Apesar do bom argumento e da mitologia interessante, longa se perde em múltiplas interpretações
Fantasmas, vampiros, lobisomens, bruxas e múmias. Todos eles são figuras alegóricas que comumente assustam crianças e até mesmo adultos, mas há uma que ameaça em especial as pessoas de cultura latina. O filme O Homem do Saco joga luz sobre esse personagem folclórico que tem seu próprio repertório de ameaças e ações. Algumas vezes também chamado de Velho do Saco, podemos o considerar como uma variação do mito do bicho-papão, simplesmente a personificação do sentimento de medo, e até mesmo do demônio Krampus, um monstro que surge na época do natal para sequestrar crianças que se comportam mal. Por séculos e em diferentes culturas, os pais alertaram seus filhos sobre um homem misterioso que sequestra crianças e as enfia em sua bolsa para nunca mais serem vistas. Embora nunca tenha alcançado o mesmo status ameaçador de outras criaturas sobrenaturais, tal entidade teria o poder extra de amedrontar por suas origens serem ligadas ao caso real do sequestro do garoto Bernardo Gonzalez Parra, na Espanha no início do século 20. Contudo, tal situação ao longo do tempo foi ganhando inúmeras variações em diversas regiões, sendo a mais conhecida a lenda de um homem idoso e maltrapilho que carrega nas costas um saco onde aprisiona crianças para depois se alimentar.
A trama acompanha Patrick McKee (Sam Claflin) retornando para sua cidade natal, em Nova Jersey, com sua esposa Karina (Antonia Thomas) e o filho pequeno Jake (Caréll Vincent Rhoden), a fim de superar dificuldades financeiras. Ele reencontra o irmão Liam (Steven Cree), conversam sobre o passado e resgatam um episódio da infância que os marcou, quando o pai deles os fez acreditar na existência do Homem do Saco residente numa velha mina abandonada. Em flashback acompanhamos o jovem Patrick sendo desafiado pelo irmão a se aproximar da entrada do local. É quando ele sente algo cortando uma mecha de seu cabelo e escuta um som parecido com a abertura de um zíper. O rapaz jamais se livrou dessa estranha memória e agora que voltou a seu local de origem está sendo assombrado por pesadelos frequentes e sentindo a presença de algo ameaçador rondando sua casa. Quando coisas deixadas para trás reaparecem, como seu boné de infância e esculturas em madeira que fazia como hobby, ele passa a acreditar que a entidade que quase o capturou no passado nunca o esqueceu e agora quer vir buscar Jake como cumprimento de um ritual.
O roteiro de John Hulme busca amedrontar o espectador utilizando praticamente todos os clichês que o gênero já explorou. Sons estranhos, vultos na escuridão, luzes piscando, sinais de perigo em coisas inesperadas como uma árvore, além de aparições de uma figura estranha a uma criança inocente que facilmente se deixa envolver. Todavia, o diretor Colm McCarthy se preocupa mais em construir uma atmosfera inquietante do que apresentar de fato uma ameaça real, como na sequência em que Jake é atraído para dentro de um matagal, mas não conta a ninguém o motivo que o levou até lá. O garoto sabe muito bem o que viu, uma aparição quase lúdica, mas os pais ficam sem saber de fato o que aconteceu, apenas acreditam que há algo ruim os cercando dentro e fora de casa. Assim como seu pai, Patrick tenta ao máximo proteger seu primogênito do perigo eminente, mas para ele mesmo ainda é difícil lidar com seus demônios internos, mesmo quando compartilha seus traumas de infância para sua esposa que demonstra empatia para ajudar o rapaz, mas apenas acredita de fato na ameaça quando percebe um estranho cercando seu filho num parquinho.
Como é de se esperar, O Homem do Saco reserva seu último ato para finalmente apresentar sem rodeios a estranha figura que assombra Patrick há anos. A revelação é feita na mina abandonada onde todo o pesadelo começou, uma espécie de ambiente de claustrofobia não apenas física, mas também de lembranças. Todavia, para chegar ao clímax, McCarthy tenta abordar o mitologia em torno da tal entidade de todas as formas possíveis, mas sem conseguir se aprofundar em nenhuma delas e prejudicando o envolvimento do espectador que acompanha o filme com picos de tensão dispersos em um enredo cuja base soa mais como uma historinha usada pelos pais como apoio à criação (ou manipulação) dos filhos os amedrontando para evitar traquinagens. Contudo, o conto em alguns momentos ganha algumas conotações de cunho espiritual, com uma entidade que vaga pela Terra há décadas pegando criancinhas para saciar a fome, e em outros parece se tratar de um ser humano que encarna a figura alegórica para realizar sequestros por pura maldade ou por transtornos psicológicos. O que o personagem-título é de fato o filme deixa o espectador livre para tirar suas próprias conclusões.
Não existe jeito certo ou errado de tratar um assunto num filme. Tudo depende do objetivo da produção e da percepção que cada espectador terá. O problema é quando os próprios realizadores não se decidem por abordar de forma realista ou fantasiosa um argumento de múltiplas interpretações e com um histórico razoavelmente sólido. O longa em questão ainda é enfraquecido por se ater a um pequeno grupo de personagens, o que reduz o impacto da mitologia em torno do Homem do Saco que parece mais motivado por vingança ou orgulho ferido do que simplesmente pela maldade inerente a sua personalidade. Por que apenas Jake é o alvo principal? Se seu modus operandi é sequestrar para poder se alimentar, onde se esconde seu instinto predador para ir atrás de outras crianças? Ao focar em apenas uma família a ser vitimada, o filme acaba se tornando repetitivo e marcado por um ritmo lento. Ao subirem os créditos finais, podemos até ficar com a sensação de ter assistido a um filme mediano, mas em poucos minutos a memória se esvai e nem mesmo o tenebroso som do zíper do saco abrindo permanecerá em nossa mente.
Suspense - 92 min - 2024
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