terça-feira, 3 de junho de 2014

TOTALMENTE APAIXONADOS

NOTA 4,0

Longa explora os problemas que
o tempo de convivência traz, mas
apelas para piadas escatológicas
e personagens que não cativam
Estamos acostumados a comédias românticas protagonizadas por adolescentes, mas nos últimos anos o público mais maduro também tem se visto retratado no cinema em histórias do tipo, embora a maioria das vezes sendo pintados como adultos frustrados ou ainda irresponsáveis. Totalmente Apaixonados tem o mérito de juntar estas duas “qualidades” para desespero dos trintões e quarentões. Tentando dar uma injeção de ânimo ao combalido gênero, o diretor e roteirista Bart Freundlich, do superior Novidades do Amor, procurou falar de relacionamentos amorosos de uma forma mais madura abordando dois casais de idades semelhantes, mas com trajetórias opostas.  Rebecca (Julianne Moore) e Tom (David Duchovny) são casados já há um bom tempo e no momento estão vivendo uma realidade com a qual estão precisando se adaptar. Ela é uma atriz de cinema que decidiu experimentar a sensação de atuar nos palcos e ao vivo, o que lhe obriga a se dedicar a exaustivos ensaios. Seu marido, um publicitário de relativo sucesso, então optou por abandonar o emprego e se dedicar aos afazeres domésticos, o que inclui cuidar dos filhos pequenos. Provavelmente ambos estão passando pela crise de meia-idade, os anos de união estão pesando e eles não sabem muito bem o que querem da vida, assim de vez em quando o casal faz uma visita ao analista para tentar resolver seus problemas conjugais, principalmente os aspectos sexuais da relação. Já o outro casal é composto por Elaine (Maggie Gyllenhaal), uma escritora de livros infantis em ascensão, e o jornalista Tobey (Billy Crudup), um rapagão com síndrome de Peter Pan. Eles estão cerca de sete anos juntos, mas ainda não tornaram a união oficial, porém, a moça acha que chegou a hora de formar uma família, porém, como sonhar em ser mãe se o próprio marido seria um crianção? Em comum, além dos problemas de relacionamento, os casais têm laços de sangue e de amizade. Tobey é o melhor amigo de Tom e é o irmão mais novo de Rebecca esta que por tabela acabou se tornando muito amiga da cunhada. Perceberam o drama? Os problemas conjugais não ficam restritos as paredes de suas respectivas casas e são compartilhados entre os casais em forma de segredo, mas inevitavelmente cada dupla acaba discutindo sobre a vida dos outros defendendo seus pontos de vistas e seus próprios dilemas acabam sendo colocados em xeque no calor das discussões. E o bate-boca vai longe, pois pouco mais de uma e meia de duração parecem durar o dobro com a falta de boas piadas para dar uma arejada no texto que no fundo tem bases dramáticas.

