sexta-feira, 10 de maio de 2013

ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

NOTA 5,0

Comédia nacional adota estilo
de especial de TV, mas tenta
achar um equilíbrio entre o
comercial e o artístico
Para as novas gerações os nomes de Carlos Alberto Ricelli e Bruna Lombardi podem soar estranhos ou pertencentes a uma elite de intérpretes que resolveram dar uma de intelectuais e se dedicar apenas ao cinema. Figuras marcantes em novelas de sucesso dos anos 80, já faz muitos anos que eles praticamente abandonaram a TV e foram viver nos EUA em busca de melhor qualidade de vida e conhecerem mais profundamente os segredos da sétima arte. Todavia, em seu terceiro filme como diretor, Ricelli parece usar realmente os recursos que aprendeu nos bastidores de produções destinadas à “telinha”. Onde Está a Felicidade? mantém a fórmula que há anos vem atraindo público: humor rasteiro, timing e estética de seriado ou novela, eminência de um final feliz desde a arte publicitária e o bombardeio de chamadas entre os intervalos da programação da Globo, uma estratégia de lançamento que geralmente começa a ser feita uns dois ou três meses antes da estreia para provocar a vontade do público. Contudo, a receita mágica neste caso falhou. Esta comédia ligeira não fez o barulho esperado talvez porque os primeiros espectadores trataram de fazer o boca-a-boca negativo, seguido dos comentários pouco auspiciosos da crítica especializada. A pergunta que dá título ao filme pode parecer muito simples, mas no fundo ela é um tanto complexa e não tem uma resposta exata. Cada pessoa tem algo que lhe faz feliz e essa tal felicidade pode variar de acordo com o passar do tempo e estado emocional. Em geral, a temática da busca de um sentido na vida ou a alegria plenamente satisfatória busca respostas em um novo amor, sucesso profissional, em uma viagem para autoconhecimento ou um trabalho voluntário. O leque de opções para trabalhar tais temas é bem grande e o que se busca pode estar nas pequenas coisas do cotidiano, mas nem sempre tal descoberta é tão simples. No caso da protagonista desta comédia, Teodora (Bruna Lombardi, também autora do roteiro) está desesperada por um caminho a dar a sua vida depois de sofrer o baque de descobrir que seu marido Nando (Bruno Garcia) estava mantendo um relacionamento com outra mulher, ainda que isso não passasse de um passatempo através de chats da internet. Totalmente desestabilizada, ela acaba falando mais do que devia e perde seu posto de apresentadora de um programa culinário de TV. Desiludida com a vida, esta mulher resolve partir para uma viagem de autoconhecimento percorrendo o famoso caminho de Santiago de Compostela na Espanha. Enquanto Nando está no Brasil dispensando seu tempo com conversas rasas com os amigos tentando decidir se aceita a separação ou tenta reconquistar o seu grande amor, as sequências que mostram a peregrinação de Teodora até que garantem um sorriso no rosto mais ou menos constante.

A parceria entre Bruna e Ricelli no cinema começou por volta do ano de 2005, quando lançaram o ainda desconhecido Stress, Orgasmos e Salvação. Depois, graças a muita abertura da mídia, O Signo da Cidade conseguiu ter certa visibilidade, mas não bombou. Bem, todos que trabalham esperam ganhar algum tipo de recompensa e fazer cinema pode até parecer um hobby para alguns devido ao tempo que certos filmes demoram para ficarem prontos, mas eles também devem render dinheiro pelo menos para cobrir os gastos de produção. Sendo assim, parece que o casal se frustrou com os resultados das primeiras tentativas de fazer produtos de melhor qualidade e conteúdo e apostaram suas fichas no convencional, ou seja, a comédia estilo especial de TV. Em cerca de duas horas, muita coisa acontece nesse filme, mas na verdade nenhuma delas responde com convicção a pergunta do título, sendo apenas meras desculpas para gritarias, xingamentos, piadas de cunho sexual, algumas poucas cenas engraçadas e no final de tudo tentar passar alguma lição de moral. As intenções até que eram boas, mas a produção é muito frágil do início ao fim. É como se fosse um amontoado de esquetes cômicos, com certo toque de intelectualidade vez ou outra, alinhavados por uma linha muito fina que a qualquer momento pode se romper. Já dá para sentir o que vem por aí pela introdução. Uma narração em off de Lombardi trata de tirar qualquer gostinho do espectador em tentar desvendar o universo e o caráter dos personagens principais, embora não se possa esperar muito de uma história protagonizada por uma mulher de meia-idade vivendo a tradicional crise dessa etapa da vida, quando ela acha que está acabada e a qualquer momento vai ser trocada por outra. Já seu marido, com Garcia repetindo seu manjado tipo de malandrão boa pinta, até pensa inocentemente sim em outras mulheres, mas isso não é o mesmo que encontrar pessoalmente. Outro agravante seu é a paixão exagerada pelo futebol, tanto que é comentarista de jogos. Aliás, os momentos de humor mais ingênuos e agradáveis surgem justamente quando ele entra em contato com uma fã pré-adolescente. Clarinha (Hanna Rosenbaum) gruda que nem chiclete em seu ídolo e é até a razão de mais uma discussão entre Teodora e Nando. Fora isso, digamos que os demais diálogos não ajudam em nada a fisgar o espectador. Frases de efeito, trocadilhos, discursos decorados, piadas de duplo sentido, enfim tudo parece muito artificial nas falas, sobrando um puxão de orelha a mais para a protagonista e roteirista que talvez esteja sem prática no campo da atuação e ofereça uma interpretação um tanto histérica beirando o caricatural. Bem, o visual da personagem já denuncia o deboche. Em sua peregrinação na Espanha, por exemplo, ela passa dias e dias caminhando sob sol escaldante montada em belos sapatos de salto ou botas de marca e carregando um amontoado de sacolas como uma perua ensandecida passeando em um shopping.

