terça-feira, 16 de abril de 2013

O GALINHO CHICKEN LITTLE

NOTA 6,5

Disney procurou modernizar
seu estilo de fazer animações,
mas produção só vale mesmo
pelos personagens simpáticos
Quando a Disney engrenou de vez pelo caminho da distribuição dos produtos da Pixar ela acabou perdendo praticamente sua identidade. O estúdio dos grandes clássicos infantis tentou se comunicar com as novas plateias investindo em roteiros mais “imaginativos” (entenda-se longe dos contos clássicos, mas pouco originais), porém, acabou sendo suplantado pela concorrência acirrada de outras empresas que vieram com tudo para conquistarem seus espaços no mercado de animação. Depois de sucessivos fracassos de bilheterias de produções em formato tradicional e com enredos simplórios, como Atlantis – O Reino Perdido e Nem Que a Vaca Tussa, a Disney decidiu investir em trabalhos próximos ao estilo computadorizado que fizeram a fama de Monstros S.A. e Procurando Nemo, por exemplo. É bom lembrar que até então o estúdio do Mickey Mouse só distribuía os filmes da Pixar, passando a participar ativamente da produção dos desenhos apenas em 2007. Dessa forma podemos considerar que O Galinho Chicken Little foi uma tentativa da produtora de animações mais famosa do mundo tentar desbravar novos caminhos e provar que ainda podia andar com as próprias pernas, porém, a iniciativa não gerou bons resultados.  A primeira investida solo da empresa no campo da animação totalmente digital gerou um longa que a crítica especializada recebeu com frieza e cheia de preconceitos e nem mesmo o público deu muita bola. Para muitos essa decisão significava dar mais valor a tecnologia e imagem do que ao roteiro e a emoção, mas com capricho e imaginação é possível aliar as duas coisas em um mesmo filme. Obviamente comparar esta animação relativamente simples com Shrek ou Os Incríveis é uma tremenda covardia. Com estilo de episódio esticado de série animada de televisão, é preciso se ater somente a este produto para poder perceber que o mesmo cumpre o que promete: simplesmente divertir, principalmente a garotada. O grande foco desta produção é discutir as relações familiares e o velho gancho dos excluídos dando o troco e se dando bem. Para tanto recorre a personagens cativantes e com características suficientes para serem tratados como os estranhos da turma da escola e até mesmo da cidade, a começar pelo protagonista, Chicken Little, um galinho que colocou todos a sua volta em situação de desespero quando afirmou que um pedaço do céu havia caído em cima dele e que o fim do mundo estaria próximo. Na realidade ele foi atingido por uma avelã, mas por ser muito miúdo acabou confundindo. A partir de então ele passou a ser desprezado pelas pessoas e nem com o apoio de Pedro Galo, seu pai, podia contar já que eles tinham uma relação aparentemente amigável, porém, não havia estímulo para o galinho enfrentar desafios.

A vida de Little muda completamente quando ele toma coragem e participa de um jogo de beisebol da escola e vira o jogo literalmente, mas não demora muito e ele pode voltar a ser alvo de chacota quando novamente passa a acreditar que o céu está caindo. Só seus amigos mais próximos acreditam nele, mas desta vez realmente algo estranho caiu lá de cima diretamente em seu quarto e essa era sua grande chance de provar seu valor para todos enfrentando o desconhecido. Assim o franguinho e sua turma armam às escondidas um plano para desvendar o mistério e dessa forma deixarem para trás de vez a alcunha de perdedores. O roteiro escrito por Steve Bencich, Ron J. Friedman e Ron Anderson não traz inovações e é até bem previsível, assim funcionando para entreter as crianças pequenas, mas para as mais crescidinhas e os adultos a produção pode não ser tão chamativa. O diretor Mark Dindal, o mesmo de A Nova Onda do Imperador, mais uma tentativa da Disney em se comunicar com o estilo da garotada dos anos 2000, criou uma obra que deixa explícita sua lição de moral pela relação de pai e filho, mas arrisca dar uma inovada em seu hall de personagens criados para serem os "escadas" do protagonista. Realmente, o que salva a produção são os tipos carismáticos criados, uma prova que a Disney continua imbatível nessa área, todavia, para muitos é discutível a gama de personagens criados para explorar o tema dos rejeitados e suas inúmeras tentativas de a qualquer custo se manterem em evidência. Em sua maioria eles servem como arquétipos. Hebe Marreca é uma pata dentuça e com grandes olhos que não se importa de ser chamada de feia e se informa sobre tudo que precisa através de revistas para adolescentes descoladas. Ela é a amiga conselheira, mas que muitos repudiam por não ser um exemplo de beleza. O Raspa de Tacho talvez seja o mais estereotipado de todos. O gordinho atrapalhado da turma (o tipo nunca pode faltar quando se discute preconceito) ainda por cima curte algumas músicas e têm certos trejeitos que denunciam uma tendência homossexual, algo que passa despercebido pelos pequenos, mas alguns adultos pescam a ideia e repudiam a menção em um produto Disney. Falando em pescar, também temos o Peixe Fora D'Água, outro aluno do colégio que sobrevive fora da água graças a um escafandro. Sem falar uma única palavra, ele é tão cativante e engraçadinho quanto os outros e rouba a cena com inspiradas e divertidas gags visuais. Juntos com Chicken Little, que tem cara de intelectual e uma cabeça desproporcional ao corpo provando sua veia cerebral, mas nem por isso ele se esconde e faz questão de usar óculos com armação colorida e roupas da moda, como um nerd moderno, eles formam o time dos excluídos do colégio, como fica claro em uma sequência em que eles participam de uma aula de educação física na qual até mesmo o professor divide a turma entre espertos e manés. Mostrados de forma franzina e ridicularizada, eles ganham suas versões dos sonhos em um filme dentro do filme que encerra a projeção. Só por esses e outros tipos que formam uma incrível galeria de personagens já é possível dizer que esta animação não foi feita em vão.

