quinta-feira, 10 de abril de 2014

CHERI

NOTA 7,5

Michelle Pfeiffer empresta sua
beleza natural acrescida de algumas
rugas para drama acerca do amor
de uma cortesã madura e um jovem
Stephen Frears é um diretor bastante conhecido e suas produções, geralmente marcadas pelo requinte visual, costumam marcar presença em festivais e premiações. Comparável a uma grife, seu nome é sinônimo de trabalhos de qualidade e não é a toa que sempre consegue reunir elencos talentosos e com pelo menos uns dois astros de peso para atrair o público que então pode conhecer rostos menos conhecidos. Na primeira década do século 21, sua obra de maior repercussão foi A Rainha pela enorme quantidade de prêmios recebidos pela atriz Helen Mirren e a natural curiosidade acerca de um episódio delicado vivido pela família real britânica, mas sem dúvida seu filme mais famoso até hoje é o clássico Ligações Perigosas lançado no fim dos anos 80 e que abordava a perversidade escondida por trás da beleza de fachada da vida dos nobres. Talvez tentando recuperar o prestígio daquela época, mais uma vez o diretor se uniu a atriz Michelle Pfeiffer e ao roteirista Christopher Hampton para realizar Cheri, drama romântico com pitadas ácidas de crítica social passado em Paris antes da Primeira Guerra Mundial, período conhecido como Belle Époque, tempo de exaltação das artes, costumes mais liberais e apogeu da hipocrisia da burguesia. Infelizmente, poucos conhecem a obra no Brasil, quiçá até mesmo em seu próprio país de origem. Baseado no livro homônimo escrito em 1920 pela francesa Sidonie-Gabrielle Colette, já adaptado para o cinema outras três vezes, o longa começa com uma belíssima arte para ilustrar os créditos iniciais mostrando várias mulheres de vida fácil que se tornaram famosas ou que se deram bem na vida para então conhecermos Lea de Lonval (Pfeiffer), uma cortesã que desde muito jovem estava acostumada a participar da alta sociedade, com direito a pitacos em intrigas sociais, mas que está tomando consciência de que está envelhecendo e seu prestígio declinando, principalmente quando se apaixona de verdade, algo impensável para uma acompanhante. Sempre dedicada a oferecer prazer e fazer companhia a homens muito ricos, geralmente por um encontro apenas, sentir a necessidade de criar laços com alguém é sinal de que sua aposentadoria está próxima. Lea se aproxima de Fred, a quem apelidou carinhosamente de Cheri (Rupert Friend) ainda na infância, jovem de 19 anos muito saliente e que acha muito divertido ser desejado por uma mulher mais velha que já teve aos seus pés os homens mais bonitos e ricos da região. Juntos eles vão passar alguns anos no campo, tempo suficiente para o rapaz se divertir, mas ao mesmo tempo amadurecer, descobrir pormenores do amor pelas mãos de uma mulher experiente.

Pode parecer estranho, mas a mãe de Cheri, Madame Peloux (Kathu Bates), já foi também cortesã e sabe muito bem o que poderia acontecer entre o filho e a sua antiga rival, ainda mais conhecendo muito bem o jeito irresponsável de seu pimpolho, mas está ciente de que é necessário que ele seja reeducado por uma mulher refinada. A época mais permissiva, por debaixo dos panos obviamente, abria caminhos para mães aceitarem de forma velada a diversão dos filhos com prostitutas antes de assumirem responsabilidades, no entanto, seis anos depois exige o retorno do herdeiro para enfim tomar jeito na vida casando-se com uma mulher com idade compantível, a acanhada Edmée (Felicity Jones), filha de outra rica cortesã (Iben Hjejle). Peloux e Lea disputavam clientes no passado, mas neste momento vivem uma farsesca relação de amizade. Enquanto fazem confidências ou conversam civilizadamente, trocam farpas e falsas gentilezas aos montes e a situação tende a piorar com o relacionamento amoroso estabelecido com Cheri. Vivendo longe da alta sociedade parisiense, mas com todo o luxo necessário e também supérfluo, a “velha” cortesã praticamente vive uma relação de mãe e filho com o jovem conquistador, mas ao mesmo tempo dividem a cama como se fossem casados. Ele não é o primeiro homem a quem Lea presta tais serviços e com data para terminar, mas neste caso Lea sente-se obrigada a devolver a sua cria e tem ciência de que não o esquecerá facilmente. Se antes o dinheiro e as joias eram seus maiores prazeres, tardiamente ela descobriu que o amor e o respeito são os bens maiores que poderia ter e provavelmente desperdiçou muitas chances de conquistá-los. Todavia, Lea aceita a situação, mas no fundo percebe que a troca por uma mulher mais nova é o sinal definitivo de que está velha, talvez até inútil, mas com certeza que não há mais chance de o amor fazer parte de sua vida, algo acentuado pela fama de interesseira. Após o casamento do amado, Lea tenta seguir sua vida procurando novos encontros e refúgio na bebida, mas acaba decidindo sair de Paris sem falar com ninguém para fugir dos comentários, visto que Peloux não a poupa de críticas e fofocas nas altas rodas sociais. Enquanto isso, Cheri teme o futuro com uma esposa que não ama, mas se esforça para viver em harmonia como ela, afinal já sabia que um dia tal destino ia ter de ser cumprido. Ele também viaja com a esposa, mas quando volta se surpreende ao não encontrar mais a amante. Em sua cabeça vazia ele poderia viver os dois relacionamentos em paralelo, mas só então compreende o que significou para sua madrinha, aquela que o fez um homem e foi abandonada sem relutância. Por sua vez, ele também toma consciência de que sem ela não é ninguém, apenas um infeliz que só se preocupou com o presente e diversão, jamais com o futuro e sentimentos. Ele até tenta acertar o passo com Edmée, que apesar de tudo o ama, mas sempre a lembrança da cortesã o assombrará.

