quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

MULHERES PERFEITAS

NOTA 7,0

Antigo filme de suspense
ganha um remake
calcado no humor, mas a
idéia não é das melhores
É possível uma idéia que foi concebida para um gênero ser transformada para outro completamente oposto? Bem, um romance virar um drama ou vice-versa ou um policial ganhar doses de adrenalina e passar a ocupar uma vaga na categoria de ação dá certo, mas o que dizer de um suspense modificado para ser uma comédia? A tentativa do diretor Frank Oz mostra que não dá certo ou ao menos foi isso que os lucros de Mulheres Perfeitas acusaram. Muita gente torceu o nariz para a adaptação cômica do filme Esposas em Conflito, um suspense com toques futuristas datado da década de 1970. Como ele não passou nos cinemas brasileiros e foi muito mal lançado em DVD no embalo do remake, não há muito como fazer comparações, até porque o longa é uma raridade e pouca gente assistiu. O intuito da antiga obra literária era discutir como os homens estavam encarando as conquistas das mulheres em um período de grandes transformações e fazer uma reflexão sobre como uma ação para barrar esses avanços poderia acabar virando um pesadelo. Todavia, resta nos atermos a análise da produção estrelada por Nicole Kidman que não vai a fundo na discussão original. A premissa básica da história homônima do livro de Ira Levin, o mesmo que escreveu O Bebê de Rosemary, foi mantida, mas muitos elementos foram adicionados para deixar o projeto mais comercial e provocar um humor bem no estilo sessão da tarde, cheio de piadas visuais e personagens estereotipados. A mulher de negócios mostra sua determinação nas roupas e no estilo do cabelo. Seu marido é tão submisso que até suas vestimentas ajudam o próprio a se diminuir. Temos um casal que a mulher rebelde usa roupas escuras e é desbocada enquanto seu companheiro transparece seu espírito bonachão através de camisas coloridas, embora sua cara já seja o bastante para tanto. Ah, e obviamente não falta um gay para trocar idéias sobre decoração e moda que acaba provocando risos involuntariamente com suas falas bem divertidas. 
 
Se você não sabe do que se trata o filme e não compreendeu qual a liga existente entre os personagens destacados acima, lá vai o enredo. Joanna Eberhart (Nicole Kidman) é uma mulher que conseguiu uma ascensão meteórica no mundo do entretenimento produzindo realities shows, porém, sua última criação não agradou, gerou confusão e ela acabou sendo demitida da emissora a qual se dedicou durante anos. Ela acaba se deprimindo e seu prestativo marido Walter (Matthew Broderick) tenta ajudá-la e decide pedir demissão do cargo de vice-presidência da empresa (pasmem!). O próximo passo para reconquistar o equilíbrio é a mudança de endereço. O casal se muda com os filhos para Stepford, um condomínio que praticamente é uma cidadezinha dos sonhos e que aparentemente parou no tempo. Tudo por lá é lindo, perfeito, as casas são decoradas em estilo clássico e as mulheres estão sempre bem vestidas e preocupadas com tarefas domésticas e assuntos tipicamente femininos, embora isso não impeça o homossexual Roger (Roger Bart) de se sentir extremamente a vontade no local. Enfim, o lugar é perfeito para relaxar e começar uma nova vida. Joanna tenta ser como as demais damas do vilarejo para agradar o senhor Eberhart, mas logo ela passa a desconfiar que exista algo de errado na cidade administrada por Claire (Glenn Close) e Mike Wellington (Christopher Walken), uma espécie de casal anfitrião. Com a ajuda de sua amiga Bobby (Bette Midler), uma escritora despachada que também não concorda com o estilo de vida “stepfordiano”, a ex-executiva irá investigar e descobrir a fórmula para tanta perfeição na cidade. Bem, tirando o fato de um homem perder um excelente emprego para não deixar a esposa se sentir por baixo, o enredo até que funciona em tese para comédia. O problema é saber que suas raízes vieram de uma obra literária que flerta com o surreal e o terror e que tem muito mais a oferecer a quem desejar conhecê-la. Respeitando o que seria o grande trunfo desta comédia (hoje não é mais, porém, sempre tem alguém que ainda não viu) o segredo de tanta perfeição das mulheres que habitam Stepford não será revelado aqui. Justamente o clímax de tudo não agradou nas exibições teste e acabou sendo refilmado, mas não adiantou muito. As explicações continuaram tão inverossímeis quanto antes.

Oz, o mesmo que dirigiu a divertida versão original e britânica de Morte no Funeral, que depois também ganhou uma refilmagem rala em solo americano, tentou fazer com que a idéia do livro de Levin penetrasse entre as mais diversas platéias, mas o projeto com caráter extremamente comercial não fez sucesso, mesmo com um elenco repleto de nomes famosos, alguns com bons desempenhos e outros com passagens esquecíveis. O elenco masculino realmente está bem apagado. Broderick com sua cara de adolescente não convence como chefe de família e não há o menor clima de amor entre seu personagem e o de Nicole. Ela, por sua vez, segura as pontas como pode e tem até seus bons momentos, mas não empolga. O melhor mesmo, em termos de comédia, fica nas mãos dos coadjuvantes com as piadas provocantes de Bobby e o deslumbramento e frescuras de Roger. Também vale destacar a presença da veterana Glenn Close, figura rara no cinema nas últimas décadas, embora seu papel não faça jus a seu talento, mas ela até que ficou muito bem vestindo figurinos a la boneca Barbie. Apesar dos furos sem respostas ou com explicações pouco convincentes, como as dadas para compreendermos como a Joanna durona e de cabelos curtos e escuros foi transformada numa submissa loira e dona de casa exemplar, ou até mesmo situações que escancaram qual é o segredo do enredo, Mulheres Perfeitas não é um desastre total se você encarar a produção como uma pedida para preencher horas vagas e para pura distração. Não sendo muito crítico, é possível dar algumas risadas com a história e se deslumbrar com os excelentes cenários, figurinos e fotografia, merecendo destaque os créditos iniciais que mostram vídeos em preto e branco com imagens de mulheres sorridentes realizando tarefas domésticas e exibindo com orgulho seus eletrodomésticos de último tipo, tudo bem típico da década de 1950. De qualquer forma, ficamos na esperança de que o real conteúdo do livro homônimo, também conhecido no Brasil como “As Possuídas”, possa ganhar uma nova chance e a trama seja seguida a risca, possibilitando inclusive reflexões. Tim Burton estava cotado para dirigir a adaptação cômica, mas desistiu. Assista a versão de Oz e imagine o conteúdo em versão de suspense pelas mãos do mestre das bizarrices. Resultado: candidato imediato a obra cult.

Comédia - 92 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.
 

Um comentário:

Luís disse...

Acho o filme meio ruim, mas confesso que eu me divirto bastante com ele.

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