sexta-feira, 4 de maio de 2018

PETER PAN (2003)

NOTA 8,0

Mais fiel ao conto original,
longa entretém com seu clima
lúdico, mas não abre mão de temas
que custaram sua popularidade
Dificilmente alguém desconhece o conto do garoto que se recusava a crescer e tinha a sorte de viver em um mundo fantástico onde tudo é possível e a diversão sem limites são palavras de ordem. A história foi criada no início do século 20 pelo dramaturgo inglês J. M. Barrie, que baseou-se no espírito criativo e aventureiro de um grupo de crianças que conhecera por acaso e pouco a pouco criou certa intimidade até mesmo com a mãe delas, fato que gerou polêmica por ele já ser casado e ela uma viúva recente. A literatura, o teatro e a televisão já se inspiraram no conto inúmeras vezes, assim como o cinema, sendo a versão em animação datada de 1953 da Disney, para variar, considerada a melhor adaptação do texto. Isso até que exatos cinquenta anos depois finalmente foi lançada uma adaptação com atores de verdade digna de elogios. Bem antes da moda de relançar desenhos clássicos em formato live action, não foi da casa do Mickey Mouse que saiu tal produção. Peter Pan, do cineasta e roteirista P. J Hogan, levou quase duas décadas para se tornar realidade e conseguiu a proeza de ser mas fiel a trama original, não varrendo para debaixo do tapete passagens mais sombrias ou românticas vivenciadas pelo personagem-título. Aliás, se não fosse por convenções, o filme deveria levar o nome de Wendy Darling, papel de estreia da elogiada Rachel Hurd-Wood. É esta pré-adolescente a responsável pelo conflito principal do enredo co-escrito por Michael Goldenberg. Brincalhona e aventureira, sua maior diversão é inventar histórias para entreter antes de dormir seus irmãos mais novos João (Harry Newell) e Miguel (Freddie Popplewell), mas as noites de encanto e magia estão ameaçadas desde que a tia Millicent (Lynn Redgrave) chama a atenção dos pais da garota ao fato dela estar crescendo rapidamente a ponto de desenvolver "um beijo escondido no canto dos lábios", um maneira delicada de dizer que ela estaria pronta para se apaixonar e, consequentemente, entrar na vida adulta. O problema é que para esta senhora amadurecer é sinônimo de seriedade e conformismo. Ela defende que um bom relacionamento não se baseia necessariamente em sentimentos, basta o companheiro oferecer uma vida confortável à esposa que o amor naturalmente se desenvolve com o tempo.

Para arranjar um pretendente a altura para Wendy, a tia insiste que o Sr. Darling (Jason Isaacs) passe a ter uma vida social mais dinâmica e bajule seu patrão ao máximo, tudo para que se posicione melhor profissionalmente e perante a sociedade e isso inclui a desistência em deixar Naná, a  cachorrinha de estimação da família, cuidando das crianças, certamente um motivo para deboche por parte de algumas pessoas. No entanto, a notícia que mais desestabiliza a família é a de que chegou a hora de Wendy ter seu próprio quarto, o que para as crianças significa a extinção das noites embaladas por divertidos e criativos contos que lhes proporcionavam deliciosos sonhos. Seria uma grande decepção também para Peter Pan (Jeremy Sumpter), um garoto com dons especiais que viaja todas as noites até Londres para visitar secretamente a residência dos Darlings para também acompanhar tais histórias. Sempre acompanhado de sua fiel e temperamental amiga fada Sininho (Ludvine Sagnier), certa vez ele perde sua sombra na casa da menina e na tentativa de recuperá-la acaba sendo descoberto, mas rapidamente se enturma e convida os novos amigos para irem viver com ele na Terra do Nunca, um lugar que é pura fantasia e onde ninguém tem a obrigação de crescer. As crianças que vão para lá não tem preocupação com o antes ou depois, somente o agora importa e procuram se divertir até não poderem mais.Tudo seria perfeito, mas Wendy tem consciência da realidade que deixar de ser criança é preciso, por mais doloroso que isso possa parecer. Ela também sente o peso de se apaixonar por Peter, um ser que se recusa a amadurecer e foge de responsabilidades. O relacionamento entre eles não teria futuro. A descoberta da sexualidade implícita no conto original é abordada de forma singela por Hogan, mas há outros aspectos de sua trama igualmente interessantes, como as dúvidas quanto a passagem para a vida adulta. À primeira vista, pode ser interpretada como uma analogia à perda da inocência e quanto às dificuldades deste período de transição, mas também coloca em discussão a importância das relações familiares, da solidariedade e da crença em sonhos. Todos esses temas são oferecidos ao espectador em embalagem luxuosa. Na época, com uma enxurrada de produções calcadas na fantasia pegando carona no sucesso de Harry Potter, Hogan apostou alto na criação da Terra do Nunca com cenários ricos em detalhes, multicoloridos e sombrios quando necessário. Nuvens de algodão, o Sol com feições e as mudanças de clima dependendo do humor do seu ilustre habitante acentuam o caráter onírico da produção.

