quarta-feira, 7 de maio de 2014

O RETRATO DE DORIAN GRAY (2009)

NOTA 7,0

Baseado em romance clássico,
longa deixa de lado o espírito
da obra original para investir em
suspense para atrair plateias jovens
O sonho da eterna juventude é uma utopia que atravessa séculos despertando discussões e fantasias, tanto que é um argumento comumente utilizado no campo artístico-cultural, tendo inspirado desde as artes plásticas até o cinema, passando obviamente pela literatura e o teatro. O problema é que todos pensam nos aspectos positivos de ser jovem para sempre, mas poucos refletem a respeito das consequências negativas e do que é preciso compactuar ou abrir mão para ter tal dádiva. É esse olhar que temos em O Retrato de Dorian Gray, suspense de época baseado no romance homônimo do dramaturgo irlandês Oscar Wilde, famoso por contos que revelam lados sórdidos ou que criticam de forma bem humorada a burguesia de sua época. Aqui ele deixa os sarcasmos de lado para abordar de forma mais aterrorizante e dramática o culto a beleza. Ele teria profanado o pensamento de que todo autor em seu primeiro romance acaba se colocando como Cristo ou Fausto no lugar do personagem. Neste caso ele optou pela segunda opção. Adaptado até para humorísticos de televisão, todos já tiveram contato de alguma forma com a história do homem que vendeu sua alma ao Diabo em troca de reconquistar sua juventude para ganhar o amor de uma mulher. Aqui temos mais uma releitura deste argumento. O roteiro, assinado pelo estreante Toby Finlay, se passa na lúgubre Londres do século 19 e gira em torno de Dorian Gray (Ben Barnes), rapaz que herdou os bens e fortuna de um parente e agora quer se adaptar ao estilo de vida da alta sociedade inglesa. Logo em seu primeiro evento social, ele faz amizade com Basil Hallward (Ben Chaplin), um pintor que fica tão impressionado com os traços perfeitos do jovem que pede para ele posar para um de seus quadros. Estarrecido com a sua própria beleza na tela, Gray não resiste a força persuasiva de Lorde Henry Wotton (Colin Firth), um sujeito de caráter duvidoso e comportamento estranho que seduz o novo amigo a viver em busca da beleza eterna e do prazer sem limites. Tal convivência acaba levando-o a se afastar dos planos de constituir uma família e certo dia ele questiona se não haveria a possibilidade de trocar sua alma em troca da manutenção de sua juventude e beleza intactas para sempre. O pedido é aceito e o passar dos anos são sentidos por sua imagem no quadro que pouco a pouco vai absorvendo as marcas de expressões e até os ferimentos conquistados pelo rapaz que se aventura em orgias sexuais regadas a bebedeiras e com direito a masoquismo, afinal sofresse o que for sua pele sempre era regenerada e voltava à perfeição. Tais cenas não chegam a chocar, mas seria de bom tom apenas sugestioná-las.

O galã das antigas não mudou por conta apenas de sua autossedução. Após uma decepção amorosa, Wotton incentiva Gray a não ter escrúpulos e saciar suas vontades sem medo das consequências chegando ao ponto de fazer apostas a respeito do desempenho sexual do rapaz que, diga-se de passagem, não dispensa até mesmo fazer sexo com outros homens e tem fôlego e cinismo até para ir para a cama com uma jovem e depois com a sua mãe recompondo-se em questões de minutos. Quanto mais crimes e pecados comete, mais a pintura fica horrenda e consequentemente alimenta sua insana vaidade. Sua verdadeira alma só reaparece em algumas cenas isoladas marcadas por algumas lágrimas que deixa escapar, mas logo a tentação da luxúria volta a seduzi-lo. O lorde e seu pupilo sentem uma inegável atração sexual um pelo outro, mas tal sentimento jamais é manifestado diretamente, sendo explícito mais nas trocas de olhares. Contudo, as boas relações entre eles ficam estremecidas muitos anos depois quando Gray se interessa e é correspondido por Emily (Rebecca Hall), filha de Wotton, este que já com idade avançada talvez reavaliou suas condutas erradas do passado e finalmente percebeu o monstro que ajudou a criar e agora quer afastá-lo a todo custo de sua herdeira. A garota foi criada para o filme, não existe no livro, talvez uma forma de espantar o fantasma do homoerotismo da história. Hallward chega a sentir desejo pelo seu modelo e até poderia viver esse amor mesmo que fosse apenas através do prazer carnal que motivava Gray, porém, sua insistência para rever o quadro e até o expor como sua máxima obra de arte acaba irritando o jovem que mais uma vez age impulsivamente para evitar que seu segredo venha à tona. Por curiosidade, a carga homoerótica da trama que hoje nos soa mais tolerável, na época da publicação original do romance custou a carreira de Wilde. Acusado de manter um relacionamento com um garoto menor de idade, trechos do livro foram utilizados no julgamento para apoiar sua condenação. Voltando a falar do filme em si, é importante ressaltar que quem deseja assistir a esta obra deve estar ciente de que não encontrará explicações para a dádiva ou maldição, depende do ponto de vista, da juventude eterna, simplesmente é um elemento fantasioso utilizado para tecer pertinentes críticas e reflexões a respeito de temas que continuam completamente atuais como o culto a aparência, a importância da beleza interior e os efeitos negativos do pecado da soberba, afinal quem aproveitaria passivamente o passar dos anos em boa forma sem zombar dos demais pobres mortais fadados a aguardar a morte definhando pouco a pouco?

