segunda-feira, 6 de julho de 2015

DEU A LOUCA NOS MONSTROS

NOTA 8,0

Mescla de aventura, comédia e
terror ganhou status de ícone
nostálgico, um retrato de uma época
de inocência, descobertas e diversão
Que saudades da década de 1980! Tempos em que criança vivia como criança e muitos filmes clássicos que marcaram a infância de marmanjos são o retrato de uma época que infelizmente não volta mais. Qual guri hoje em dia tem um clubinho de amigos para planejar aventuras e sonha em ter uma casa na árvore? Contatos virtuais não valem. Qual garoto cultiva aquele amor platônico que o faz desejar ser grande o mais rápido possível? Com as redes sociais a paquera perdeu sua inocência. E as madrugadas viradas assistindo filmes de terror regadas a refrigerante e pipocas com a galera? Hoje até rola programas do tipo, mas cada um na sua casa na base dos filmes on demand e a zoeira é via comentários whats up ou webcam.  Para quem já passou dos trinta anos certamente vez ou outra deve sentir saudades de ir até a locadora escolher aquele filminho bacana que serviria de desculpa para a reunião com os amigos no fim de semana, mesmo com o inconveniente de ter que rebobinar a fita e sair de casa para devolver. Hoje praticamente extintos, tais estabelecimentos comerciais tiveram sua importância, pois com eles o acesso as produções dos mais diferentes gêneros se tornara bem mais fácil que uma ida ao cinema e as fitas de terror se beneficiaram dessa aproximação com o público mais jovem. Do trash levado a sério, passando pelo “terrir” até chegar a tramas de horror legítimo, muitas fitas de arrepiar ou que usavam o medo apenas como pano de fundo marcaram momentos inesquecíveis de muitas pessoas como é o caso de Deu a Louca nos Monstros, divertida aventura que ressuscitava criaturas clássicas do horror que arrepiaram plateias entre as décadas de 1930 e 1950,  mas que teve alguns problemas para encontrar seu público logo de cara por ser uma mescla de gêneros e conter palavras e situações incomuns em produções que teoricamente visava crianças e adolescentes, como um jovem fumando, vampiras seminuas ou pais sendo provocados pelos filhos, o que no fundo é pura hipocrisia da época. A trama começa em um castelo da Transilvânia quando o Dr. Abraham Van Helsing (Jack Gwillim) e um grupo de habitantes locais invadem o castelo do Conde Drácula (Duncan Regehr), a fim de detê-lo para sempre, mas algo dá errado e o próprio caçador acaba sumindo em meio a um redemoinho que traga tudo e a todos a sua volta. Um século mais tarde (lembrando que o filme é de 1987), o príncipe das trevas volta à vida desejando recuperar um antigo amuleto mágico, o mesmo que foi usado no ritual para destruí-lo, e ressuscita o Frankenstein (Tom Noonan), a Múmia (Michael Reid Mackay), o Lobisomem (Carl Thibault) e o Monstro da Lagoa Negra (Tom Woodruff) para ajudá-lo nessa tarefa que tem prazo certo para acabar, caso contrário, todos eles voltariam para o limbo de onde saíram.