Quando estreou, o longa trazia a esperança de uma nova era para o estúdio que fez sua fama com as histórias de princesas e bruxas, algo já ensaiado alguns anos antes quando apostaram suas fichas em Lilo e Stitch atingindo certa repercussão e bilheteria considerável. Com o mercado inflado com novas empresas investindo no campo em que antes dominava, a Disney estava correndo contra o tempo e procurando reunir em um mesmo produto as características que marcaram seus concorrentes: história moderninha, ágil, trilha sonora pop e as citações de outras obras do cinema ou qualquer outra coisa que pudesse ser encaixado na narrativa de forma a serem facilmente identificados pela plateia e causar humor. Assim temos a música-tema de Indiana Jones em certa passagem e é feita uma comparação de um conflito desenvolvido na narrativa com a clássica história de Guerra dos Mundos, além de algumas músicas que marcaram época nas vozes de Barbra Streisand e do extinto grupo Spice Girls pontuarem a trama. Com boa vontade e uma apreciação descompromissada, este desenho apresenta-se como uma excelente opção para agradar crianças e adultos, mas não foi o que aconteceu em sua passagem pelos cinemas e nem mesmo no mercado do home vídeo a produção mostrou seu potencial. O visual colorido, muita agitação e personagens engraçadinhos tratam de fazer a alegria da molecada, mas seus pais ficam com o pé atrás. Muito porque os mais grandinhos que já deixaram de gostar dos desenhos que passam na TV devem questionar o mesmo tratamento dado ao filme. Algumas sequências realmente deixam clara a falta de experiência dos animadores com novas tecnologias, algo muito notado pelos cenários de fundo serem pobres em detalhes e estatísticos, além do fato de que algumas cenas são carregadas demais em tons escuros, como as do quarto de Little ou quando o mistério das quedas do céu é solucionado. Faltam elementos que tragam vida a tais sequências e até a rapidez de algumas delas incomoda, mas dos males o menor. O bicho pega mesmo pelo fato do roteiro vira e mexe abrir espaço para um discurso de auto-ajuda. A todo o momento o galinho quer afirmar sua competência e esperteza, combinando bem com sua carinha de gênio, o que acaba picotando a narrativa e provavelmente entediando quem não está mais em fase escolar. E não se pode deixar de mencionar a péssima ideia de dublarem boa parte das canções, o que resultou em versões com letras bizarras e uma trilha sonora por vezes irritante. Enfim, O Galinho Chicken Little está longe de ser uma animação perfeita e que vai de encontro ao que o público do século 21 espera, mas é um trabalho que merece uma nova avaliação por parte do público e crítica e ser apresentada a novas gerações. Mas para se divertir totalmente, como já dito, é preciso evitar as comparações e procurar manter o espírito critico menos ativo, caso contrário você não conseguirá chegar nem mesmo a metade do longa, ainda mais quando você ouvir o protagonista berrar em alto em bom som “eu sou o champiom”.

Animação - 77 min - 2004 

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