Apesar do argumento interessante, o longa não foi um sucesso, pelo contrário, colheu poucos elogios sendo a maioria destinados as partes técnicas, ainda assim com ressalvas. Ironicamente, Wilde gostava de criticar em seus textos a beleza exterior da burguesia e o quão vazia ela era em seu interior, mas esta adaptação de seu romance mostra-se justamente mais preocupada com o visual do que com o conteúdo propriamente dito. O diretor Oliver Parker é conhecedor do universo do dramaturgo afinal já havia dirigido outras duas versões de suas obras, O Marido Ideal e Armadilhas do Coração, produções de 1999 e 2002 respectivamente. Se antes trabalhou com a crítica em tom bem humorado e mostrou razoáveis resultados, neste novo trabalho o cineasta precisou mudar o tom, mas o drama que envolve o argumento poderia não cativar novas plateias, assim ele optou por praticamente reinventar o texto original. Além de ressaltar a inspiração no citado conto de Fausto, deixando de lado as discussões de Wilde a respeito da relação da arte com o seu apreciador, Parker adotou os elementos triviais de um suspense clássico, ainda mais tendo a velha Londres como cenário. Um velho casarão como palco principal, a cidade tingida em cores escuras, a névoa sempre presente, flashbacks evocando pesadelos, enfim elementos góticos não faltam, mas o diretor desejava se comunicar com plateias mais jovens. Além de usar sangue sem necessidade em alguns momentos, bastava o quadro para vez ou outra impactar com suas feridas expostas, ele tratou de mastigar ao máximo a essência do romance evitando que seu trabalho ficasse complexo demais para a “geração crepúsculo” compreender, assim Gray, refletindo uma das grandes preocupações dos adolescentes que levam a sério o ditado que diz a primeira impressão é que fica, não chega ao ápice do desespero por sua condição e os demais personagens, sofrendo as ações naturais do tempo, não demonstram muito espanto ao reencontrarem o aristocrata após alguns anos de ausência mantendo a mesma aparência de outrora. É claro que alguns valores e opiniões em evidência na época de Wilde já estão obsoletos para o século 21, mas ainda assim existem elementos que não precisariam ser tão simplificados. De qualquer forma, o filme apenas esteticamente se assemelha a uma produção de horror, com direito a sons de arrepiar e ambientação típica de filmes tradicionais de vampiros, mas na realidade o roteiro trilha mais o caminho do drama mostrando de forma coerente a transição do êxtase experimentado pela dádiva conquistada para a sensação de opressão que o obriga a esconder eternamente seu quadro afinal se ele for destruído Gray morrerá. Servindo como inspiração para mais de uma dezena de obras cinematográficas, a nova versão de O Retrato de Dorian Gray não é de todo ruim, até deixa claro nos diálogos mensagens sobre como os seres humanos se acostumaram a abdicar de suas vontades para atender convenções, obviamente deixando a lição de moral para aqueles que desejarem afrontar os padrões.

Suspense - 112 min - 2009 - Dê sua opinião abaixo.

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