quinta-feira, 3 de julho de 2014

CHEGADAS E PARTIDAS

NOTA 3,5

Apesar de contar com bom elenco,
parte técnica impecável e assinatura
de diretor renomado, drama é tão frio
quanto a paisagem de sua narrativa
O nome do diretor Lasse Hallström não costuma vir destacado no material publicitário de seus filmes tal qual Woody Allen ou Tim Burton, mas basta a menção “do mesmo de diretor de Regras da Vida e Chocolate” para se ter a assinatura que simboliza sinônimo de qualidade. Realmente este sueco realiza produções geralmente acima da média que aliam narrativas tocantes a detalhes técnicos perfeitos, assim suas obras costumam ser entregues ao público em embalagem de luxo. Na época em que lançou Chegadas e Partidas, o cineasta colhia os frutos de emplacar dois longas no circuito de premiações (já citados), mas chegava então a hora da colheita secar. Baseado no romance “The Shipping News” (também título original da fita) escrito por E. Annie Proulx e vencedor do prêmio Pulitzer em 1993, a narrativa gira em torno de Quoyle (Kevin Spacey), um nova-iorquino infeliz e melancólico que se acostumou com seu cotidiano sem graça. Ele vive com o dinheiro que consegue em empregos esporádicos e seu tempo livre é ocupado por lembranças desagradáveis de sua infância. Abandonado pela mãe e sofrendo maus tratos do pai, ele desenvolveu uma espécie de demência ou fobia que o impedem de almejar a própria felicidade. Sem objetivos a alcançar, simplesmente ele deixa que a força dos acontecimentos guie seus passos. Sua vida melhora levemente quando ele conhece por acaso Petal (Cate Blanchett), uma vigarista sedutora que percebendo a personalidade maleável de Quoyle logo tratou de tirar algum proveito. Como até os trinta e poucos anos ele ainda não havia experimentado o amor, facilmente caiu na ilusão de que poderia ser feliz ao lado de alguém que lhe dedicou alguns poucos minutos de atenção e lhe proporcionou uma noite inesquecível.  Eles se casam, logo ela engravida, mas a convivência nunca foi das melhores sendo que a esposa vivia procurando diversão com outros homens sem fazer muita questão de esconder sua infidelidade. Quoyle, sempre permissivo, talvez se sentisse na obrigação de aturar as afrontas, seja pelo medo de demonstrar alguma atitude ou até mesmo por consideração afinal de contas foi graças a Petal que ele tem o maior tesouro de sua vida, a sua filha Bunny (papel revezado pelas trigêmeas Alyssa, Kaitlyn e Lauren Gainer).

Se tornar pai o ajudou a melhorar seu relacionamento consigo mesmo. Embora ainda acreditasse que era invisível para a maioria, ter alguém que dependia de seu sustento e que lhe amava com todos os seus defeitos o forçou, por exemplo, a se fixar em um emprego assumindo a tipografia como sua profissão. Porém, como diz o ditado, alegria de pobre dura pouco. Quando Bunny tinha em torno de uns seis anos, Quoyle sofre três baques seguidos que o fazem repensar o sentido de sua vida. Seus pais se suicidam, Petal sofre um acidente de carro no qual falece imediatamente e ainda recebe a noticia de que a esposa adúltera estava prestes a vender a própria filha. Ao saber desses tristes acontecimentos, Agnis Hamm (Judi Dench) vai visitar o sobrinho e o convence a se mudar com a filha para Newfoundland, também conhecida como Terra Nova, uma pacata cidade pesqueira na costa do Canadá, lugar onde viveram seus ancestrais, diga-se de passagem, pessoas que tiveram um passado negro. Forçado a encarar seus medos, fracassos e a se adaptar a um novo cotidiano, essa era a chance de Quoyle reescrever sua trajetória. Completamente desconhecido no local, caberia somente a ele mesmo escolher os passos a serem dados e fazer ser visto como uma pessoa comum como sempre foi, deixar para trás a imagem que é um zero à esquerda. Até a mudança de cidade o longa usa cerca de uns vinte minutos para resumir o apático universo em que está inserido o protagonista, algo que poderia ser positivo caso o restante da narrativa acompanhasse o ritmo acelerado, mas infelizmente as expectativas caem minuto a minuto diante da vagarosidade dos acontecimentos. Apesar dos cortes rápidos que podem confundir, é quase possível afirmar que a introdução soa mais interessante que todo o resto. Blanchett com pouco tempo de cena conquista a atenção com sua desprezível personagem e poderia travar cenas memoráveis com um Spacey acuado, mas aí como ocorreria a virada do protagonista? De qualquer maneira, o argumento desenvolvido após o prólogo é dos mais interessantes. Em meio a uma paisagem gelada e habitada por seres solitários, seria reconfortante acompanhar alguém reencontrando ou no caso finalmente conhecendo o prazer que é viver. São as mudanças no comportamento de Quoyle que determinam o fluxo da narrativa, aí a explicação para a lentidão do desenrolar da história. Seu amadurecimento surge com a necessidade que encontra em se impor em diversos papéis que até então apenas ensaiava. Bunny não compreende o repentino sumiço da mãe e o pai precisa trabalhar na cabeça dela a verdade sem impor a mágoa. Mal amado pela ex-esposa, ele tem que se impor como um homem seguro para cativar a reservada viúva Wavey Prowse (Julianne Moore). Por fim, profissionalmente, de tipógrafo repentinamente ele é promovido a repórter, ocupação que lhe exige um olhar mais apurado sobre as coisas. Dizem que o trabalho enobrece o homem e Quoyle comprova a crença.

