quarta-feira, 28 de agosto de 2013

VELOZES E MORTAIS

NOTA 6,0

Embora previsível e com carga
mínima de suspense, longa
prende atenção com atmosfera
claustrofóbica e boas cenas de ação
No momento em que um filme é lançado nem sempre é possível fazer uma avaliação correta, pois há muitos fatores que o cercam que podem influenciar ou afastar o público. Com o passar do tempo os efeitos negativos ou positivos das estratégias comerciais ainda podem exercer poder de persuasão e manipular a opinião dos espectadores. Um bom exemplo da ação do marketing pode ser verificada em “Highwaymen”, algo como os bandidos da estrada, que estreou no Brasil com o título Velozes e Mortais, escancaradamente uma alusão à franquia Velozes e Furiosos que em meados de 2004 ainda estava em seus primeiros capítulos, mas já somava uma grande quantidade de fãs. Essa jogada publicitária na época não surtiu efeito, o longa passou pelos cinemas sem causar furor, e certamente hoje em dia a forçada ligação entre as produções soa como truque para enganar trouxas. Outro ponto que poderia ter beneficiado a carreira do filme é que ele é estrelado por Jim Caviezel. Quem? Realmente o tempo passou e o ator não vingou como se esperava, mas na época ele estava em evidência por ser o protagonista de A Paixão de Cristo, um dos filmes mais polêmicos e de maior bilheteria daquele ano. Na verdade este projeto era um tanto desacreditado por seus realizadores e Caviezel nem aparecia no pôster original que dava destaque para a mocinha da trama vivida por Rhona Mitra. O rapaz filmou este trabalho sem grandes pretensões pouco antes de interpretar Jesus Cristo sob a batuta do diretor Mel Gibson, mas certamente a obra só viu a luz do dia após o mundo aplaudir o sofrimento do ator sentindo na pele as dores das chibatadas e da crucificação. Todavia, seria injusto dizer que este suspense só existe por conta de oportunismos. Embora não seja memorável, este road movie consegue prender a atenção do espectador com uma trama bastante simples e previsível. Roteirizado por Craig Mitchell e Hans Bauer, a narrativa segue a obsessão que rege o cotidiano de Rennie Cray (Caviezel), um homem amargurado e movido pelo sentimento de vingança que deseja encontrar o homem que há cinco anos atropelou propositalmente sua esposa. Vendo claramente o assassinato, ele não pensou duas vezes antes de perseguir o criminoso e acabou provocando um grave acidente que o levou a ser preso por três anos e a abandonar a carreira de médico, enquanto para James Fargo (Colm Feore), o verdadeiro bandido da história, sua pena foi ficar quase dois anos internado em um hospital, mas não para tratar de sua saúde mental e sim do seu físico que teve várias partes comprometidas que foram substituídas por peças mecânicas. No final das contas estes dois homens acabam se tornando inimigos mortais e por motivos semelhantes. De uma forma ou de outra, ambos tiveram suas vidas modificadas para sempre quando seus caminhos se cruzaram.

