sexta-feira, 20 de junho de 2014

LANCELOT - O PRIMEIRO CAVALEIRO

NOTA 6,5

Épico tem belo visual e boas
cenas de batalhas, mas ganchos
dramático e romântico soam fracos
com apoio de interpretações apáticas
A história do Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda sem dúvidas é uma das mais famosas do período da Idade Média e desde seus primórdios a sétima arte mostra-se apaixonada pelo conto que já ganhou diversas adaptações, mas a impressão que temos é que a cada nova releitura a força e fascínio originais vão se esvaindo. Talvez isso explique o porquê da superprodução Lancelot – O Primeiro Cavaleiro não tenha se tornado um marco. Filmado em 1995, na época o filme já era desnecessário resumindo-se a mais um produto hollywoodiano que visava lucrar em cima de uma receita consagrada somada a dois nomes de peso no elenco. De qualquer forma, a tentativa de reciclar um texto clássico de tempos em tempos é sempre válida para despertar a curiosidade das novas gerações, tanto que em meados da década de 2000 uma nova releitura das aventuras do Rei Arthur foi concebida. Filmes épicos costumam ter público cativo e arrematar novos adeptos com visuais pomposos e promessa de efeitos especiais de ponta, mas essa não era a praia do diretor Jerry Zucker, famoso pelo humor inteligente de Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e por fazer milhões de pessoas se emocionarem com Ghost – Do Outro Lado da Vida. Em sua experiência no mundo medieval, no entanto, ele demonstra certo desconforto. Na realidade, ele faz um trabalho apenas correto, limitando-se a apresentar o mínimo que se espera de uma produção do tipo. Belos cenários e figurinos, um pouco de contexto histórico e cenas de batalha bem coreografadas estão no cardápio, mas falta ousadia à obra, principalmente no que diz respeito ao gancho romântico. Como torcer para um casal que não desperta simpatia? E como explicar o fato de que o vilão é de longe o personagem mais bem construído mesmo sem estar ligado diretamente ao romance da trama? Com auxílio de Lorne Cameron e David Hoselton, o roteiro criado por William Nicholson, baseando-se na obra do romancista inglês Thomas Malory, começa com um violento ataque ao vilarejo de Leonesse, na Inglaterra, comandado pelo Príncipe Malagant (Ben Cross) que sonha em comandar o local. Este episódio e alguns outros semelhantes parecem provocações para que a população se submeta as ordens deste homem arrogante, mas Guinevere (Julia Ormond), a filha do recém-falecido líder da vila, está disposta a impedir que ele tome o poder aceitando se unir ao rei de Camelot, Arthur (Sean Conney).

Durante a viagem para oficializar o compromisso com o monarca, Guinevere e sua comitiva são atacados por um violento bando, provavelmente a mando de Malagant, mas ela é salva por um desconhecido que logo passa a cortejá-la. Ele é Lancelot (Richard Gere), um corajoso andarilho que segue sua vida sem um destino concreto, mas sente que o encontro com a jovem não foi por acaso. Usando a lábia de um conquistador anos-luz a frente do seu tempo, o forasteiro fica ainda mais interessado quando a jovem mostra-se durona e então pela primeira vez em muito tempo ele tem um objetivo a cumprir: conquistá-la. Ele acaba conseguindo entrar de penetra na festa de comemoração à oficialização do noivado do rei e até participa de um desafio para ter como prêmio um beijo da futura rainha. Obviamente ele ganha a prova, mas renega a recompensa limitando-se a um gesto educado. Arthur fica impressionado com a prova de coragem e educação do forasteiro, contrariando as expectativas de que ele fosse um grosseiro, mas não consegue entender como alguém consegue viver sem criar vínculos. De qualquer modo, o aventureiro é convidado a ficar na cidade até o casamento, evento que iria colocar o vilarejo de Leonesse sob a proteção de Camelot, mas antes disso acontecer Malagant, um desertor do reino, aparece para uma última tentativa de negociar com o rei a respeito do comando da pequena vila. Ele fazia parte do grupo da távola redonda, mesa circundada pelos homens de confiança do monarca onde não há cabeceira, todos são iguais, mas o príncipe se achava superior e preferiu se desligar da seleção e trilhar seu próprio caminho como líder. O problema é que sua forma de governar, ainda que não oficialmente, é tirana e muitos inocentes perderam suas vidas sem explicações. Não havendo acordo, Malagant arma um plano para sequestrar Guinevere e assim pressionar Arthur a lhe ceder o controle de Leonesse, mas não é preciso ser adivinho para saber quem será o herói que salvará a mocinha. Dando mais uma prova de coragem, Lancelot é condecorado pelo rei como novo cavaleiro, mesmo com a repulsa dos demais conselheiros que o consideram um estranho e a própria justificativa de Guinevere que defende o espírito livre do rapaz. Estava na cara que existia algo além de uma simples amizade entre a futura rainha e seu salvador e a garota estava tentando se afastar da tentação, mas Arthur quis procurar sarna para se coçar e preferiu manter o possível amante da noiva por perto, talvez como uma forma de forçá-la a provar o amor e respeito que ela jurava ter uma vez que ele lhe deu a opção de desistir do casamento sem qualquer tipo de ônus para seu vilarejo.

