sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CADA UM TEM A GÊMEA QUE MERECE

NOTA 2,0

Com o humor raso e grosseiro
como de costume, Adam Sandler se
divide em dois personagens e carrega
Al Pacino para uma absurda produção
Homens vivendo papeis femininos há tempos não causam estranheza graças ao empenho e talento de atores como Dustin Hoffman em Tootsie, Robin Williams em Uma Babá Quase Perfeita e até mesmo John Travolta em Hairspray - Em Busca da Fama, este com certo quê de caricatural propositalmente. Um ator contracenar consigo mesmo também se tornou algo obsoleto, principalmente depois que Eddie Murphy conseguiu a proeza de contracenar com meia dúzia de personagens vividos por ele próprio sob pesada maquiagem (literalmente) em O Professor Aloprado. Sendo assim, o que teria chamado a atenção de Adam Sandler para protagonizar em dose dupla a comédia grosseira Cada Um Tem a Gêmea Que Merece? Bem, seu currículo prova que surpreender o expectador com novidades não é lá sua praia, mas melhor acreditar que tenha topado participar de um projeto tão tolo em nome da amizade de longa data com o diretor Dennis Dugan. Até então este era o sétimo trabalho da dupla, uma parceria iniciada em 1996 com Um Maluco no Golfe e que a cada novo filme lançado parece querer superar o nível de baixaria alcançado pelo anterior. O Paizão, de longe, pode ser considerado o que de melhor fizeram juntos. No longa em questão Sandler se desdobra para viver os irmãos Jack e Jill Sadelstein, gêmeos que apesar de fraternos (de sexo oposto) são idênticos tal qual fossem univitelinos, uma mera desculpa para colocar o ator em trajes ridículos e com peruca desgrenhada compondo uma figura que é uma verdadeira aberração. Há anos eles não se encontram, mas certa vez ela decide aparecer na casa do irmão para passar o feriado do Dia de Ação de Graças, a oportunidade perfeita para reatarem os laços familiares.  Será mesmo? Jack está casado, tem filhos, vive em uma bela casa e dirige uma agência de publicidade. Já Jill viveu por anos na barra da saia da mãe recentemente falecida e acabou solteirona, vivendo em uma cidade do interior e ocupando seu tempo com fofocas e perturbando qualquer um que cruze seu caminho com seu jeito expansivo e inconveniente. É óbvio que os irmãos não se dão bem e Jack conta os minutos para se livrar do tribufu o mais rápido possível, mas ela decide esticar um pouquinho  a temporada com a família que irá viver momentos um tanto constrangedores em sua companhia.

Para mantê-la ocupada, o publicitário então decide lhe arranjar companhia colocando um perfil em um site de relacionamentos, mas sem sucesso. Um único pretende surge e, diga-se de passagem, foge em meio a um jantar deixando a caipirona ainda mais tresloucada, porém, para compensar, o destino coloca em seu caminho ninguém mais ninguém menos que Al Pacino... Oi? É isso mesmo! O ator participa como ele mesmo e surpreende com sua total desenvoltura em se autoridicularizar. Unindo o útil ao agradável, Jack aproveita que está em negociações com o astro para que ele estrele a campanha de marketing de uma badalada rede de cafeterias para tentar descolar um cunhado rico e famoso, o que vem a ser a piada mais infame do longa, afinal Sandler não está interpretando uma mulher de verdade e não engana ninguém. Simplesmente está em cena vivendo praticamente um ensandecido travesti que faz de tudo para chamar atenção. Fica claro que o comediante não se esforçou minimamente para compor uma Jill crível e o próprio roteiro tira proveito desse deslize exaltando a dúvida se ela realmente é mulher, mas o nonsense perde um pouco a graça quando é explorada a feiúra da personagem. Só belos rostos podem encontrar um amor? O problema é que a solteirona também é estridente e hiperativa, predicados que não favorecem em um relacionamento, mas ainda assim ela chama a atenção de um astro de Hollywood. Ultrapassando os limites do bom senso, o protagonista de Perfume de Mulher exagera nas declarações de amor, mas tem sua participação absurda de certa forma atenuada por tocar na nostalgia do público ao fazer algumas menções à sua própria carreira, como lembrar de clássicos como O Poderoso Chefão e Scarface, além de aceitar tirar da sarro de sua predileção por textos shakespearianos e do fato de ter ganho apenas um Oscar. Contudo, estes são alguns raros momentos de criatividade do longa. Sandler, acostumado a críticas negativas, aqui tem que se contentar a dividir tais lembranças com Pacino cuja carreira está clamando por aposentaria visto a qualidade de seus últimos trabalhos. Aqui é o fundo do poço. Teria sido melhor que fizesse apenas uma política da boa vizinhança tal qual Johnny Depp que também surge como ele mesmo em uma rápida e descartável sequência.

Falando nisso, esta comédia também dá uma manchada de leve no currículo de Katie Holmes, mais conhecida como a ex-senhora Tom Cruise e outrora queridinha dos teens americanos. A moça está envelhecendo e cada vez mais se tornando uma figurante de luxo. Como Erin, esposa de Jack, ela está em cena apenas para preencher lugar à mesa nas refeições dos Sadelsteins. Se todas as suas cenas fossem descartadas na edição ninguém sentiria falta dela e o público se beneficiaria com alguns preciosos minutos a menos de uma comédia que embora relativamente curta parece durar o dobro do tempo já que não há propriamente uma história a se contar e sim uma forçada tentativa de alinhavar esquetes cômicos. O roteiro de Steve Koren, de Click, com pitacos do próprio Sandler como de costume nas produções que estrela, não se preocupa em contar uma história plausível, mas sim em inserir piadas onde seja possível. O problema é que o estilo de humor adotado é falho. Embora ao longo da trama lições de moral sobre a importância da família, espírito de solidariedade e bons sentimentos sejam exaltados, a cada cinco minutos (ou até menos) temos alguma tirada escatológica ou preconceituosa. Não faltam menções a cocô ou puns e as minorias são representadas por estereotipados latinos, indianos e até sem-tetos. O longa também falha ao apostar no curioso fenômeno dos "twin powers", aquelas manjadas histórias sobre gêmeos que conseguem ter as mesmas sensações um do outro ou até mesmo compartilhar pensamentos. Tudo é usado em prol do escracho. Para não dizer que nada se salva da produção, até que é divertida a cena em que os irmãos vão ao cinema na companhia de Gary (Rohan Chand), o filho de Jack. O garoto sentado entre eles observa com atenção como seu pai e sua tia são iguaizinhos repetindo gestos, expressões e até mesmo jeito de gargalhar, isso porque pouco antes eles discutiam sobre como se enxergavam diferentes um do outro. Aliás, o menino e sua irmã Sofia (Elodie Tougne) parecem ser os únicos da família a gostarem da companhia da caipirona. Pudera, são tão esquisitos quanto ela. O menino tem o costume de ficar com objetos ou bichos colados pelo corpo com fita adesiva e a garota se veste igual a suas bonecas. Começando e encerrando com depoimentos divertidos e verídicos de gêmeos ressaltando o que há de bom e as desvantagens nisso, Cada Um Tem a Gêmea Que Merece tinha potencial para ser uma divertida e até mesmo reflexiva comédia a julgar por seu argumento inicial, mas se contenta a seguir um caminho medíocre. Em determinado momento Pacino brada que o videotape do tal comercial deveria ser destruído para que ninguém assistisse tamanha bobagem. Não seria uma cena de bastidores inserida por engano demonstrando que lhe caiu a ficha no que se meteu? 

Comédia - 91 min - 2011

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