quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O ATAQUE

NOTA 6,5

Mais uma vez a Casa Branca
é atacada e salva por uma dupla
de heróis improvável em ação
divertida e que cheira nostalgia
Coincidência, espionagem industrial ou simplesmente falta de criatividade? Como explicar que de tempos em tempos surjam filmes com temáticas muito semelhantes? Vulcões em erupção ameaçando uma cidade (O Inferno de Dante e Volcano - A Fúria), meteoros prestes a por um fim na humanidade (Impacto Profundo e Armageddon), a exploração da vida dos insetos (Formiguinhaz e Vida de Inseto) e dos animais marinhos (Procurando Nemo e O Espanta Tubarões) e mágicos em destaque (O Ilusionista e O Grande Truque). Isso sem falar sobre a representação de mesmos conflitos da época da Segunda Guerra Mundial, ainda que seja um período de farto material e vários caminhos a serem explorados. Para engrossar a lista, também temos as produções visando a destruição de um dos lugares mais seguros (e também mais visados) de todo o mundo. Após ser invadida por terroristas norte-coreanos em Invasão à Casa Branca, a sede do governo dos EUA mal teve tempo de ser reconstruída e já virou palco de outro show pirotécnico em O Ataque. Orquestrando a destruição ninguém menos que o diretor alemão Roland Emmerich, conhecido pelo seu apreço aos filmes-catástrofes. E as vezes de fato suas produções são verdadeiros desastres, como 10.000 A.C., ou prometem demais como 2012. Ele já destruiu uma vez a Casa Branca em Independence Day (inclusive faz questão de frisar isso em uma rápida fala logo nos primeiros minutos), mas queria explorar mais as ruínas do local narrando o drama vivido pelo jovem John Cale (Channing Tatum), um ex-militar que trabalha na equipe de segurança do congressista Eli Raphelson (Richard Jenkins), mas que sonha em integrar ao serviço secreto e ser um dos responsáveis pela segurança de James Sawyer (Jamie Foxx), ninguém menos que o presidente americano. Ele tem uma entrevista na sede do governo para realizar seu sonho e aproveita para levar a filha Emily (Joey King) para conhecer o local. Todavia, o passeio é interrompido por uma invasão terrorista e agora realmente terá a chance de salvar a vida do político, mas também terá que se preocupar em salvar a garota que está na mira dos criminosos após ser descoberta enviando filmagens do ataque via celular para a internet.

Todo esse conflito é deflagrado por conta de um bombástico pronunciamento de Sawyer na sede das Nações Unidas a respeito da retirada de tropas militares do Oriente Médio. Então importantes membros do governo são convocados para uma reunião às pressas, entre eles o vice-presidente Alvin Hammond (Michael Murphy) e o próprio Raphelson. Antes disso, logo na abertutra, o presidente está sobrevoando a Casa Branca a bordo de um helicóptero e pede para o piloto realizar um voo panorâmico, uma maneira de apresentar a grandiosidade da propriedade que em poucos minutos veremos em ruínas. Emily escuta o barulho da aeronave e corre para a janela evidenciando seu fascínio por política. Ela até mantém um canal no YouTube sobre o assunto e mostra-se bastante esclarecida para a idade, mas a personagem não vinga. Quando feita de refém limita-se a chorar e é acionada nos minutos finais para um suposto e constrangedor ato heróico. O interesse fica mesmo na relação estabelecida entre herói e protegido em uma relação que lembra bastante a parceria entre Mel Gibson e Danny Glover no primeiro filme da franquia Máquina Mortífera, interpretando personagens de realidades diferentes, mas unidos diante das dificuldades. Aliás, o longa é quase como uma homenagem ao cinema de ação da década de 1980 e a nostalgia trabalha a seu favor. O roteiro de James Vanderbilt carrega muitos elementos que remetem a trama de Duro de Matar. Até o nome do protagonista é um tanto semelhante ao de John McClane vivido por Bruce Willis cuja marcante regate branca deve ter sido emprestada para Tatum cujo drama de ter que reencontrar a filha em meio ao caos substitui a preocupação com a esposa vivida pelo herói no longa oitentista. Aqui o herói também enfrenta praticamente sozinho um grupo de bandidos distribuídos por um único cenário, o que não chega a gerar sensação de claustrofobia, e também tem sempre na ponta língua uma frase espirituosa ou uma piadinha sem graça. E já que o longa de Willis serviu de escola para tantos outros filmes, não é difícil identificar elementos que remetem a produções como Na Linha de Fogo, Força Aérea Um e outras dezenas de obras do gênero cuja diversão oferecida depende do quanto o espectador está disposto a deixar de lado o bom senso. E também não se pode deixar de registrar que aqui temos um retrocesso quanto a participação feminina em longas de ação. Carol Finnerty (Maggie Gyllenhaa), a chefe da segurança pessoal do presidente, é limitada a ficar intermediando conversas entre bandidos e mocinhos via telefone ficando bem longe da adrenalina. Isso sem falar que é óbvio que alguém do próprio governo estará envolvido com o plano terrorista, nada mais óbvio.

Após um tempo razoável para apresentar os personagens a fim de criar empatia com o espectador, Emmerich se dedica exclusivamente ao que sabe fazer melhor: filmar perseguições, tiroteios e explosões. Com uma ou outra produção mais elaborada no currículo, como o drama Anônimo ou o épico O Patriota no qual não abre mão do nacionalismo exagerado, mais uma de suas marcas, o diretor é o grande defensor do cinema escapista e bebe na fonte dos filmes-catástrofes tão característicos da década de 1970. Assim, os exageros são fundamentais em suas obras, assim como levar a sério os absurdos. Até as motivações dos vilões pouco importam diante de suas figurar exageradas, todos desequilibrados e com armas sempre em punho para dispararem ao menor sinal de estresse. Emil Stenz (Jason Clarke), o chefe dos terroristas, é o caricato criminoso, anabolizado, tatuado e com cara fechada, a figura ideal que todos gostam de odiar. Aliás, todos os personagens são estereotipados, inclusive as relações estabelecidas entre eles, como a difícil relação entre Cale e a filha fruto de um relacionamento desfeito até a redenção ao final com a garota finalmente o chamando de pai. Isso é previsível, assim como sabemos que os protagonistas vão ser baleados, violentados e enfrentar explosões e praticamente saírem ilesos de todas as emboscadas. O Ataque não traz absolutamente nada que já não tenha sido apresentado em outros blockbusters made in Hollywood e recicla as fórmulas do próprio cinema de Emmerich que vê suas produções simplesmente como grandes brincadeiras. Mesmo trabalhando no piloto automático, afinal o público já sabe o que esperar de suas fitas, ele consegue prender a atenção com suas histórias que não raramente ultrapassam duas horas de duração quando a maioria dos diretores tem dificuldades para segurar a ação por cerca de 90 minutos. Em meio a tanta adrenalina deixamos passar algumas incongruências como a facilidade dos terroristas colocar o plano em prática, as mil coincidências para que tudo se encaixe perfeitamente e até mesmo o fato do presidente entrar na briga. Aliás, tal figura fazendo alusão ao então manda-chuva Barack Obama, serve quase como um alívio cômica à trama. No geral, uma diversão que já nasceu com sabor de nostalgia. E isso é um elogio.

Ação - 131 min - 2013

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