No século 20, o inimigo dos monstros atende pelo nome de Sean (Andre Gower), um adolescente vidrado em histórias de terror e presidente de um clube, os Monsters Squad, cujos sócios se reúnem frequentemente para debater assuntos de suma importância como a melhor maneira de matar vampiros ou debater se o lobisomem tem “bolas”. Fazem parte do grupo o boa-praça Patrick (Robby Kiger), o gordinho Horace (Brent Chalem), o baixinho Eugene (Michael Faustino) e o moderninho Rudy (Ryan Lambert). Reservado apenas para homens, a irmã pequena de Sean, Phoebe (Ashley Bank), tenta sempre dar seus pitacos nas reuniões, mas só vai ser aceita como membro quando prova sua valentia. Cumprindo ordens de Drácula, o desengonçado Frankenstein deveria barrar os planos de contra-ataque dos jovens, mas acaba fazendo amizade com a garotinha e também sendo aceito no clube. Paralelo a volta dos monstros, Sean ganha de sua mãe um velho livro que comprou em uma venda de usados, porém, a obra é nada mais nada menos que um diário em que Van Helsing registrou suas memórias e descobertas. O problema é que os escritos estão em alemão e um desconhecido não para de telefonar para a casa do menino interessado em ter o manuscrito. Quem poderia ajudar o grupo com a tradução é um misterioso homem que vive trancado dentro de casa e cujo rosto só é visto à espreita vez ou outra nas janelas. Apelidado de “o alemão que assusta” ou algo do tipo (Leonardo Cimino), é uma pena que o roteiro de Shane Black e Fred Dekker, este também diretor da fita, não explore a fundo o medo que o personagem causa aos Monsters Squad ou talvez para fugir do lugar comum rapidamente o humanize apresentando-o como um sábio que revela que o grupo precisa encontrar o talismã até certa noite específica e cumprir o mesmo ritual centenário, caso contrário o mundo sucumbirá às trevas. Todavia, precisam encontrar uma virgem para ler as palavras cabalísticas e se naqueles tempos já era difícil encontrar uma dando sopa hoje em dia trombaríamos com os monstros a cada esquina, pois não ia ter jeito de fazer a mandinga. Enquanto os seres do mal se preparam para a grande noite e os caça-monstros se articulam para jogar água nos planos dele, a cidade vira um caos com incidentes que nem mesmo a polícia encontra explicações, mas como em produções do tipo os adultos não dão atenção para o que as crianças dizem mais uma vez eles não passam de meros coadjuvantes que pouco ou nada acrescentam à trama, com exceção do citado alemão que apesar da curta participação tem uma cena icônica. Ao ironizar o medo que as crianças tinham dele, a câmera flagra em seu pulso uma tatuagem numérica utilizada em campos de concentração durante a Segunda Guerra. De modo sutil é revelado que para ele podem aparecer os monstros mais horripilantes, mas nada chegará aos pés do terror que ele viveu com os nazistas.

Falando nisso, também no mundo dos negócios quem não é de maior não é levado a sério. Produtores e distribuidoras não acreditavam no sucesso do longa e o lançaram diretamente no formato VHS, aproveitando-se do boom das videolocadoras. A repercussão foi tanta que acabaram tendo que dar o braço a torcer e lançar também nas telonas. Em alguns países, como o Brasil que, diga-se de passagem, o lançou com três anos de atraso, a simultaneidade de plataformas exibidoras foi justificada como uma tentativa de ampliar o público dos filmes. Me engana que eu gosto! De olho nos espectadores ávido por sustos e adrenalina, mas ainda com um pé na infância, Dekker talvez nem pudesse imaginar que criou não só um passatempo que atendia a demanda da época, mas que seu trabalho também viria se tornar um símbolo de nostalgia. Apaixonado por terror, seu desejo era realizar produções homenageando ou que revitalizassem gêneros e logo seu primeiro argumento transformou-se no lendário A Casa do Espanto, ainda que o roteiro final e nem a direção levassem sua assinatura. Todavia, tal sucesso o credenciou a assumir as câmeras de seu primeiro roteiro-solo, A Noite dos Arrepios, legítimo representante dos filmes trash, mas que não fez sucesso e amargou o ostracismo, mesmo em tempos em que qualquer lixo nas prateleiras das locadoras bombava. Ainda bem que ele não desanimou e no ano seguinte conseguiu realizar Deu a Louca nos Monstros que ele próprio definiu como um encontro dos Batutinhas (por que não os Goonies também?) com os monstros clássicos do estúdio Universal que durante uma época investiu pesado no gênero de horror, mas que não aceitou uma parceria com outra produtora para trazer os monstrengos de volta à cena. Entretanto, como a imagem de tais criaturas acabaram enraizando-se na cultura popular de todo o mundo, Dekker apenas fez algumas sutis mudanças nas caracterizações dos personagens, aliás, a maquiagem e efeitos visuais merecem destaque pela busca pelo realismo. Computação gráfica só é percebida na aparição do buraco negro logo na introdução. Todo o resto foi realizado de modo artesanal, inclusive os intérpretes dos monstros evitavam usar as vestes de trabalho durante os intervalos para que o diretor conseguisse reações mais verdadeiras do elenco jovem. É estranho que mesmo sendo uma produção com valor afetivo para muitos, inclusive para os brasileiros que se divertiram com as inúmeras reprises na “Sessão da Tarde”, o filme precisou de campanha na internet para o DVD ser lançado, ainda que só nos EUA, aliás, muito tempo depois do surgimento desta mídia e coincidindo com boatos sobre uma possível refilmagem que jamais se concretizou. Seria ótimo resgatar este clássico em nova versão, mas já sabemos de antemão que os inevitáveis efeitos especiais tirariam boa parte do charme da obra. Melhor ficar com as lembranças do original.

Aventura - 82 min - 1987

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