Com tom nostálgico e abordando bullying, obra com vampiros é apenas entretenimento rasteiro
Vampiros indiscutivelmente são criaturas com uma rica e fascinante mitologia. Por regra, eles são perversos e por vezes usam do poder de sedução para atrair suas vítimas e o cinema já tirou muito proveito desse mórbido e luxurioso universo e até já nos apresentou os dentuços em versões românticas e até mesmo hilariantes, todavia, sempre haverá espaço para suas versões clássicas. Em Sombras do Terror o diretor Frank Sabatella mantém características lendárias desses monstros, mas inseridas em um contexto atualizado. Quem se deixa levar pelo título genérico perde a oportunidade de ver um filme que, embora não seja inovador, é divertido e carrega um charme todo especial. Mesclando curiosidade e pavor, o protagonista Stan (Jay Jay Warren) parece pinçado de filmes semelhantes datados da década de 1980, aqueles protagonizados por jovens envolvidos em problemas com criaturas sinistras, quase sempre uma metáfora a fase de transformação quando passamos a assumir responsabilidades e a lidar com independência.
A trama começa nos apresentando a um homem chamado Joe Bane (Frank Whaley) que se embrenha floresta à dentro para caçar os animais que estão matando seus coelhos de criação, mas jamais imaginaria o que iria encontrar. Ele próprio então vira a caça de um vampiro e acaba sendo transformado em uma dessas terríveis criaturas. Para fugir da luz do sol, que agora se torna uma sentença de morte, Bane invade um galpão no terreno de seus vizinhos, onde vive o jovem Stan que mora com seu tóxico avô Ellis (Timothy Bottoms). De imediato eles não percebem a presença do intruso, até que o cachorro da família entra no galpão e acaba morto. Quando realmente descobre a ameaça que está em seu quintal, o rapaz faz de tudo para mantê-lo preso, mas as coisas saem do controle quando conta a novidade para Dommer (Cody Kostro), seu melhor amigo que já não suporta mais ser vítima de perseguições e bullying de valentões da escola. Contra a vontade de Stan, o estudante então bola um plano que passa longe de ser uma simples vingança.
Se tivesse sido melhor explorado pelo roteiro, escrito pelo próprio Sabatella, o gancho da vítima de bullying chegando a atos extremos para se defender poderia ter tirado o filme do lugar comum e o transformado em um registro de uma época em que as aparentes brincadeiras entre adolescentes ganham sérios contornos de problemas sociais e até mesmo de saúde. O cineasta baseou-se levemente em um em um conto do escritor Jason Rice pegando o argumento de um vampiro preso em um galpão e usado como arma defensiva, uma alegoria sobre até que ponto uma pessoa pode chegar quando saturada de tantas humilhações e provocações, mas fica evidente que sua principal fonte de inspiração é o próprio cinema. Impossível não assistir lembrando, por exemplo, do clássico A Hora do Espanto, guardadas as devidas proporções. Além da presença de um interesse romântico para o mocinho, Roxy (Sofia Happonen), diga-se de uma passagem uma personagem desnecessária, em ambos os filmes os protagonistas tem o melhor amigo encontrando o mesmo destino cruel.
Outro ponto semelhante é que se no clássico de 1985 o protagonista pede ajuda a um apresentador de uma sessão televisiva de filmes de terror, gênero do qual é aficionado e que também recorre a dicas de como afastar seu vizinho vampiro, nesta obra Stan colhe informações sobre como se livrar da criatura das trevas assistindo ao longa Sombras do Terror de 1963 (filme homônimo, mas com trama diferente), dirigido por Roger Corman e estrelado por Jack Nicholson e Boris Karloff. Na verdade a coincidência de títulos trata-se de uma estratégia (ou quem sabe deslize) da distribuidora brasileira. Se fosse escolhida a tradução legítima do título em inglês a produção seria batizada de "O Galpão", algo muito mais eficiente e instigante, embora o próprio elemento cênico seja desperdiçado pela narrativa. Se os vampiros são tão astutos e fortes no escuro, principalmente ao cair da noite, não há explicações para a passividade da criatura trancafiada num simples barracão de madeira com porta protegida apenas por uma corrente com cadeado, isso sem falar nas inúmeras armas que teria a disposição para ajudar na fuga, já que se trata de um local apenas para guardar ferramentas e coisas do tipo.
Sombras do Terror está longe de ser uma obra memorável sobre vampiros, mas consegue entreter razoavelmente se deixarmos passar alguns detalhes e clichês. Talvez o ponto principal a ser destacado seja a intenção de resgatar um pouco da aura sinistra destas criaturas para apresentar ao público jovem que se acostumou em ver essas figuras com ares romantizados e arcos dramáticos baseados em crises existências e de sobrevivência na sociedade moderna. Todavia, Sabatella prefere apresentar os vilões (já que ao longo do filme alguns personagens obviamente acabam transformados) em momentos estratégicos, optando por uma narrativa que privilegia a construção de perfis de forma a nos importarmos com seus destinos. Ainda assim, não encontramos razões para as repetitivas vezes em que Stan acorda assustado após ter pesadelos que nada agregam a trama, nem mesmo quando em sonhos vem a lembrança de seus pais. Se a intenção era simplesmente espichar o roteiro tais momentos deveriam ter sido substituídos por cenas como o vampiro tentando escapar e do protagonista em vigília para impedir, o que elevaria o patamar da produção consideravelmente.



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