E o famoso Capitão Gancho? Claro que ele marca sua presença sendo vivido com vigor pelo versátil Isaacs. Sim ele mesmo que também dá vida (se é que podemos dizer assim) ao apático Sr. Darling. Quando é influenciado a tomar a decisão de que chegou a hora de ser reconhecido como alguém de sucesso de certa forma também assume o papel de vilão aos filhos, propondo uma ruptura no relacionamento das crianças. Wendy ao encontrar o arquiinimigo de Peter não esconde seu fascínio pelo pirata, justificando a boa sacada de Isaacs se dividir em dois papéis. Aliás, Gancho é um personagem bastante interessante. Quando entra em cena digamos que ele está prestes a se aposentar após Peter deixar a Terra do Nunca, mas com o retorno do garoto o vilão parece voltar à ativa com ânimos renovados. É como se sua existência só fosse justificada pelo eterno conflito com o jovem herói, assim derrotá-lo ao mesmo tempo é um objetivo, mas também um fato indesejável. Em tempos em que as crianças se desenvolvem com rapidez assustadora, mas em geral sem o tempo suficiente para compreenderem que para crescer é necessário certos aprendizados e deixar para trás muitas coisas, a adaptação de Hogan mostra-se bastante pertinente. Seu trabalho na verdade soa como uma metáfora a realidade de que as garotas amadurecem antes dos rapazes, tanto física quanto mental e emocionalmente. Quem nunca ouviu falar da tal síndrome de Peter Pan? E olha que não faltam marmanjos por aí para prová-la. Apesar dessa crítica implícita aos homens que não querem assumir responsabilidades e levam a vida como uma grande brincadeira, optou-se pela primeira vez no cinema ter no papel-título um garoto. Em outras empreitadas talvez houvesse o medo de que um jovem não compreendesse a complexidade do personagem, mas Sumpter trabalha feito gente grande deliciando-se com falas cínicas e cheias de indagações a respeito de trivialidades e mostra-se atencioso em gestos e olhares, assim como Hurd-Wood que na época chamou a atenção com seu desempenho sincero e encantador. Fazendo um filme aqui outro acolá, uma pena que suas carreiras não decolaram rumo ao sucesso. Também é lamentável que a fita tenho sofrido com rejeição a seu conteúdo. Além das dificuldades para driblar o fato de que o conto é de domínio público e diversas adaptações tiraram seu brilho original reduzindo ao mínimo sua natureza mais melancólica, Peter Pan também foi criticado por explicitar a atração sexual de Wendy e o protagonista e até mesmo por insinuar uma relação incestuosa entra a menina e Gancho. Bobagens de pessoas hipócritas.

Aventura - 113 min - 2003
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