sexta-feira, 12 de outubro de 2012

UMA GAROTA ENCANTADA

NOTA 8,0

Apesar dos exageros e do
estilo kitsch adotado, longa
diverte parodiando contos de
fadas e a sociedade moderna
Desde que certo ogro verde invadiu os cinemas e mudou completamente a maneira do público enxergar os desenhos animados, diversas produtoras e estúdios resolveram beber na mesma fonte: a sátira aos contos de fadas e aos sucessos de Hollywood. O resultado foi uma avalanche de produções repletas de citações a outros produtos cinematográficos, referências a acontecimentos de conhecimento mundial, críticas a sociedade moderna e reinvenções de clássicos contos literários, mas tudo embalado por trilhas sonoras repletas de canções famosas e tendo como matéria-prima principal as histórias de princesas, bruxas e afins. Não que as paródias e o recurso da intertextualidade fossem novidade no mundo da sétima arte, pelo contrário, é um recurso muito comum. O cinema, o teatro e a televisão sempre usaram livremente os contos infantis para emocionar, divertir e em alguns casos, com uma forcinha da imaginação, até para aterrorizar, no entanto nos acostumamos a ter as adaptações dos clássicos Disney como as mais fiéis às histórias originais, mas ao longo do tempo elas já sofreram tantas modificações que fica difícil saber quais são as versões originais, mas nada que incomode o público que ultimamente tem se divertido com a intertextualidade proposta por obras que seguem o estilo da elogiada animação Shrek que fisgou plateias de todas as idades com seu humor anárquico e crítico pautado em cima de histórias de domínio público e tirando um sarro de acontecimentos reais e celebridades, além é claro de explorar os enredos que até hoje ajudam a sustentar o império Disney. Aliás, até o próprio estúdio das princesas já realizou sua versão autocrítica com atores reais, mas antes de Encantada surgir outro filme já brincava com os clichês dos contos de princesas. Uma Garota Encantada é uma comédia infanto-juvenil que segue exatamente a mesma linha de seu sucessor, mas aposta mais no humor que no romance e acaba sendo diminuído nas comparações devido a sua produção modesta, porém, eficiente e que casa muito bem com o estilo debochado da narrativa. A grande equipe de roteiristas (Laurie Craig, Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, Jennifer Heath e Michele J. Wolff) tiveram a boa vontade de fazer um delicioso apanhado de brincadeiras com a cultura pop e a modernidade, mas é uma pena que depois do filme do tal ogro verde nada mais parece novidade e nem ele próprio conseguiu segurar sua franquia em alta com essa receita satírica.

Tendo como inspiração para a espinha dorsal da história uma mistura do conto da Cinderela com o da Bela Adormecida, acompanhamos desde o nascimento até a juventude os problemas enfrentados por Ella (Anne Hathaway), que ganhou um presente de grego de sua atrapalhada fada madrinha Lucinda (Viviva A. Fox): o dom da obediência. Assim ela cresceu fazendo tudo o que as pessoas mandavam sem conseguir recusar e isso se tornou uma perturbadora maldição. Quando seu pai Sir Peter (Patrick Bergin) resolve se casar novamente, a vida da jovem piora ainda mais. Sua madrasta Olga (Joanna Lumley) é fútil, gananciosa e demonstra não gostar nada da enteada e suas meias-irmãs Hattie (Lucy Punch) e Olive (Jennifer Higham) descobrem o seu segredo e passam a explorá-la cada vez mais para se divertirem as suas custas. Cansada dessa vida, Ella decide, com o apoio de sua babá Mandy (Minnie Driver), ir ao encontro de Lucinda para pedir que lhe retire o feitiço. No caminho, ela faz amizade com o elfo Slannen (Aidan McArdle), que quer reivindicar os direitos de seu povo, e conhece também o príncipe Char (Hugh Dancy), um jovem que está em busca de seu grande e verdadeiro amor. Juntos eles enfrentarão muitos perigos e desafios para conseguirem realizar seus sonhos. Como todos os títulos destinados a parodiar, é preciso prestar atenção no texto e ter um mínimo de conhecimentos gerais e bagagem cinematográfica para poder tirar o melhor proveito do longa, por isso certas piadas podem não ser compreendidas por crianças como, por exemplo, uma brincadeira com a febre estética do botox, mas nada que atrapalhe a diversão dos pequenos, pois há a compensação da trama contar com personagens que lembram as criaturas fantásticas de filmes das séries de Harry Potter e de O Senhor dos Anéis e o divertido livro mágico que faz as vezes do espelho de Branca de Neve e os Sete Anões. Por se passar em um reino fantástico habitado por gigantes, ogros, fadas e duendes, ter um vilão de família nobre e usar e abusar de músicas agitadas do tempo da discoteca, a comparação entre esta produção com atores de carne e osso com a premiada animação Shrek é inevitável. Obviamente, o desenho leva muitas vantagens neste duelo, mas nem por isso o longa do diretor Tommy O’Haver deve ser classificado como uma porcaria, pelo contrário, ele é muito divertido, animado e suas falhas acabam de certa forma trabalhando a favor da história. Na realidade, em meio a tantas piadas e citações, caçar erros é bem difícil a não ser para aqueles que fazem parte do fã clube do famoso ogro verde e não admitem que outras produções sigam o mesmo caminho que fez a fama do monstro bondoso. Se alguém disser que não deu no mínimo uma meia dúzia de gargalhadas ou achou em igual número algumas boas sacadas do roteiro ou da cenografia é porque assistiu em dia de mau humor.

