segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

UM HERÓI DE BRINQUEDO

NOTA 7,0

Com os costumeiros exageros das
produções natalinas, longa diverte e
traz uma atemporal crítica ao espírito
consumista que impera no fim de ano
Que saudades do tempo em que as crianças acordavam no dia 25 de dezembro empolgadas para ver se ganharam os brinquedos que pediram de Natal. Hoje muito cedo elas estão trocando as cartinhas para o Papai Noel por mensagens diretas aos pais através de celulares e ipads que provavelmente serão trocados por produtos idênticos entregues comodamente por sites de empresas loucas para destroçarem lojas físicas. Qual a graça de uma festa sem surpresa, magia e principalmente corre-corre de última hora? Assistir Um Herói de Brinquedo é nostalgia pura, é lembrar de uma época em que os brinquedos já flertavam com os avanços da tecnologia, mas ainda assim deixavam espaço para a imaginação da criançada rolar e não as escravizavam. O gostinho de lembrança boa é acentuado ao ver o grandalhão Arnold Schwarzenegger fazendo caras e bocas a cada tropicão ou vacilo ao tentar realizar o desejo do filho. Ele vive Howard Langston, o típico homem de negócios que coloca o trabalho à frente da família, não raramente frustrando a esposa Liz (Rita Wilson) e o pequeno Jamie (Jake Lloyd). Após perder a apresentação de caratê do garoto na qual ele trocaria de faixa, para tentar compensar mais um furo ele promete dar ao menino qualquer coisa que pedisse para o Natal. O filho então pede algo aparentemente muito simples: um boneco do "Turbo Man", o brinquedo sensação da época oriundo de uma série de TV. Teoricamente ele poderia ser encontrado facilmente em qualquer loja de brinquedos ou departamentos, mas não às vésperas dos festejos natalinos. Todas os estabelecimentos estão com estoques zerados, mas Langston se propõe a cumprir sua promessa custe o que custar e assim ele se mete em uma série de enrascadas em uma verdadeira odisséia em busca do boneco tendo em sua cola o carteiro Myron Larabee (Sinbad), um trapaceiro que também fez a mesma promessa ao filho.

Comédias não eram novidades para Schwarzenegger visto que já havia se aventurado no gênero com sucesso em Um Tira no Jardim da Infância e Irmãos Gêmeos, este no qual ironicamente vivia o irmão do baixinho e rechonchudo Danny De Vito. A parceria por muito pouco não foi retomada neste projeto que chegou a ser veiculado no Brasil com o melodramático título de "O Presente ou a Vida", nada a ver com o conteúdo alto astral da fita. Se outrora a gritante diferença física entre os atores foi fator determinante para estrelarem um filme juntos, aqui foi o ponto-chave para tirar o tampinha da jogada. Como por várias vezes Langston e Larabee teriam que se enfrentar em corridas e medir forças ficaria desigual e pouco crível o embate entre os personagens. Contudo, o próprio astro da ação não era a primeira opção para o protagonista. Schwarzenegger estava escalado para a refilmagem de O Planeta dos Macacos, que acabou se tornando realidade apenas em 2001 com Mark Wahlberg encabeçando o elenco. Como tinha uma obrigação contratual com o estúdio Fox de realizar um filme ainda no ano de 1996, acabou topando participar do longa assinado pelo diretor Brian Levant, habituado a comédias familiares como O Pestinha e Os Flintstones. A fita assumidamente é um clássico do estilo sessão da tarde, mas no fundo traz uma bem-vinda crítica social. Ou melhor, são várias alfinetadas, mas diretamente relacionadas. Infelizmente é muito comum pais que na expectativa de darem uma boa vida financeira à família acabam se dedicando demais ao trabalho e tentam compensar a ausência com presentes e o comércio está sempre atento a essa problemática social, mas para tirar proveito próprio. Não basta dar um brinquedo qualquer a uma criança. Se é para presentear a molecada quer o lançamento do momento, aquele produto que vai poder mostrar aos amigos não com o intuito de compartilhar a diversão, mas no fundo ter o prazer sádico de despertar inveja nos outros.

Essa é uma interpretação que podemos fazer do roteiro de Randy Kornfield, mas felizmente o garoto Jamie não tem uma alma tão perversa. Sentimos a inocência em seu pedido ao pai, como se ganhar exatamente aquilo que pediu fosse a prova de que o workaholic se importa com ele tendo o trabalho de enfrentar trânsito e fila na loja para conseguir o presente. Mal sabe o pequeno quanto  aos perrengues que o paizão enfrentará, incluindo se meter com uma gangue de bons velhinhos de fachada que ganham a vida vendendo produtos piratas (mais um ponto reflexivo da trama) e até mesmo encenando por acaso uma aventura trajando o uniforme do tal super-herói durante uma parada de Natal. Em paralelo, Langston ainda tem que aguentar as provocações de Ted (Phil Hartman), seu vizinho recém-separado que não perde uma oportunidade de dar em cima de Liz. Um Herói de Brinquedo não é uma simples produção com mensagem edificante, diga-se de passagem, no caso bastante explícita (seja um herói para seu filho e família), mas até hoje faz uma contundente crítica ao verdadeiro espírito natalino suplantado pelo exagero do consumismo. A ideia da trama surgiu justamente das memórias de Kornfield quando viu seus sogros passando o maior sufoco para encontrar um boneco dos Power Rangers para agradar seu filho. Responsável pelo clássico Esqueceram de Mim e sua primeira continuação, Chris Columbus, que assina como produtor, também deu seus pitacos no enredo rememorando situações que vivenciou tentando encontrar um boneco de Buzz Lightyear da animação Toy Story lançada um ano antes. Quem nunca levou ao menos uns empurrões em uma loja de brinquedos na ânsia de agradar uma criança que atire a primeira pedra. É justamente por essa identificação que todos os exageros do filme são perdoados. A magia natalina está no ar e não há esforço algum que fique sem compensação ao conseguir um sorriso como agradecimento sincero de uma criança.

Comédia - 90 min - 1996

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