Acompanhada da espanhola Milena (Marta Larralde), uma nova amiga que conheceu na viagem, e do ex-diretor de seu programa, o desbocado Zeca (Marcello Airoldi), esta perua vai passar por vários contratempos. Aliás, a Espanha não só ofereceu parte de suas terras para sediar as filmagens, mas também é creditada como co-produtora do longa e emprestou referências do estilo marcante de um de seus mais renomados cineastas, Pedro Almodóvar. Bebendo na fonte de sua fase mais escrachada (entre o final dos anos 80 e meados da década seguinte), além dos personagens do tipo extravagantes, Ricelli enriqueceu seu filme com muito colorido nos cenários, figurinos e com uma fotografia minimalista que transmite a plena sensação de calor das terras espanholas, um convite e tanto para mexer com as emoções dos personagens que a certa altura esquecem o sentido espiritual da peregrinação. Para dar agilidade à trama e deixar que as ações da esposa na Espanha e as do marido no Brasil tivessem um equilíbrio e não perdessem o interesse de quem vê, a edição é de suma importância, um dos pontos altos deste trabalho. Com cortes rápidos, divisões de telas e recursos gráficos inseridos na pós-produção, o resultado visual e narrativo é plenamente satisfatório, gerando inclusive interessantes e outras divertidas sequências que permitem uma melhor visualização de cenas que contam com muitos personagens ou detalhes a serem percebidos. Embora as soluções técnicas e artísticas sejam os itens de maior relevância desta obra, é preciso ressaltar que, apesar dos muitos deslizes e clichês, Onde Está a Felicidade? está acima da média entre as comédias nacionais e cumpre seu principal objetivo que aparentemente é chamar a atenção daquele público que se diverte com os seriados e as novelas do “plim-plim”. Mesmo sem vínculos profissionais explícitos com a Globo, o casal Ricelli sabe de trás para frente a cartilha de sucesso da emissora e colocou em prática todos os ensinamentos, acrescentando um toque extra de cultura cinematográfica. Sendo assim, para uma sessão descompromissada esta comédia preenche o tempo com folga, embora a conclusão decepcione. Gostar ou não do restante dessa “receita do amor” (também o nome do programa fictício de culinária) proposta vai variar da percepção de cada espectador. Não duvide se alguém assistir e tiver vontade de fazer o trajeto do caminho de Santiago de Compostela. Sempre pode haver alguém que se identifique com o problema de Teodora ou que apenas consiga captar a simplicidade de um produto que não engana desde a escolha do título. Se o diretor ou a roteirista, também produtores da fita, soubessem onde está a felicidade realmente, certamente tal revelação estaria estampando o material publicitário. Eles simplesmente fazem uma dedução do que faria felizes aqueles que se colocam a disposição para ver esta obra. A narração final, portanto, cai como uma luva para agraciá-los, assim como aqueles que ainda acreditam que o cinema nacional pode ainda um dia atingir o perfeito equilíbrio entre o comercial e a qualidade artística e intelectual.

Nacional - 110 min - 2011 - Dê sua opinião abaixo.

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