quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A LENDA DO PIANISTA DO MAR

NOTA 9,0

Em tom de fábula, drama conta
a história de um homem que viveu
recluso em um navio e fez da música sua
aliada e contato com o mundo exterior
Giuseppe Tornatore é um grande diretor italiano que escreveu seu nome na História do cinema com grandes obras, sendo a mais marcante e internacionalmente conhecida a vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro Cinema Paradiso. Sempre em busca de belas narrativas nas quais o enfoque são os conflitos e desejos dos seres humanos e tendo como pano de fundo ou alusão alguma manifestação artística ou fato histórico, é de se estranhar que os trabalhos do cineasta se tornem raridades no mercado com velocidade ímpar. O Homem das Estrelas, em que mais uma vez faz uma homenagem ao cinema, e Malena, obra na qual relembra a Itália linha dura e preconceituosa dos seus tempos de infância, são alguns exemplos que aguçam a curiosidade de colecionadores que seriam capazes de pagar pequenas fortunas para ter estes títulos em suas prateleiras. Para engrossar esta lista também podemos citar A Lenda do Pianista do Mar, filme que exalta a paixão de Tornatore também pela música, mas que infelizmente passou voando pelos cinemas e não teve grandes chances de encontrar seu público quando lançado em vídeo ou DVD.  Primeiro trabalho falado em inglês do diretor, certamente alguma estratégia de bastidores para atrair mais público ao filme, esta é a história de um garoto que nasceu em pleno alto-mar no primeiro dia do século 20 e foi abandonado de imediato. Ele foi encontrado por um dos engenheiros do navio, o bondoso Danny Boodmann (Bill Nunn), dentro de uma caixa com a inscrição “T.D”. O homem decide criar o bebê como se fosse seu filho, pois acredita que tais iniciais significam “Thanks Danny”, um agradecimento de uma mãe desesperada lhe confiando a criação de seu rebento. Chamado de Mil Novecentos por causa de sua histórica data de nascimento, o garoto cresceu em meio ao carvão e as caldeiras da embarcação, pois foi criado as escondidas não podendo frequentar as demais dependências. Mesmo assim foi criado com todo amor e carinho, mas quando completou oito anos de idade seu benfeitor acabou sofrendo um acidente de trabalho e faleceu.

Embora quem o conhecesse o adorasse, ao se ver de certa forma sozinho, Mil Novecentos decide que é hora de explorar novos horizontes e passa a bisbilhotar o navio que então descobre ser um transatlântico luxuoso, sendo o salão de festas o local que mais o fascina por conta da música, dança e alegria. Em uma dessas escapadas ele encontra um piano e descobre que possui uma habilidade natural para tocar o instrumento. Quando adulto, interpretado pelo ator Tim Roth, o pianista já está famoso mesmo sem nunca ter saído do navio e chama atenção de uma lenda do jazz, o pretensioso Jelly Roll Morton (Clarence Williams III), que embarca numa viagem simplesmente para desafiá-lo para um duelo. Todavia, não importa o quanto o desafiassem na parte musical o músico nato sempre conseguia surpreender chegando até mesmo a tocar suas melodias no meio de uma tempestade com o piano deslizando por todo o navio. Toda essa curiosa história de uma vida em alto-mar, de paixão pela arte e de valorização de ideais é narrada por um dos melhores amigos do pianista com que chegou a dividir o palco em festas no transatlântico. Max Tooney (Pruitt Taylor Vince) é um cantor de jazz falido que vai a uma loja de instrumentos e artefatos musicais se desfazer de seu velho trompete, mas acaba relembrando seu passado com Mil Novecentos buscando um disco que seu amigo supostamente teria gravado dentro da embarcação. Este seria não só um registro histórico musical, mas também a prova da existência de um homem que além do talento incontestável com o piano também se tornaria uma lenda por sua curiosa história de vida já que nunca colocou os pés em terra firma. Quando incentivado por seu amigo a experimentar a vida longe das âncoras e lemes, o músico recua simplesmente afirmando que não teve medo do que viu ao descer a rampa do navio, mas sim receio do que seus olhos não podiam ver naquele momento. Isso revela o seu contentamento com seu restrito universo. Se quando criança o pianista tinha necessidade de conhecer novos ares para preencher vazios, ainda que em um espaço físico limitado, já adulto a música o completava totalmente e de tal forma que não via sentido em explorar o desconhecido. Seu velho barco era seu porto seguro e fonte de inspiração. Experimentar o novo sem dúvidas seria seu maior conflito interno.

Ainda que a grande mensagem do filme seja sublinhar que o sentido da vida, a relação de um indivíduo com um determinado local ou pessoas ou ainda a maneira de se observar o mundo sejam percepções que variam de acordo com o ponto de vista e conhecimento intelectual e emocional de cada um, Tornatore alivia o peso das dúvidas existenciais investindo no tom de fábula, simbolismos e parábolas. Acostumado a lidar com personagens fictícios que geralmente são ricos em sonhos, ao adaptar o monólogo dramático “Novecento” de Alessandro Barico, o cineasta opta por literalmente embarcar em um conto fantasioso, mas ainda assim imprimindo seu estilo de direção em cada fotograma. Todavia, falar que um trabalho deste italiano é esplendido acaba sendo redundante. Visual e tecnicamente suas obras nunca decepcionam. Fotografia, iluminação, figurinos e principalmente a direção de arte que aqui ganha importância maior devido a limitação de cenários, tudo é minuciosamente inserido para ajudar a narrativa. O clima quase sempre nublado poderia ser observado como uma metáfora ao estado de espírito do protagonista, pacato e sereno, mas quando entra em cena a música é como se a obra ganhasse cores e injeção de ânimo. As canções repletas de lirismo e poesia compostas pelo mestre Ennio Morricone são maravilhosas e servem como um complemento essencial ao conjunto. Não é a toa que venceu o Globo de Ouro na categoria de trilha sonora, mas não deixa de ser triste pensar que essa linda obra ficou de fora de importantes premiações, inclusive o Oscar. Injustiça principalmente com Tim Roth, aquele tipo de ator que você sabe que já o viu em diversos filmes, quase sempre em papéis pequenos, mas que agarrou com unhas e dentes a possibilidade de viver um protagonista. Dono de um extenso e variado currículo, foi preciso um diretor com olhar estrangeiro perceber o potencial deste intérprete. Sem dúvidas ele colecionou cenas inesquecíveis com este trabalho, assim como o restante do elenco. Quase como uma homenagem ao cinema à moda antiga, A Lenda do Pianista do Mar transpira arte, poesia e humanidade, mas infelizmente nunca teve o respeito que merecia por parte do mercado cinematográfico cada vez mais refém de firulas tecnológicas que quase sempre só escamoteiam a falta de conteúdo. Quantos cineastas de fama precisariam de um intensivão com a filmografia de Tornatore...

Drama - 125 min - 1998

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