairro de Charlestown, em Boston nos EUA, local conhecido pela proliferação de atos criminosos, já que os "ensinamentos do tal trabalho sujo" são passados de pai para filho. O filme transita muito bem entre os gêneros drama, ação e suspense, sendo difícil definir em qual deles melhor se encaixa. Pois é justamente a inserção de algum conteúdo dramático à trama baseada no romance "The Prince of Thieves", de Chuck Hogan, que muitos criticam dizendo que a indefinição do protagonista em seguir uma vida honesta ou continuar apoiando os amigos ocupa minutos preciosos que poderiam ser usados para cenas de ação.  Se elas não são oferecidas aos montes, as que foram incluídas são o suficiente para agradar aos fanáticos por adrenalina. Em geral todas são convencionais e não trazem novidades para este público, porém, vale destacar o serviço de mestre realizado na sequência de perseguição da polícia ao carro dos bandidos travestidos de freiras (os disfarces do bando são bem originais), com muita ação e sustos promovidos pela excelente direção e edição que conseguem fazer o espectador se sentir no meio de todo aquele alvoroço graças a escolha de filmar boa parte dos takes seguindo a perspectiva de quem assiste. Graças a Deus, sem efeitos 3D, apenas criatividade a serviço da obra. Desculpem os aficionados por ação ininterrupta, mas o forte deste trabalho é justamente os pontos dramáticos gerados entre os personagens. Affleck, também autor do roteiro em parceria com Peter Craig e Aaron Stockard, não se preocupa tanto em impressionar o espectador com cenas impactantes e super dosadas de adrenalina, mas tem sua atenção voltada ao desenvolvimento das personalidades e as situações que entrelaçam seus personagens.
 
Todos têm seu momento de brilhar e Affleck foi muito generoso ou consciente. Sabendo de suas limitações como intérprete, ele não fez questão de atrair os holofotes para o seu papel, sendo que em alguns momentos parece que o bandido de Renner é o protagonista tamanho seu destaque na narrativa. Isso revela seu amadurecimento, e não só como ator. Em seu segundo trabalho como diretor, o primeiro foi no suspense Medo da Verdade, este profissional revela-se mil e uma utilidades e prova que o tempo em que se dedicou a projetos bobinhos ou abraçou personagens mais densos em filmes menores só contribuíram para aumentar seu repertório cinematográfico, quase como um laboratório de observação de como as coisas funcionam nos sets de filmagens. Agora que pode colocar em prática seus projetos pessoais ele tem a oportunidade de mostrar tudo que aprendeu ao longo dos anos, inclusive os ensinamentos que pôde tirar das inúmeras críticas negativas que recebeu. Podem dizer que Atração Perigosa é previsível (será mesmo?), longo demais ou com pouca ação, mas para quem está cansado do gênero esta é uma boa opção para voltar a botar fé de que algum dia ele irá sair do limbo que certos astros musculosos e com pouca massa encefálica o jogaram. Aqui encontramos um filme com uma história de verdade na qual perseguições e tiroteios entram apenas como complementos, não são os pratos principais. Se Kevin Costner e Mel Gibson chegaram a ganhar o Oscar de direção, por que Affleck nem sequer foi indicado ao prêmio? Não ganharia obviamente, mas a indicação serviria como um incentivo para ele continuar seguindo este caminho, mas tal honraria não parece fazer falta ao rapaz. O galã de tantas comédias românticas prova definitivamente que está maduro, gosta de se arriscar e tem competência para lidar com as câmeras tanto à frente quanto atrás delas, além de saber expor ideias no papel.

Drama - 125 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.


Um comentário:

Rafael W. disse...

Também adorei o filme. Ben Affleck tem futuro como diretor, se tem.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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