Assim como ocorre no citado A Rainha e em Sra. Henderson Apresenta, Frears volta suas atenções para uma personagem feminina madura, forte e vivenciando o declínio de sua beleza e vitalidade ao mesmo tempo em que revê sua relação com a sociedade e com si mesma. A beleza certamente é de suma importância em determinado e longo período da vida da mulher, mas é importante que enquanto existe o culto ao corpo também já seja trabalhado em seu psicológico que mais cedo ou mais tarde o peso da idade vai aparecer, trazendo junto sensações e sentimentos até então possivelmente nunca experimentados, como a rejeição e a impotência. Talvez isto explique a fraca repercussão do longa. A trama não é das mais atraentes para o público masculino e para as mulheres pode ser um baque, uma prova visual de que o tempo passa e com ele muita coisa se perde. Infelizmente, Frears não revela que em contrapartida o envelhecimento também traz benefícios, mas tal opção tem justificativa. O amor entre uma mulher mais velha e um garotão já é um exploradíssimo clichê cinematográfico, ainda mais em tempos em que relacionamentos do tipo tornaram-se tão comuns e histórias com finais felizes ganham a mídia, assim também é preciso se fazer um retrato pessimista, revelar que o preconceito existe e que nem tudo são flores. É muito interessante ver que polêmicas atuais se encaixam tão bem em produções de época e isso não são liberdades tomadas pelos criadores. É a pura realidade, tabus centenários que continuam dando o que falar. A julgar pelo título, o jovem Cheri deveria dominar as atenções, mas o próprio texto original faz questão de focar mais nos dilemas de Lea, o que fica evidenciado no filme pela escolha dos intérpretes.  A natureza foi muito generosa com Pfeifer e mesmo com algumas rugas ela ainda continua belíssima. Seu porte elegante e traços europeus a ajudam a compor sua cortesã que inspira confiança, mas seus olhos brilhantes no fundo guardam tristezas, assim é muito interessante observar como a personagem lida com a dor ainda ostentando um ar de superioridade que, honestamente, não é próprio, foi moldado ao longo dos anos para conseguir sobreviver entre os nobres. Já Friend constrói um personagem limitado que inicialmente pode até deixar dúvidas sobre sua sexualidade, embora tenha fama de namorador. O conflito do personagem é bastante complexo e poderia ser mais bem trabalhado pelo roteiro, é verdade, mas um pouco mais de esforço do jovem deveria ter sido exigido. Com uma bela reconstituição de época que traduz todo o clima parisiense que envolvia os nobres e os seus agregados, uma mistura de ostentação e falsa beleza, é fato que Cheri passa a sensação em vários momentos de que o excesso de preocupação estética distancia o espectador, mas basta cada aparição de Pfeiffer ou até de Bates, que diverte e incomoda destilando seu veneno, para que a atenção seja reestabelecida. A última cena, mesmo sem diálogos, em que a câmera faz as vezes de espelho para Lea é cheia de significados e congela em nossas mentes. 

Drama - 90 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

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