segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

ESQUECERAM DE MIM

NOTA 9,0

Clássico absoluto natalino, as peripécias
de um esperto menino para se defender
de bandidos ainda diverte gerações
e desperta a nostalgia dos adultos
Natal é sinônimo de recordações, alegria e família. Reunindo tais características nada mais tradicional que nessa época do ano relembrarmos o clássico das sessões da tarde Esqueceram de Mim, o surpreendente sucesso do longínquo ano de 1990, mas que parece atual de tão fresco que permanece em nossa memória. Custou uma ninharia e terminou sua carreira nos cinemas como a maior bilheteria daquele ano e a oitava maior da década. E olha que quase ninguém apostava no projeto de uma comédia protagonizada por um guri inteligente e astuto que apronta mil e umas para se livrar de uma dupla de criminosos. Macaulay Culkin dispensa apresentações. Mesmo para quem não é daquela época, certamente tem conhecimento que ele foi um dos atores mirins mais bem sucedidos de todos os tempos, mas também lembrado como um exemplo de como a fama mal administrada pode destruir uma vida, ou quase isso. O ator cresceu e ao invés de ganhar espaço na mídia para divulgar seus filmes o que vinha a público eram os desdobramentos de sua disputa judicial com os próprios pais para ter direito a administrar a fortuna que acumulou em tempo recorde. Problemas familiares é praticamente porta aberta para outros problemas e ele se envolveu com drogas, bebidas e polêmicas, incluindo uma criticada amizade com o cantor Michael Jackson com alusão a pedofilia. Fisicamente desfigurado e com semblante depressivo, o fato é que poucos lembram de sua imagem adulta. Seu nome automaticamente nos remete a figura ambígua do moleque com carinha ingênua e sorriso maroto e confundi-lo com seu personagem é perfeitamente normal. Kevin McCallister tem um perfil de fácil identificação, o que justifica a longa vida do filme. Carismático, engraçado, arteiro, esperto e equilibrando-se entre a inocência inerente a sua idade e certa dose de maturidade precoce, ele tira sua família do sério constantemente, mas chega ao ápice da pentelhice às vésperas do Natal quando sua família está prestes a aportar na França. Pais, irmãos, tios e primos. São quinze pessoas dentro de uma bela mansão vivenciando a agitação pré-viagem, excitação certamente compartilhada pelo espectador anualmente na noite que antecede os festejos, você viaje ou simplesmente fique em casa com parentes e amigos. A impressão de que a noitada não tem fim e as agradáveis sensações de liberdade, conforto e alegria nos toma.