A história resumida não é ruim, até propõe um anticlímax com Lancelot assistindo o casamento de sua amada e se conformando com a situação, mas seguindo o texto original uma hora os sentimentos explodem e um único beijo pode colocar a cabeça do mais novo cavaleiro a prêmio quando Arthur vê com seus próprios olhos aquilo que no fundo já sabia e fazia questão de negar. É mais óbvio ainda que Malagant não ia ficar quietinho após o sequestro de Guinevere dar errado e graças a sua ira e impulsividade Lancelot escapa da morte e mais uma vez consagra-se como herói enfrentado-o. Não é surpresa alguma fazer tais revelações visto que o conto é de fama mundial, amplamente readaptado pelas mais variadas formas de manifestações artísticas e não há aula de História com foco na Idade Média que deixe de citá-lo. Para adicionar um quê de novidade à trama, Zucker redefiniu as idades dos personagens. Na lenda original, Arthur é um quarentão e seu mais fiel aliado é um jovem com seus vinte e poucos anos, mas o diretor preferiu que o rei ganhasse um perfil sexagenário, aproveitando-se do título nobre que Connery ostenta, o que não chega a comprometer o conjunto, no entanto, Gere vivendo Lancelot não convence. Obviamente escalado para chamar a atenção do público, principalmente feminino que costuma torcer o nariz para produções épicas, o então charmoso quarentão surge em cena sem brilho, arrogante em alguns momentos e sua falta de química com a insossa Ormond só ajudam a transformar Lancelot – O Primeiro Cavaleiro em um passatempo descartável. O trio de atores principais parece desconfortável ao viverem personagens célebres da literatura e com medo de errar se limitou ao básico de seus perfis, o que resultou em tipos que não cativam e que travam diálogos que carecem de espontaneidade. Em alguns momentos o longa alcança ritmo de produção amadora, como no primeiro encontro de Lancelot e Guinevere ou quando Arthur descobre o romance entre eles. A ausência de fortes emoções nos remete a um teatrinho escolar em que os temas podem ser apenas sugeridos, assim falta fogo para justificar uma paixão a primeira vista assim como também prejudica o jeito comedido de Connery que leva a sério demais o fato de seu monarca ser uma pessoa de princípios e justo, mas cadê a explosão ao ver a mulher que tanto ama sofrendo por outro? Embora seja um dos trabalhos mais irrelevantes do veterano, ele afirmou na época ter adorado participar do filme, ainda que não tenha poupado críticas a desorganização nos bastidores das filmagens e a falta de disciplina de Gere que constantemente chegava atrasado ao trabalho. Comentários verdadeiros ou não, o fato é que o filme merecia ter sido mais bem lapidado, mesmo se necessário reunir toda a equipe para rodar novas cenas. Do jeito que foi lançado o gostinho amargo de decepção é inevitável. Já diz o ditado, a pressa é a inimiga da perfeição.

Aventura - 132 min - 1995 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

Marcelo Keiser disse...

Assisti a esse filme no cinema. Particularmente, entre dezenas de releituras em volta do rei Arthur essa é uma das minhas preferidas. Ainda que não seja impecável, eu daria uma nota superior a essa aventura épica.

abraço

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