sexta-feira, 11 de maio de 2012

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

NOTA 8,0

Junção de clichês de filmes
de espionagem e piadas
manjadas, longa funciona
por causa de protagonistas
O que acontece quando dois grandes nomes do humor se reúnem em um mesmo filme? A resposta é uma só: sucesso. Bem, nem sempre é isso que acontece. Uma Noite Fora de Série, mais um exemplar da recente safra de comédias do tipo marmanjos em apuros, não foi um êxito nos cinemas brasileiros, mas merece atenção no aconchego do lar. No circuito americano a produção foi uma das mais bem sucedidas do ano de 2010 e é fácil entende o motivo. Os protagonistas são famosos por suas atuações em seriados humorísticos badalados. Se a atriz Tina Fey até então era conhecida apenas por suas participações na TV, ela encontrou aqui a grande oportunidade apresentar seu talento mundialmente através do cinema e é claro que o prestígio de Steve Carrell a ajuda muito. Há muito tempo não vemos em cena uma dupla com tanta química e timing cômico. Eles são capazes de fazer rir só trocando olhares e o diretor Shawn Levy, cujo maior êxito comercial continua sendo Uma Noite no Museu, soube aproveitar muito bem o casal em uma narrativa que já teve diversas variações. Trabalhando com o tema de identidades trocadas, o longa nos remete a filmes e seriados antigos que usavam o mesmo plot e porque não dizer que dá até para lembrar do personagem Agente 86, afinal o próprio Carell o reviveu no cinema em um passado não muito distante. A cidade de Nova York é o palco para as trapalhadas de Claire (Tina) e Phil Foster (Carell), um casal que vive em harmonia, mas há muito tempo só pensam no trabalho e nos filhos e não se divertem mais. Certa noite eles decidem fazer um programa diferente e ir jantar em um badalado restaurante onde é preciso fazer reserva com antecedência. Sem saber desta norma e decididos a curtir a noitada como há anos não faziam, eles assumem a identidade dos Triplehorns, um casal que havia reservado uma mesa e não apareceu. O que parecia um golpe de sorte acaba virando um de azar. Interrompidos por dois misteriosos homens, os Fosters descobrem que com a troca de nomes foram confundidos com chantagistas que estão metidos em uma encrenca por possuírem um pen drive com fotos comprometedoras de uma pessoa influente, o gângster Joe Mérito (Ray Liotta). Tentando se livrar da situação, eles afirmam que estão com o tal objeto escondido em um ponto turístico e quando chegam lá dão um jeito de fugir, mas a cada novo passo eles se complicam ainda mais. Assim a noite que era para ser divertida virou uma sequência de perseguições, planos mirabolantes e muita confusão.

O roteiro de Josh Klausner, um dos autores das duas últimas animações da franquia Shrek, reserva bons momentos tanto nos diálogos quanto em gags visuais, mas é certo que em certas partes parece não saber qual caminho seguir mantendo a coerência. No início parece que temos uma comédia bem estilo família pela frente, mas nas cenas passadas no restaurante já percebemos que o tom é outro. Mais a frente os protagonistas alternam cenas em que parecem dois cegos perdidos em um tiroteio com outras em que aparentam ser verdadeiros detetives. Tais detalhes são imperceptíveis até porque o longa cumpre o que propõem, dar bons motivos para o espectador cair na gargalhada, mas chama a atenção uma cena que destoa no conjunto. Nada a ver o casal estacionar o carro em uma rua deserta para discutir a relação em meio a uma perseguição dos bandidos para encontrá-los. As cenas que tentam dar alguma dramaticidade a essa história aparecem assim jogadas durante todo o filme e separadas por cenas de ação e piadas, muitas de duplo sentido, sendo a mais comum a exploração da falta de camisa de Holbrooke, vivido por Mark Wahlberg, um conhecido de Claire a quem ela recorre para pedir ajuda. Sempre ocupado com uma mulher no quarto e parecendo estar fora de órbita, é espantoso ver o ator interpretando tal tipo, afinal ele já está em um patamar bem acima na carreira, todavia, prova que ele ainda tem humildade e não espera ser sempre a cereja do bolo. O importante é estar trabalhando e talvez com esse pensamento o diretor tenha conhecido recrutar um grande time de coadjuvantes que praticamente passam despercebidos aos olhos do público, como James Franco, Mila Kunis e Mark Ruffalo. Tais participações especiais são irrelevantes comparando-se as interpretações de Carell e Tina, a verdadeira alma desta comédia. O ator, como sempre, rouba a cena com suas caras e bocas, o mesmo estilo adotado por Jim Carrey, porém, é mais comedido para fazer humor, há uma pequena dose de sutileza que distingue um do outro. Mesmo chamando bastante a atenção, ele não ofusca sua parceira que também dá conta do recado e protagoniza cenas hilárias. Um dos trunfos da produção é o fato de terem dado carta branca para a dupla improvisar, como na cena em que estão jantando no restaurante criticando e se divertindo à custa de outros freqüentadores do local.
No geral, os diálogos rápidos, muita adrenalina e as piadas, desde as mais bobinhas até as mais picantes, funcionam bem, ainda que o longa possa decepcionar alguns com uma conclusão açucarada que destoa do anarquismo que até então predominava, mas quem pode imaginar um final surpresa com uma premissa tão convencional e comercial? Levy acaba fazendo mais um trabalho do tipo arroz com feijão, assim como o fez em Doze é Demais e A Pantera Cor-de-rosa, reciclando situações comuns a comédias antigas. Muitas delas se aproveitavam do gancho da história de um casal atrapalhado e deslumbrado com as maravilhas do mundo dos ricaços que tentavam usufruir um pouco desse luxo de forma inocente ou estrategicamente armada. Situações do tipo foram vividas e revividas muitas vezes pelo cinema, mas ainda funcionam muito bem. É óbvio que não há talento no mundo que nos faça crer em certas passagens inverossímeis como o porquê dos Forbes resolverem ir procurar os verdadeiros Triplehorn ao invés de darem no pé na primeira oportunidade e voltarem para casa, todavia, é nesses exageros que as comédias encontram subsídios para fazerem o público gargalhar ao mesmo tempo em que fazem o sangue dos críticos ferver de raiva. Realmente é um pouco incômodo ver em cena vilões tão patéticos quanto os representantes do bem, mas a certa altura já estamos tão contaminados com a atmosfera humorística e de adrenalina instalada que mal nos damos contas do furo dos roteiros. Geralmente os títulos que os filmes ganham no Brasil não agradam e por vezes vendem de forma errada seu peixe, mas no caso de Uma Noite Fora de Série a escolha foi certeira. No conjunto, esta comédia funciona como um bom passatempo, embora as partes finais não empolguem tanto, chegando a apelar para um show erótico em uma boate que não exibe nudez, mas constrange com seu humor chulo. De qualquer forma, por ser relativamente curta, esta pedida não se torna cansativa e é mais uma importante peça para colocar Carell em um patamar de destaque no gênero de humor e abrir as portas do cinema dignamente para Tina, esta que ainda deve levar um tempo para consolidar seu nome fora da TV. Dica: para quem quer prolongar o riso, não perca os créditos finais que incluem algumas cenas deletadas. Por elas dá para perceber que improviso é a alma desta produção.
Comédia - 88 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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