Embora as pessoas estejam começando a ter relacionamentos afetivos cada vez mais cedo, é comum que busquem uma relação mais séria após os trinta anos, época em que já estão mais estabilizados financeiramente e com seus sentimentos amadurecidos, mas nem por isso a vida a dois está ficando menos complexa, pelo contrário, ao que tudo indica os problemas só aumentam com as responsabilidades, filhos, desafios profissionais, respeito ao companheiro e cuidados para em meio a esse turbilhão de coisas as pessoas não abdicarem de suas próprias vontades.  O leque de opções a serem trabalhadas por Freundlich era bem grande e poderia elevar o nível de seu trabalho a um retrato dos relacionamentos modernos, ainda mais contando com quatro personagens principais para dividir os problemas, no entanto, o diretor optou pelo caminho mais fácil: buscar o riso através da vulgaridade. O filme já inicia com tentativas frustradas de ser cômico apostando em piadas envolvendo fezes, arrotos e puns, um cartão de visitas nada convidativo, mas que de certa forma acha justificativa. A obra começa mostrando a rotina de Rebecca e Tom que há anos não desfrutam de um café da manhã na cama cobertos com lençóis de seda. O romantismo passou e agora começam o dia tentando lidar com naturalidade com suas próprias flatulências ou com os problemas gastrointestinais dos filhos. Elaine e Tobey não ficam atrás e pulam da cama ao som de peidos e com mau hálito. Sim, a intenção da obra é realmente mostrar que a vida de casal não é nenhum mar de rosas. Aqueles namorados bem arrumados e perfumados que circulam e causam inveja pelos shoppings e barzinhos um dia terão que se acostumar com esses lances bizarros e Freundlich vai fundo no realismo. Não faltam cenas envolvendo vômitos, engasgos, cuspidas e até a clássica falha do copo que vira e suja roupas. Isso sem falar nos vexatórios diálogos envolvendo sexo. Tom passa o dia curtindo pornografia na internet, mas quando está com a mulher quer prazer real, porém, ela só gosta da posição “papai e mamãe” e ainda muito raramente. O caso vai parar no divã de um terapeuta sexual e o que era para ser divertido torna-se inquestionavelmente constrangedor. Rebecca até tenta compreender o marido e ser solidária aos seus impulsos chegando a fazer a experiência de apenas narrar um filme pornô para o marido com os olhos vendados, uma forma de ele extravasar sua libido junto a sua parceira de anos. A cena não é grande coisa, mas uma das poucas que provoca um tímido sorriso nos lábios do espectador. Para o casal mais jovem o sexo não é bem o problema, mas sim o que ele pode trazer dentro de alguns meses. Tudo ia bem até que Elaine cismou em ser mãe, afugentando o companheiro que fica ainda mais confuso quando reencontra Faith (Eva Mendes), uma antiga namorada do colégio que não perde a oportunidade de flertar com ele.

Diante do desinteresse de Tom, a escritora além de descolar uma paquera lésbica, Norah (Ellen Barkin) também se arranja logo com Goren (Glenn Fitzgerald), um imigrante ilegal metido a intelectual, mas para fazer ciúmes para o ex está de bom tamanho. Tom também arranja uma paquera, Pamela (Dagmara Dominczyk), uma linda mamãe que costuma encontrar quando leva os filhos para a escola enquanto Rebecca é paquerada durante os ensaios de sua peça por Jasper (Justin Bartha), um jovem ator. Esses personagens adicionais só servem para encher linguiça, pior ainda, tem participações que entediam ainda mais a narrativa cujo final feliz está garantido para os protagonistas. Freundlich tenta inovar grosseiramente na condução de uma comédia romântica, mas não ousa a experimentar um final surpresa. Tendo como cenário a imponente e frenética Nova York e personagens um tanto neuróticos buscando a felicidade, Totalmente Apaixonados teria potencial para ser uma obra inspirada no estilo de Woody Allen, mas o resultado não chega aos pés, parecendo mais um American Pie para maduros desiludidos. O diretor até tinha boas intenções, mas parece não ter maturidade para levar a cabo suas ideias, assim de acordo com sua visão a vida em casal gira em torno do sexo. É importante, mas não é tudo. Ele até tenta inserir outras problemáticas, mas nunca as desenvolve generosamente, muito por causa da estrutura que adotou alternando as histórias dos casais, assim os assuntos nunca são explorados ao máximo, apenas citados. Aliás, a produção só prende mais a atenção quando temos as cenas de confidências entre amigos, pois os diálogos se tornam mais naturais, afinal muitos casais não conseguem falar de suas intimidades entre si, apenas com terceiros em quem confiam. Mesmo assim, além das falhas do roteiro que cena após cena parece querer cativar o repúdio do espectador, o que incomoda também é que não conseguimos nos simpatizar com os personagens, apesar dos esforços do elenco. Crudup não tem nenhum trabalho consagrado para servir de parâmetro, assim seu personagem desencanado convence sem muito esforço, ao contrário de Duchovny que a cada novo filme tenta surpreender, deixar para trás a imagem que construiu no seriado “Arquivo X”. Aqui parece que lhe caiu a ficha que seus dotes como ator são limitados e faz com sinceridade o mínimo que lhe exigem. Gyllenhaal foi revelada em um filme que gira em torno de um romance com apelo sexual, Secretária, mas não parece muito a vontade aqui, talvez pelo medo de não saber os limites do diretor para escancarar literalmente os podres de um casal. E Moore surpreende não por sua atuação, mas pelo fato de ter seu talento desperdiçado em algo tão bobo. Resposta: o diretor é seu marido. O que a força do amor não faz...

Comédia romântica - 96 min - 2006 

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