sábado, 22 de agosto de 2026

O LOBISOMEM (2010)



Apesar do apuro visual e nostálgico, obra se perde entre conflitos familiares e exigência de assustar


Para a maior parte dos amantes de cinema deve ser muito revoltante ver figuras de monstros clássicos da sétima arte hoje não causarem mais expressões de repúdio ou pavor, mas sim serem idolatrados e adornarem os quartos de adolescentes através das fotografias de jovenzinhos bonitinhos que brincam de viver vampiros e lobisomens carismáticos. Por outro lado, vez ou outra surge algum projeto bacana que tenta trazer de volta a imagem clássica de criaturas que apavoraram gerações e sendo a Universal Pictures a produtora com o catálogo mais amplo deste tipo de personagem é sua obrigação resgatá-los do limbo. O Lobisomem foi um projeto muito aguardado, mas que deu errado desde sua concepção. Baseado na adaptação original de Curt Siodmak, o roteiro escrito por Andrew Kevin Walker e David Self procura estabelecer relações mais profundas entre uma terrível maldição e o passado de uma família. Na era Vitoriana, em Nova York, Lawrence Talbot (Benicio Del Toro) é um ator de teatro que ainda sofre com as memórias da infância, quando sofreu com a precoce morte da mãe e com os constantes conflitos que tinha com seu pai, o caçador Sir John (Anthony Hopkins). Todavia, ele precisa confrontar seu passado quando é procurado por Gwen Conliffe (Emily Blunt), sua futura cunhada, para ajudá-la a encontrar seu noivo desaparecido. 

Ao retornar para sua antiga casa na Inglaterra após mais de duas décadas de ausência e reencontrar o pai, Lawrence acaba se envolvendo em uma investigação sobre violentas mortes que coincidentemente ocorrem nas noites de lua cheia e descobre um segredo que mudará para sempre sua vida. Ao ser atacado por um animal feroz e salvo por Maleva (Geraldine Chaplin), uma cigana curandeira, o rapaz passa a sofrer perturbações psicológicas e transformações físicas que afloram geralmente na presença de Gwen, algo que ninguém sabia justificar. Paralelo a isso, um inspetor recém-chegado de Londres, Aberline (Hugo Weaving), se encarrega de investigar as misteriosas mortes, entretanto sua participação na trama acaba sendo desnecessária já que suas justificativas para o caso em nada acrescentam de concreto para o desenrolar da trama. Como em toda boa história com pegada clássica, o romance não é deixado de lado e é forçado algum clima entre os personagens Lawrence e Gwen, mas a tentativa é falha por erros da própria condução da narrativa. Tal personagem feminina deveria ter uma presença bastante forte, afinal ela representaria o que remete às lembranças do passado envolvendo a trágica morte da matriarca dos Talbot, fato que estremeceu irremediavelmente a relação entre pai e filho, mas infelizmente esse é outro gancho explorado de forma ineficiente ganhando força apenas nos minutos finais quando acontece um eminente combate mortal entre eles. 


A premissa é bem interessante, mas seu desenvolvimento infelizmente é um tanto truncado e sem uma linha narrativa bem definida. O início sugere uma obra no melhor estilo gótico, em algumas situações o tom de aventura toma as rédeas e, de uma hora para outra, de repente podemos estar diante de um legítimo filme de terror com cenas banhadas a sangue com direito a mutilações e vísceras expostas, além é claro de em alguns momentos o roteiro reforçar o traço de drama psicológico. Não deixa de ser interessante a escolha narrativa de apresentar as variadas reações acerca da notícia de que uma fera insaciável está atacando um provinciano vilarejo, assim nos oferecendo um panorama dos perfis sociais e intelectuais da época, sobrando até mesmo para a Ciência ser apedrejada. As falhas da estrutura narrativa podem ser justificadas pelos bastidores conturbados. Antes mesmo de ter o mínimo necessário para a iniciar os preparativos do longa, como por exemplo sequer um diretor contratado, os produtores já divulgavam a estreia para meados de 2007, sendo que o lançamento de fato só ocorreu três anos depois. A obra acabou ficando estigmatizada, parecia que nem mesmo seus realizadores tinham mais expectativas positivas, e os ânimos esfriaram até que seu tardio lançamento resultou em fracasso de pública e crítica. 

O diretor Joe Johnston suportou inúmeras pressões do estúdio e ainda desafiou as leis do mercado. Em meio a avalanche de efeitos especiais, é um verdadeiro deleite poder ver que ainda há profissionais que optam pelo básico bem feito. Obviamente há o emprego da tecnologia, mas muito mais trabalho artesanal e criatividade envolvida, principalmente na cena de transformação de Del Toro no personagem-título, um trabalho de mestre apresentado nos mínimos detalhes, resultado da experiência de Rick Baker, não a toa o vencedor do primeiro Oscar da categoria de maquiagem por Um Lobisomem Americano em Londres e novamente premiado com esta obra. O diretor também optou por deixar o filme esteticamente semelhante ao estilo adotado pelas produções de horror em seus primórdios, padrão que na década de 1970 voltou à moda junto com o interesse pelas lendárias criaturas do gênero como múmias, vampiros e, obviamente, lobisomens. O filme na realidade fazia parte de um ambicioso projeto de trazer de volta essas figuras vilanescas para uma nova geração, mas todas as tentativas falharam, seja mantendo o estilo clássico ou adaptando para narrativas mais modernas. É uma pena, pois são criações com mitologias muito interessantes e que de certo modo tiveram importâncias históricas. Após a famosa crise financeira de 1929 que abalou o mundo ocidental, tendo reflexos principalmente para os norte-americanos, os executivos do estúdio Universal foram buscar inspiração no cinema de horror característico do expressionismo alemão. Produzidos após a Primeira Guerra Mundial, a ideia era apresentar no escurinho do cinema algo tão perturbador quanto a realidade para conquistar a sintonia das plateias. 


Fica um pouco difícil entender o porquê de tentarem resgatar produções do tipo em tempos em que sádicos assassinos mascarados já servem como figuras alegóricas para explicitar os temores que nos cercam diariamente. É nítido que este projeto veio em momento inoportuno ou no mínimo foi mal lapidado, mas de qualquer forma O Lobisomem está longe de ser completamente desastroso, principalmente para aqueles que apreciam uma boa construção de clima e reconstituição de época. Johnston fez questão de manter a aura gótica da obra que lhe serviu de inspiração (o longa homônimo de 1941), assim abusando dos tons escuros nos cenários, figurinos e até mesmo na fotografia e iluminação, além é claro da trilha sonora e dos efeitos sonoros cumprirem sua função de manter o clima latente de tensão. No geral, este trabalho não é avassalador como prometia, ainda que o argumento oferecesse possibilidades de ser trabalhado de forma mais original privilegiando os conflitos internos e externos de um humano que descobre de uma hora para a outra que pode se tornar umas besta feroz e implacável. De qualquer fora, entre tantos desafetos inclusive em seus bastidores, o longa ao menos tem um fã incondicional: o próprio Del Toro, talvez o único nome atrelado desde o início (ele também assina como um dos produtores) e que em momento algum ao menos ameaçou abandonar o projeto. 

Vencedor do Oscar de maquiagem

Terror - 119 min - 2010

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