Com um estilo deliciosamente kitsch, cheio de detalhes e piadas visuais, os cenários reproduzem desde o interior de uma casa simples até o requinte de um palácio em dia de festa, passando por uma floresta encantada e por uma cidade que parodia as agitadas grandes metrópoles contemporâneas, com direito a escadas rolantes e vendedores ambulantes. Algumas paisagens naturais, no entanto, aparecem com um realismo que foge da proposta visual exagerada do conjunto, mas nada que incomode tanto quanto a cena em que a protagonista encontra finalmente a fada atrapalhada e pede para ela desfazer o seu feitiço. Além do diálogo péssimo, a sequência é marcada por um cenário claramente falso inserido porcamente pela computação gráfica. A produção simplória ainda tem alguns outros efeitos especiais duvidosos, mas que acabam realçando a estética que o diretor desejava: um visual colorido, empetecado e com certos elementos que levassem o espectador ao passado, para aqueles tempos em que os efeitos especiais não eram perfeitos, mas mesmo assim garantiam diversão e o espanto das plateias. Bem, essa parte a respeito do uso de recursos tecnológicos é mesmo para jogar panos quentes na situação. É óbvio que qualquer um que se meta a fazer cinema espera alcançar a perfeição, mas quando não há verba para tanto o jeito é tentar elogiar o que foi possível fazer, mas realmente o que é tosco para alguns aqui se tornou eficiente e a molecada, o verdadeiro público-alvo, não está nem aí se a cobra de estimação do vilão parece falsa ou se em algumas sequências é possível se perceber os recortes dos personagens para depois serem inseridos digitalmente em um cenário e ganharem aspectos de pequenos seres diante de gigantes e trolls. Infelizmente o longa não foi um sucesso mesmo com um trailer bem chamativo que rodou as salas de cinema por vários meses, porém, encontrou seu espaço nas locadoras. As crianças aprovaram e consequentemente seus pais também, não tanto por gostarem do filme, é bem verdade, mas sim por ele servir para distrair os guris. Já os críticos se não foram muito simpáticos com a requintada produção Encantada que carrega o selo Disney de qualidade, com Uma Garota Encantada então nem se fale. Ou melhor, preferiram manter o silêncio ignorando a produção por completo. De qualquer forma, esta é mais uma agradável variação do velho conto do casal apaixonado que tem suas diferenças, discutem boa parte do tempo, quando se entendem sofrem com as interferências de terceiros, mas no fim acabam felizes para sempre. Recomendado às crianças bem humoradas de todas as idades, de zero a cem anos.

Infantil - 96 min - 2003

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