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NOTA 9,0 Com sua ação praticamente toda encerrada dentro de um avião, suspense só declina em seu ápice repleto de clichês |
Mesmo com os jornais impressos e os
noticiários da TV apinhados de tantos desastres reais e também fictícios para o
cinema e novelas, os aviões ainda são o meio de transporte mais procurado para
viagens longas e o sonho de muitos continua ser fazer um passeio sobrevoando os
mares e continentes acima das nuvens. Os produtores e estúdios já investem no
filão dos acidentes aéreos há muitas décadas tendo sua primeira fase de sucesso
nos anos 70 quando se tornaram populares os filmes-catástrofes, aqueles que
arrasam cidades ou colocam pessoas em risco em ambientes ou situações das quais
aparentemente não há saída. Após o fatídico 11 de setembro de 2001 os aviões
voltaram a ser alvo da lente de cineastas amedrontando a tripulação com vilões
terroristas. Voo Noturno poderia ser apenas mais um produto
do tipo, mas ele surpreende positivamente, embora críticas contra não faltem. É
um clichê requentado? Uma proposta boa desperdiçada em uma produção cheia de
furos? Mesmo assim você fica roendo as unhas de tensão? Sim, sim e sim. Digamos
que esta é uma opção de filme B com pedigree. Tem seus momentos incrédulos, mas
funciona do início ao fim muito melhor que algumas superproduções. A história
começa oferecendo todo um clima digno de romance. Dois jovens que nunca se
viram se encontram em um aeroporto por acaso e uma série de coincidências
ocorrem culminando no fato de que eles farão a viagem juntos em um voo noturno,
conhecido entre os americanos como “Red Eye”, e sentados lado a lado. Aí eles
conversam mais, trocam confidências, se beijam e terminam o filme com um
pretenso final feliz. Errado! A introdução é bem rápida para dar espaço a uma
boa trama de suspense. Lisa Reisert (Rachel McAdams) gerencia um badalado hotel
de Miami e tem pavor de avião, mas cai na lábia de Jackson Rippner (Cillian
Murphy) que se mostra um jovem muito seguro e gentil. A aproximação não é a
toa. O rapaz na realidade arquitetou o encontro. Ele é um criminoso que planeja
a morte do Secretário de Defesa dos EUA, este que se hospedará no hotel de
Lisa. Sua trama é forçar a moça a mandar seus empregados trocarem o alvo de
quarto junto com a família de forma que ficasse mais fácil para que seu bando
os atacasse. Se ela não fizer isso é o pai dela (Brian Cox) quem morre pelas
mãos de outro assassino já a postos.
No conjunto, esta obra nem parece criação do diretor Wes Craven, o homem
que revolucionou o gênero terror nos anos 80 com A Hora do
Pesadelo e a década seguinte com Pânico. Depois ele
tentou diversificar sua filmografia com o drama Música do Coração e
foi surrado pela crítica por Amaldiçoados, uma produção
assumidamente trash levada a sério demais pelos espectadores e, portanto, não
causando o efeito esperado. Trabalhando com um thriller sem monstros ou
assassinos mascarados, o cineasta faz as pazes com seu público e com o cinema
apostando no medo psicológico. As vezes é melhor manter a dignidade com um
trabalho no melhor estilo feito para TV do que correr o risco de arruinar a
carreira tentando inovar. Com algumas poucas frases, a narrativa consegue a
proeza de mudar da água para o vinho sem solavancos. O que renderia uma manjada
comédia romântica acaba se transformando em uma convincente trama um tanto
claustrofóbica. Praticamente com um único cenário à disposição, o interior do
avião, Craven consegue criar um clima tenso e intrigante, principalmente por
utilizar enquadramentos bem fechados para captar as expressões dos atores, mas
os méritos também devem ser cedidos ao roteirista Carl Ellsworth, então um
estreante. Até o elenco de apoio, alguns passageiros, tem sua importância, como
uma simpática velhinha que empresta um livro à Lisa, uma das várias tentativas
da moça em alertar alguém sobre o perigo que corre. É preciso ressaltar que a
tensão e a violência contidas nas cenas dentro do avião restringe ao mínimo o
uso de sangue. Por exemplo, em uma sequência Lisa é repreendida pelo criminoso
com uma cabeçada e sangra um pouco na testa assustando seu algoz, já que um ato
como esse poderia chamar a atenção da tripulação. Pronto. Sem mais ketchup em
cena.

Suspense - 85 min - 2005
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