quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O GRINCH (2000)

NOTA 9,0

Adaptação de clássico americano
natalino aborda solidão e intolerância
de forma a agradar crianças e adultos e
ainda critica o comercialismo da época
O Brasil ao longo dos anos até criou algumas tradições natalinas no campo da culinária e quanto as formas de se presentear e até mesmo comemorar, mas quanto a decoração não há como fugir das influências vindas do exterior, principalmente dos EUA. Papai Noel, duendes, renas, trenós, floquinhos de neve, meias decorativas dependuradas, enfim nada tem a ver com nosso clima tropical. No entanto, quando se tenta fugir dos enfeites tradicionais o Natal não é o mesmo, principalmente quando se tem ou vai receber crianças em casa, uma excelente desculpa para adultos voltarem à infância. Geralmente montamos uma árvore bem enfeitada e iluminada e espalhamos alguns enfeites pela casa, principalmente na sala, mas quem nunca imaginou ter toda a residência preparada para as festividades? Melhor ainda, viver o clima natalino absolutamente todos os dias do ano! Nesses aspectos, O Grinch é seguramente a realização dos sonhos de muitos com um visual de encher os olhos e até mesmo emocionar. Embora sua mensagem de amor e solidariedade seja preservada como todo bom filme de Natal que se preze, esta produção é acima da média por sua criatividade e sarcasmo, afinal por trás de todo seu colorido está a amarga realidade de que o festejo perdeu sua essência religiosa e se tornou puro comércio e interesse material. O enredo é baseado no livro "Como o Grinch Roubou o Natal", de Theodore Seuss Geisel, ou simplesmente o famoso Dr. Seuss. Lançada na década de 1950, a publicação logo se tornou um clássico entre as crianças norte-americanas, mas aos poucos sua fama rompeu fronteiras e passou a ser conhecida mundialmente, inclusive por conta de um antigo desenho animado feito para a TV. Toda a ação acontece dentro de um microscópico floco de neve onde fica o reino de Quemlândia, um lugar tomado pelo clima de festejos natalinos todos os dias do ano. Todos tem verdadeira adoração pela época do ano prolongada, menos a garotinha Cindy Lou (Taylor Momsen) que passa a questionar qual o verdadeiro sentido das coisas, principalmente compreender o fascínio que Papai Noel e tudo que possa lembrá-lo exerce sobre os outros Quem (como são chamados os habitantes da terra mágica).

Se todos falam em confraternização e união, intriga muito a garotinha o fato de um único Quem viver afastado nas montanhas geladas e até mesmo seu nome ser evitado. Ela então passa a investigar sobre o Grinch (Jim Carrey), uma criatura de aspecto medonho, toda verde e peluda, mal-humorada, que sobrevive dos restos de lixo e estranhamente dotada de um coração duas vezes menor que o de qualquer pessoa normal. Não a toa ele detesta o Natal e faz de tudo para atrapalhar os festejos, no entanto, ele tem razões bem mais plausíveis para ser o do contra, constrangimentos que viveu na infância, embora desde bebezinho já apresentasse atitudes que denunciavam seu caráter rebelde. Se antes seu prazer era apenas zombar das tradições natalinas e assustar quem ousasse pisar em seu território, certa vez ele decidiu ir longe demais. Na verdade, instigado por Cindy que tem a coragem de ir até sua morada para fazer algumas perguntas, Grinch decide encarar seus medos e assumir seu lugar de direito na sociedade, mas se depara com pessoas tão preconceituosas quanto as que conheceu ainda criança e resolve se vingar roubando presentes, árvores, enfeites e até a comida das ceias. Por alto, o enredo parece estritamente infantil, mas ao conteúdo do livro foram acrescentadas algumas situações de humor adulto e referências a alguns clichês do próprio cinema, ideias do roteirista Jeffery Price, também autor do texto de Uma Cilada Para Roger Rabbitt que já elevava o gênero do filme-família a um outro patamar. Claro que o protagonista também ajudou a escrever o texto, ou ao menos é essa a impressão que fica. Embora tenha embolsado um polpudo cachê, Carrey deixou a vaidade de lado e fantasiado dos pés à cabeça , não aparecendo nem mesmo o branco de seus olhos substituídos por lentes amareladas, parece ter tido liberdade para improvisar do início ao fim usando e abusando de expressões corporais e faciais lembrando os bons tempos de O Máskara. Diariamente, enquanto passava três horas para a caracterização (recompensada com o Oscar da categoria), o comediante aproveitava o tempo para bolar novas gags visuais e diálogos, chegando ao set de filmagens com a corda toda para fazer seu show. Com uma interpretação completamente teatralizada, seus habituais excessos tão condenáveis em outros trabalhos aqui caem como uma luva ao estilo debochado do monstrengo, ou melhor, do Quem diferente, afinal está claro que a mensagem principal do longa é que nunca se deve julgar pelas aparências e que todos merecem respeito e consideração.

O diretor Ron Howard vinha de um fracasso de público, Ed TV, uma crítica aos reality shows e às celebridades instantâneas, mas com O Grinch fez as pazes com o sucesso se tornando em poucas semanas uma das cinco maiores bilheterias americanas do ano de seu lançamento. Com um polpudo orçamento em mãos, o cineasta orquestrou uma produção equilibrada para agradar a todas as idades e caprichou na direção de arte, figurinos e maquiagens para transportar para as telonas uma cidade que transpira magia e habitada por criaturas que apesar da estranheza visual e comportamental reproduzem características e estereótipos humanos. Temos o personagem invejoso, o preconceituoso, a sedutora, o bom pai, a menina curiosa... E é claro o protagonista que representa o isolado e amargurado, aquela pessoa que nutre ódio por desejar e não conseguir ser aceito pela sociedade. Pela crítica social e visual multicolorido e criativo, a fita poderia ser facilmente confundida com um filme do diretor Tim Burton que, diga-se de passagem, assinou O Estranho Mundo de Jack, animação que misturava o Halloween com os festejos de Natal. A adaptação da linguagem do livro, repleto de rimas e com cada passagem correspondendo a uma estrofe de um poema, foi um desafio à parte. Linhas com pouco mais de dez palavras no original foram transformadas em cenas de grande impacto visual e criatividade narrativa. Os bastidores também foram complicados, ao menos quanto a aquisição dos direitos autorais. Desde sua criação, a história do Grinch é alvo dos estúdio de Hollywood, mas Seuss considerava impossível realizar a transposição do papel para celulóide de seus personagens com fidelidade. Além do visual do protagonista, quase um gorila customizado, os demais Quem tem um visual estranho misturando formas humanas com as de animais, tendo como principal característica os narizes longos e afinados. Com a morte do autor em 1991, a viúva achou que era hora das obras do marido ganharem as telas aproveitando-se dos novos recursos tecnológicos, mas mesmo assim foi preciso quase uma década para o conto natalino virar filme por conta dos herdeiros perpetuarem a resistência do pai. Não seria exagero dizer que o pontapé inicial para a produção foi dado pelo próprio Carrey que visitou pessoalmente a madame Seuss e por um acaso do destino acabou lhe apresentando uma interpretação intuitiva do que seria o personagem. Outros atores foram testados para o papel e com caracterizações alternativas, mas não tinha jeito. O astro da comédia era o único Grinch possível e não estranhe se ao final achar a criatura bem mais interessante que o próprio Papai Noel.

Vencedor do Oscar de maquiagem

Comédia - 104 min - 2000

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