Apesar da publicação não ser considerada das melhores, é no jornal de Newfoundland, com a ajuda do colunista Billy Pretty (Gordon Pinsent) e do editor  Tert Card (Pete Postlethwaite), que ele aprende que tudo na vida não é definitivo, apenas a certeza da morte. A previsão de uma tempestade com estimativa de graves consequências pode render uma boa matéria, mas caso nada acontece basta mudar o enfoque festejando que os céus pouparam a população. É com esse olhar mais otimista que ele encara o desafio de dirigir tardiamente sua própria vida e testar o seu dom com a escrita, o problema é que praticamente nada acontece na cidade para virar manchete, sendo que qualquer acidente ganha destaque exagerado (são essenciais fotos de detalhes que possam causar impacto). O jeito é escrever sobre coisas que fazem parte da cultura e rotina local, ou seja, as notícias marítimas, embarque e desembarque de cargas, mas em sua jornada de autoconhecimento Quoyle começa a perceber que podem ser muito interessantes as histórias dos moradores e o apreço que sentem por barcos como demonstra ter Beaufield Nutbeem (Rhys Ifans), rapaz que conserta cuidadosamente sua embarcação alimentando o sonho de um dia poder vir se aquecer em terras brasileiras. Seu drama é a solidão acentuada pela paisagem eternamente invernal do vilarejo. Já Wavey esconde algum segredo sobre sua vida pessoal e luta diariamente para ajudar o filho a criar vínculos sociais visto que ele sofre de uma ligeira demência devido a um problema na hora do parto. E é assim com todos os habitantes, cada um tentando lidar com seus dramas pessoais e anseios, um prato cheio para uma obra do tipo intimista, mas a sensação bem antes dos créditos finais surgirem é de que Hallström buscou desesperadamente realizar uma produção com verniz europeu, captando belas imagens e, como de costume, se cercou de um elenco renomado para dar credibilidade à fita. O problema é que até as interpretações são prejudicadas quando o texto não flui de forma eficiente. O roteirista Robert Nelson Jacobs procurou dar uma “enxugada” no texto original a fim de deixá-lo mais acessível ao público, mas talvez as partes descartadas tenham feito falta. Dizem que o livro tem uma trama bastante complexa misturando drama, humor negro, lirismo, polêmicas e eventos sobrenaturais. Um defunto acorda em pleno velório, Bunny sonha com um homem estranho que vaga pela noite e a cidade tem os números de óbitos bastante superiores aos de natalidade, mas o porquê de tudo isso fica por conta da imaginação de cada um. É triste constatar que apesar do início promissor Chegadas e Partidas não consegue envolver e se torna enfadonho a cada novo gancho de trama que puxa, arrematando a colcha de retalhos com linha muito frágil.

Drama - 11 min - 2001

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