segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O IMPOSSÍVEL

NOTA 9,0

Apesar de forçar a emoção de todas
as maneiras possíveis, através do drama
de uma família filme coloca o espectador
como personagem onipresente de uma tragédia
O título já diz tudo. Embora baseado em fatos reais, O Impossível narra uma história improvável, mas com uma essência dramática que fisga o espectador logo em seus primeiros minutos não apenas apostando no emocional, mas também reativando lembranças ou despertando curiosidades a respeito do dia 26 de dezembro de 2004. A Tailândia era agraciada com mais um belo dia ensolarado, mas poucas horas depois de encerradas as comemorações natalinas o clima de paz e harmonia fora literalmente devastado por uma tragédia da natureza. Um tsunami agitou o oceano e provocou ondas gigantescas que varreram do mapa de modestos casebres à suntuosas mansões e hotéis. Milhares de moradores e turistas vieram a falecer ou tiveram graves ferimentos, um prato cheio para qualquer cineasta trabalhar um roteiro no esquema do filme-mosaico, estilo em que diversas tramas são contadas simultaneamente podendo convergir ao final ou não. No entanto, o diretor catalão Juan Antonio Bayona, do elogiado O Orfanato, optou em sua estreia no cinemão de Hollywood por narrar o sofrimento de um grupo específico. Inspirado no drama vivido por uma família espanhola, para tornar o argumento mais universal e obviamente melhorar os lucros, os protagonistas foram substituídos por britânicos, todos com pele, olhos e cabelos claros, assim mesmo sujos e feridos suas figuras não causam tanta repulsa. Quando se juntam as centenas de sobreviventes inevitavelmente acabam se destacando na multidão, mas não vamos entrar na discussão de possíveis preconceitos, afinal o elenco é talentoso e consegue despertar a almejada piedade com a força de suas interpretações. O casal Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor) planejavam férias tranquilas e divertidas junto aos três filhos, Lucas (Tom Holland), o mais velho, Thomas (Samuel Joslin) e do caçula Simon (Oaklee Pendergast), em um luxuoso resort à beira-mar, porém, mal tiveram tempo de desfrutar do local. Ondas de até trinta metros de altura atingiram tudo o que estava em seus caminhos e só conseguiram se salvar aqueles que por ventura estavam mergulhando naquele exato momento ou que foram agraciados por alguma força divina de proteção.

A família protagonista consegue sobreviver, mas é forçosamente separada. Através de situações paralelas o espectador acompanha os passos de cada membro na luta para se manterem vivos em meio a um cenário caótico e vivendo o drama de não saberem se um dia ainda poderão estar todos juntos novamente. Indo literalmente fundo na emoção, Bayona constrói uma obra repleta de sentimentalismo e por vezes até exagera no dramalhão apostando nos vários encontros e desencontros dos personagens. Em momentos de dor e desespero a vida encontra caminhos para provar que nada é impossível e o roteiro do próprio cineasta em parceria com Sergio G. Sánchez serve-se ao máximo das coincidências a favor da emoção. O pano de fundo da trama poderia sugerir um típico filme-catástrofe, com sequências de destruição arrasadoras como clímax e um longo prólogo para nos envolvermos com os personagens e sofremos junto com eles. Bayona faz o caminho contrário. Logo no início apresenta o tsunami de forma rápida e sucinta, mas sem deixar de lado o impacto visual, para depois concentrar-se nas suas consequências. O diretor Clint Eastwood já havia feito algo semelhante em Além da Vida, mas seu colega catalão vai mais a fundo na exploração do episódio conseguindo um realismo surpreendente não só na apresentação do acidente em si, mas também na reconstrução do cenário desolador que deixou. Se o filme tivesse sido lançado até três anos depois dos acontecimentos reais poderíamos até duvidar se as filmagens não teriam sido feitas aproveitando o próprio local da tragédia. Aliás, boa parte dos figurantes são sobreviventes reais e cujas experiências ajudaram o elenco a reforçar suas atuações com detalhes que só quem vivenciou a catástrofe poderia descrever. Bayona e Sánchez mostram-se tão impressionados com o material que tinham em mãos e dispostos a abordar o máximo possível de detalhes que o resultado acaba se distanciando um pouco do que se espera da adaptação de relatos reais. Os esforços acabam ganhando ares de espetáculo com a busca incessante por momentos de êxtase emocional. Quanto mais o espectador fica com o coração apertado e a sensação de nó na garganta aumenta melhor e é quase possível se sentir como um personagem onipresente, porém, de mãos atadas para ajudar.

Se em O Orfanato ficou evidente que Bayona sabe tirar o melhor proveito da cenografia, iluminação e fotografia, em seu trabalho seguinte, além de acentuar tais características, ressalta também sua vocação para manipular emoções. Se o roteiro em si já não fosse o suficiente para levar qualquer um às lágrimas, o diretor ainda usa e abusa dos recursos técnicos a favor da emoção. A trilha sonora melosa é encaixada de forma aguda para evidenciar momentos de tristeza, compaixão ou alívio e é dispensada em partes estratégicas para destacar sons ambientes como respirações ofegantes, a correnteza da água repleta de destroços e corpos ou o estalar de galhos de plantas quando pisoteados ou penetrando nas feridas das pessoas. Completam o clima de agonia os gemidos e choros, principalmente das crianças alheias à gravidade da situação. Ou melhor, uma delas não está por fora. Apesar da pouca idade, é Holland quem rouba a cena com a determinação de seu personagem em reunir a família, mas ao mesmo tempo se dedicando a um pedido de sua mãe que implora para que ele ajude outros enfermos a encontrar seus parentes ou amigos. O espírito de solidariedade é ressaltado em sua interpretação pura e sincera, ainda que se mostre uma criança racional demais diante de um episódio tão traumático e que colocaria em xeque como os sobreviventes dariam continuidade às suas vidas. De qualquer forma, o garoto é carismático e se mostra tão autentico quanto Watts, com quem divide a maior parte das cenas ambos se alternando entre razão e (muito mais) emoção. A bela loira, merecidamente indicada ao Oscar, tinha a difícil missão de não só expor feridas físicas, diga-se de passagem, machucados profundos muito bem delineados pela equipe de maquiagem, mas principalmente deixar latente que qualquer corte ou luxação não seriam tão dolorosos quanto as feridas emocionais que ficaram. Fisicamente menos atingido, McGregor também consegue transmitir desespero e tristeza reais, como na cena em que por meio de um telefonema a um parente cai no choro quando percebe as chances de reunir sua família são remotas, ainda que tenha tido a sorte de reencontrar ao menos dois filhos que lhe fazem companhia na peregrinação para encontrar os demais membros do clã. Apesar do final que reforça a ideia de quem tem dinheiro tem mais chances de passar por cima das adversidades, O Impossível cumpre o que promete e desperta a curiosidade de conhecermos as histórias de outros sobreviventes. Pena que o contato dos protagonistas com demais vítimas seja restrito, opção que acaba deixando o filme ainda mais claustrofóbico do que seu argumento indica.

Drama - 107 min - 2012

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