Ao sair da prisão, Cray passou a receber correspondências com recortes de jornais a respeito do acidente que matou sua esposa e sobre o que ele próprio provocou, alimentando ainda mais o ódio do ex-prisioneiro que transforma a obsessão de se vingar em sua razão de viver. Dirigindo seu carro, um velho Barracuda 1968, ele passou os primeiros dois anos de liberdade viajando pelas estradas norte-americanas em busca de pistas sobre Fargo, assim ele se tornou íntimo do passado e dos hábitos do criminoso que durante algum tempo trabalhou junto com o pai em uma companhia de seguros. Desde pequeno acostumado a ver imagens de acidentes de automóveis, chegou um momento que o rapaz se cansou desse voyeurismo passivo e decidiu ele próprio criar desastres, demonstrando claramente algum tipo de demência. Seu apreço por rodovias onde pode abusar da velocidade e se divertir com pessoas imprudentes que se arriscam em trafegar por regiões praticamente desertas aumentou após o acidente que Cray provocou. Paraplégico e convertido a uma espécie de híbrido de ser humano e máquina, incluindo membros inferiores e superiores artificiais, Fargo acabou transformando seu Cadillac Eldorado 1972 em uma extensão de seu corpo e uma verdadeira arma letal. Fora do veículo ele não era nada, mas quando de posse do volante ele virava um frio seriall killer cujas vítimas preferidas são mulheres, provavelmente uma forma doentia de compensar sua impossibilidade de sentir prazer sexual. Por ser quase um robô, ele podia fazer o que quisesse com suas vítimas sem deixar rastros de suas digitais ou sangue e a ausência de multas em seu nome pode ser justificada pela inexistência de seu veículo em documentos oficiais, sendo ele mesmo quem fazia os reparos e adaptações necessários em um galpão improvisado. Mesmo assim Cray, sempre em seu encalço, conseguiu encher seu porta-malas de “pedaços” do corpo de seu inimigo que iam se desprendendo a cada novo acidente fatal que provocava. O porquê do justiceiro não ter ajudado as mulheres que morreram nestas circunstâncias é um mistério, mas o fato é que Molly Poole (Mitra) teve sorte. Com medo de dirigir por conta de um trauma de infância, ela também foi a única sobrevivente de um grave acidente dentro de um túnel causado propositalmente pelo psicopata. Acostumado a guardar algum tipo de souvenir das vítimas, Fargo fotografa a jovem antes de fugir, um indício de que esteja onde estiver ele iria a perseguir. Graças ao rádio amador que capta a comunicação entre as viaturas policiais que instalou em seu carro, Rennie chega até o local do acidente e se aproxima de Molly, a grande chance de bolar um plano que finalmente capturasse seu algoz, um encontro onde só um desses homens poderia sair vivo, porém, até a garota inocente estaria correndo riscos nessa situação.

Ao contrário da grande maioria das produções sobre seriais killers, é interessante que neste caso a identidade misteriosa não é usada como ponto-chave da narrativa. Lá pela metade do longa, diga-se de passagem, que é relativamente curto, já ficamos conhecendo quem é o criminoso e seus segredos. Ele não é mascarado e tampouco utiliza facas, machados, foices ou qualquer outro objeto cortante, mas de certa forma usa o carro como armadura e literalmente como sua “ferramenta de trabalho”. Como entretenimento rápido e escapista, Velozes e Mortais pode funcionar bem, desde que você esteja de bom humor para encarar um emaranhado de cenas repletas de adrenalina, algumas bem feitas, outras inverossímeis e muitos sustos fáceis. Provavelmente tudo o que está presente nesta produção tem certo clima de déja vu e não é a toa. A direção é de Robert Harmon, o mesmo que emplacou o sucesso oitentista A Morte Pede Carona que trazia o esquecido Rutger Hauer como um homem aparentemente comum que pedia ajuda nas estradas, mas na realidade era um psicopata que se divertias à custa do sofrimento de suas vítimas. Qualquer coincidência, portanto não é mera coincidência. Os road movies de horror parece um subgênero que agrada. Existem diversas produções pequenas lançadas diretamente em DVD que procuram provocar tensão com histórias de pessoas que fazem viagens provavelmente sem volta, sendo que o longa de Harmon tem uma atmosfera que em certos momentos lembra o clima angustiante de Perseguição – A Estrada da Morte que por sua vez é inspirado em Encurralado, um dos primeiros filmes assinados por Steven Spielberg. Realmente é de causar arrepios o silêncio da noite sendo cortado pela voz de alguém ecoada por um rádio amador com direito a chiados característicos e imaginar que em qualquer lugar alguém pode estar a espreita controlando cada passo seu e prestes a atacar. Por conseguir recriar esse clima tão particular desse tipo de filme, esta obra já escapa de ser uma canoa furada ou, com o perdão do trocadilho, um carro desgovernado, e é inegável que a atmosfera claustrofóbica, mesmo com cenas em ambiente aberto boa parte do tempo, e as manjadas ou inverossímeis cenas de ação são os elementos responsáveis por prender a atenção do espectador que não tem o respaldo de um grande mistério a desvendar, a não ser descobrir quem ganhará essa parada. Nem é preciso dizer como tudo acaba, embora Caviezel se mostre um herói pouco carismático, ainda que realista, e seu empenho em capturar o assassino seja bem maior que o da própria polícia representada pelo investigador Will Macklin (Frankie Faison) que está no enredo apenas para fazer número, sendo sua participação dispensável. De qualquer forma, vale uma sessão-pipoca.

Suspense - 81 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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