sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

QUERO MATAR MEU CHEFE

NOTA 7,0

Comédia exagera nos estereótipos,
mas arranca risadas com situações
que beiram o absurdo interpretadas por
elenco afiado e a vontade com o gênero
Janeiro está aí e as férias estão começando para muita gente. Embora o período seja aproveitado muito mais pelas crianças e adolescentes com folga dos estudos, sempre alguns adultos têm a sorte de tirar uns dias de descanso nessa época, seja apelando para a ideia de que precisam aproveitar um pouco a companhia dos filhos ou sacrificando alguns dias que poderiam tirar mais para frente passando um mês inteirinho de pernas para o ar. O fato é que muitos já estão cansados das broncas e ordens dos patrões, assim a pedida para começar bem as férias é se divertir com Quero Matar Meu Chefe, mais um exemplar da corrente de humor negro e politicamente incorreto que pegou de jeito o cinema americano e que busca agradar o público na casa dos 20 aos 40 anos, mas que acaba fazendo a diversão de todas as idades. Ok, não é uma opção aconselhável para crianças, mas os adolescentes com certeza vão curtir. Basta trocar a imagem do chefe pelo professor. Quem na hora da raiva nunca pensou em castigar um deles? Em tempos em que as sociedades de todo o mundo buscam a paz, no mínimo, entre as pessoas que são obrigadas a conviver em um mesmo ambiente, pode soar controversa a ideia de que um subalterno trame uma vingança fatal contra o chefe, uma afronta a hierarquia das organizações, mas tal gancho já foi utilizado com estilo por Alfred Hitchcock em Pacto Sinistro na década de 1950 e de forma bem escrachada por Danny DeVito mais de três décadas depois levando o assunto para a cozinha em Jogue a Mamãe do Trem. Agora o tema volta à tona em dose tripla pelas mãos de Seth Gordon, o mesmo diretor de Surpresas do Amor, e o título nacional resume perfeitamente a premissa do longa. Ainda bem.

Três amigos estão cansados dos abusos cometidos por seus chefes e passam a fantasiar planos para eliminar seus respectivos carrascos, chegando até mesmo a pedir a consultoria do ex-presidiário MF Jones (Jamie Foxx), porém, são eles mesmos que vão ter que executar o serviço sujo. Nick Hendricks (Jason Bateman) se dedica muito ao seu trabalho em um escritório e sofre com as ordens descabidas de Dave Harken (Kevin Spacey), mas aguenta firme sonhando com uma promoção. Já Dale Harbus (Charlie Day) é o assistente da despudorada dentista Julia Harris (Jennifer Anniston), que vive assediando o rapaz que se mostra muito correto e fiel à noiva, mas, ardilosa como ela só, a gata do motorzinho já tem um plano na manga para fazer seu pupilo sair da linha na marra. Por fim, Kurt Buckman (Jason Sudeikis) é um contador que vai precisar se adaptar ao novo chefe, o filho do antigo patrão, Bobby Pellit (Colin Farrell), um boa vida que passa mais tempo no banheiro fazendo o que não deve do que trabalhar. O elenco, como visto, é muito bom e todos com experiência no campo do humor, aliás, alguns já tem até demais. Entre os patrões, é impossível não gargalhar desde a primeira cena de Jennifer, deixando de lado o tom anestesiado que adota geralmente em suas comédias românticas, mas para Farrell sobra um puxão de orelha por sua caracterização horrenda, ainda que ela ajude a compor um tipo que deve causar repulsa em quem assiste. Já o trio de heróis (ou talvez anti-heróis), todos se saem bem, porém, o crédito maior deve ser dado a Day em seu primeiro papel de protagonista no cinema. Ele faz o tipo bocó da trupe e tem as piadas mais divertidas, muitas aproveitando o perfil “viajado” do personagem. Até Foxx que não aparece muito tem seu momento de brilhar com uma piada acerca do motivo que o levou à prisão (ah se no Brasil a polícia fosse tão eficiente assim). A cena é rápida mais crucial para compreendermos o que leva o trio de vingadores sem experiência à luta. Entre piadas criativas, outras previsíveis, muitas que se apoiam nos recursos visuais e outras tantas de teor escatológico ou apelativo, obviamente ninguém pode esperar um filme revolucionário. A história trata de alinhavar direitinho as peripécias dos protagonistas contando com uma edição ágil e sem encher linguiça. Praticamente do início ao fim é possível dar boas risadas.

O roteiro é assinado pelos estreantes no cinema John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein e Michael Markowitz, todos oriundos de seriados de TV, e provavelmente eles devem ter se inspirado em fatos de suas próprias vidas para criar esta produção escapista que não tem pretensões de fazer críticas audaciosas quanto às relações e ambientes de trabalho, embora não seja difícil que muitos expectadores reconheçam seu cotidiano na tela, sejam eles empregados ou patrões. O filme já começa bem com uma introdução que, apesar de rápida, apresenta claramente qual o conflito de cada um dos personagens e já começa a disparar piadas, o que ajuda o espectador a entrar no clima anárquico do enredo. Apesar do ar escrachado, boa parte do humor adotado aqui é coisa rara ultimamente, ainda que algumas tiradas já sejam manjadas. Por exemplo, quantas vezes o cinema já não adotou a tática da vítima estar na frente do seu possível assassino e este se embananar e deixar a chance passar? Provavelmente você já deverá ter esquecido a última vez que gargalhou com tanta vontade quando ver Harbus apunhalando repetidas vezes o chefe de um dos amigos com uma injeção de insulina sem saber que ele era um dos alvos a serem eliminados. Salvar essa vida é só uma das várias bolas fora do personagem. Ao longo de toda duração de Quero Matar Meu Chefe o espectador é convidado a participar de um turbilhão de sequências excêntricas, exageradas e frustradas que parece não ter fim. Uma das grandes proezas desta comédia é fazer pegadinhas. Quando achamos que as coisas estão para ser resolvidas, um fato novo embola tudo outra vez. Pelo menos, a história consegue prender atenção e não é desonesta. Anos atrás tivemos um sucesso cult chamado Como Enlouquecer Seu Chefe e seria fácil algum marqueteiro sugerir a ligação entre os dois filmes para atrair a atenção. Gordon já deixa avisado desde a premissa que seu objetivo é fazer humor puro, sem se preocupar com grupos que podem apontar sua obra como ofensiva ou desagradar quem busca uma comédia do tipo cabeça. Ainda que no conjunto a imagem de humor convencional prevaleça, esta produção guarda boas surpresas que merecem serem descobertas. Deixe o espírito extremamente crítico de lado e relaxe, afinal nas férias nada melhor que sonhar com a possibilidade de seu chefe não existir. Quem nunca viveu um momento como o dos protagonistas reclamando em uma mesa de bar após um dia duro de trabalho que atire a primeira pedra.

Comédia - 100 min - 2011 

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