Contudo, a noite acaba mal para os McCallister. O clima de euforia é cortado por Kevin, já irritado com as opiniões a seu respeito de alguns parentes, que briga com seu irmão mais velho, o rabugento Buzz (Devin Ratray). Como castigo, Kate (Catherine O´Hara), sua mãe, o coloca para dormir no sótão, um cômodo pouco visado da casa. Como a trama não dá ponto sem nó, uma providencial queda de energia faz com que a família quase perca a hora de ir para o aeroporto e na correria acabam esquecendo de despertar o garoto que depois vem acreditar que seu desejo se realizou: todos desapareceram e a mansão agora era só dele. No inicio tudo é pura diversão. Fazer a escadaria de tobogã, remexer no quarto dos irmãos, se entupir de sorvetes e porcarias e ainda trolar o pobre entregador de pizzas economizando a grana, afinal o pequeno agora também é o responsável por fazer as compras da casa. Hilária sua visita ao supermercado com o detalhe nostálgico do cupom de desconto do suco recortado do jornal. Todavia, a diversão está ameaçada. Praticamente todos os moradores da rua dos McCallister também viajaram no período de festas, deixando o caminho livre para uma dupla de assaltantes agirem livremente. Precavido, Harry (Joe Pesci) já havia visitado as casas dias antes se passando por um policial amigável para saber o que exista de valioso nelas e a respeito das medidas de segurança que as famílias adotaram. Também deveria ter tido mais cuidado ao escolher seu parceiro de crime. Marv (Daniel Stern) é um bobalhão que perde o foco com qualquer bobagem quase como uma criança e a tem a brilhante ideia de criar uma "ameaçadora" identidade para a dupla: os bandidos molhados. Em toda casa que eles roubam o cara deixa torneiras abertas para inundar o local, porém, em uma delas será praticamente impossível deixar tal marca. Por conta da lembrança de um suspeito dente de ouro, Kevin descobre os planos dos assaltantes e como agora é o homem da casa decide contra-atacar, primeiramente de forma pacífica. Sensacional a ideia da metalinguagem utilizada. O garoto assiste a um filme antigo e em preto-e-branco (ele não existe, foi filmado trechos em estilo noir especialmente para o longa) e seleciona diálogos de cunho violento que se encaixam perfeitamente para afugentar os bandidos, mas a brincadeira não vai muito longe. Quando a casa realmente é invadida, é hora de enfrentá-los feito gente grande e a criatividade de Kevin vai desde usar simples cacos de bolinhas decorativas até ferros incandescentes, isso sem falar na engrenagem que monta para algumas armadilhas funcionarem utilizando ao máximo todos os cantos da residência rica em objetos aparentemente inofensivos, mas que nas mãos de um guri encapetado... E tudo dá certo para o menino obviamente. Essa perfeição, as situações todas perfeitamente encaixadinhas para o pequeno herói brilhar, incomodam muita gente, mas quem disse que a produção buscava fidelidade? Escapismo é a palavra de ordem.

O roteirista e produtor John Hughes, responsável pela criação de histórias que marcaram gerações como Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, teve a ideia para esta comédia enquanto filmava Quem Vê Cara Não Vê Coração, um dos primeiros trabalhos de Culkin que veio a inspirá-lo com seu rostinho meigo, mas comportamento maduro. Contudo, mais acostumado com o público adolescente, preferiu não dirigir o longa para preservar o conceito censura livre e passou o cargo para Chris Columbus, ainda em início de carreira e adotando um tom quase fabulesco para o longa, tanto narrativo quanto no visual. Desde o início o diretor teve preocupação em inserir elementos que colaborariam para o desfecho, desde um simples close na aranha de estimação de Buzz, que serviria como uma das armas de ataque do menino, até a bem trabalhada introdução mostrando os problemas de relacionamento dele com os familiares e, principalmente, com os próprios pais de quem carece e faz de tudo para chamar a atenção. Mesmo com o roteiro privilegiando as peripécias do cotidiano de Kevin, paralelamente acompanhamos a odisseia de sua mãe para voltar o mais rápido possível para casa. Ainda que não entre em desespero total para evitar quebrar a leveza da narrativa,  O´Hara se destaca com seus grandes olhos claros marejados suplicando ajuda a desconhecidos para embarcar no primeiro avião ou por uma carona. É curioso que diante da culpa de esquecer o próprio filho, Peter (John Heard), o pai, mostra-se extremamente passivo, talvez mais uma forma de abrandar o gancho dramático em prol da diversão. Por outro lado, vale destacar a dose de melancolia do texto com a inserção do personagem Marley (Roberts Blossom), um idoso visto como uma sinistra lenda urbana, mas no fundo apenas um homem tristonho. Dos coadjuvantes, mesmo com pouco tempo de cena, é o perfil mais bem delineado, até porque tem importância crucial para ajudar Kevin a rever seus conceitos sobre família. Mantendo-se como o filme natalino mais visto nos cinemas de todos os tempos, e provavelmente também o mais reprisado na TV, Esqueceram de Mim, apesar de toda a anarquia que coloca o protagonista como alguém tão impertinente e hiperativo quanto o Pernalonga ou o Pica-Pau (de fato, a inspiração para o personagem vem de desenhos animados), cumpre seu papel de trazer mensagens otimistas de uma forma divertida e viciante. Fala a verdade, se você viveu a infância na década de 1990, resiste uma espiadinha neste filme vez ou outra? A espera pelo Papai Noel pede esse programa.

Comédia - 103 min - 1990
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