sexta-feira, 8 de maio de 2026

KING KONG (2005)



Refilmagem não decepciona ao ousar resgatar para as novas gerações um ícone do cinema


Nos anos de 1930, ele surgiu em versão stop-motion e em preto e branco em um filme que é considerado o pai do estilo arrasa-quarteirão de fazer cinema. Já na década de 1970, ganhou uma superprodução, desta vez em cores, o que realçou seu impacto em tela grande, mas não o livrou de ser surrado pela crítica. Além destes longas, ele surgiu em outras produções trashs que levavam seu nome, todas totalmente esquecíveis, e até já passou por um combate com o famoso monstro oriental Godzilla em mais uma das pérolas que tentaram obter fama às suas custas. Tantas aparições certamente desgastaram sua imagem, mas o diretor Peter Jackson acreditava que ele ainda poderia ser aceito no século 21.  Um gorila gigantesco com alma bondosa e considerável dose de inteligência é o chamariz de King Kong, um filme declaradamente feito para entretenimento, o que gerou muitas discussões. A reinvenção da história do primata de tamanho descomunal foi aguardada com muita expectativa, fez bastante dinheiro, colheu prêmios por sua parte técnica, mas não escapou de críticas negativas, principalmente dos especialistas na área que procuraram as mínimas falhas para aloprar. O que eles esperavam? Um drama existencialista e cheio de mensagens subliminares em uma obra cujo protagonista é um grande animal selvagem? 

Jackson entregou uma produção ágil, divertida, cheia de efeitos especiais e jogou o espectador em um mundo repleto de situações fantásticas. A história, roteirizada pelo próprio diretor em parceria com Fran Walsh e Philippa Boyens, é basicamente a mesma do original. Passado na década de 1930, época em que os EUA viviam a Grande Depressão, período em que milhares de pessoas tentavam sobreviver como podiam em meio a uma violenta crise financeira, o longa começa nos apresentando a Ann Darrow (Naomi Watts), uma atriz que procura emprego em um cabaré. Por um acaso do destino, eis que ela conhece Carl Denham (Jack Black), um cineasta com uma excelente proposta de trabalho. Quando ela embarca em um navio rumo a uma misteriosa ilha onde serão feitas as filmagens, ela se encontra com o conceituado roteirista Jack Driscoll (Adrien Brody) e ambos se apaixonam imediatamente, mas viver esse amor durante a viagem será algo impossível. Mal sabem eles os perigos que a tal ilha esconde. Lá eles são atacados por um grupo de nativos que precisam sacrificar um humano para afastar uma criatura do mal. Não é preciso ser adivinho para saber que a tal ameaça é King Kong e os perigos que estão por vir. Será mesmo? As sequências de ação e adrenalina são incríveis e é o que mantém o interesse no filme, já que a espinha dorsal do enredo é a mesma da primeira aparição do gorilão. 


Com um gordo orçamento, Jackson usou e abusou da criatividade para gerar imagens impressionantes e os efeitos especiais foram usados aos montes. Porém, é perceptível seus cuidados para que o filme não fosse um amontoado de bichos e criaturas estranhas ameaçando a vida de humanos. Houve traquejo para aliar inovações, respeitar o original, mantendo diversas passagens marcantes, e ainda trazer referências de outros títulos de sucesso que foram blockbusters no passado como as aventuras de Indiana Jones e os dinossauros de Steven Spielberg, este que sem dúvida é uma grande fonte de inspiração do diretor neozelandês. Assim, o remake é uma bela homenagem para aqueles que abriram caminho para as produções de cunho escapista. Comédia, drama, ação e suspense se misturam ao longo das três horas de duração de forma excepcional e sem perder o foco nas histórias dos humanos. Muitos reclamam do ritmo arrastado inicial e da demora para a grande estrela aparecer, mas tal introdução é fundamental para justificar o restante da trama e é justamente neste ponto que a maioria dos projetos de ação e aventura desandam. A primeira hora é todinha dedicada a apresentação dos personagens, assim criando uma empatia com o espectador que mais a frente vai sofrer com as mortes de alguns e a vibrar com a mocinha conseguindo se entender com o macacão, figura criada digitalmente em cima dos movimentos corporais e faciais do ator Andy Serkis, um especialistas nesse tipo de trabalho. 

Uma das cenas mais famosas desta obra, seja ela em qualquer uma das três versões oficiais, é a parte em que Kong está no alto de um edifício segurando a frágil Ann em sua enorme mão enquanto é alvejado por tiros disparados de aviões, uma parte emocionante e eletrizante. Todavia, vale ressaltar neste remake como a parte mais impactante a longa sequência em que a protagonista é perseguida por tiranossauros e é salva por seu novo amigo. Impossível não sentir a adrenalina criada pelos eficientes movimentos de câmera potencializados pelos efeitos sonoros de primeira. Quando resta apenas um dinossauro e ele se confronta com o gorilão, chegamos a um momento-chave: o grande símio é superior ao gigantesco réptil e mostra sua força. Um verdadeiro duelo de gigantes. Sem essa marcante sequência talvez o resultado final não fosse tão excepcional. Em um filme de fantasia tudo é possível e Jackson deixou a imaginação rolar solta, mas quem pensa que a inclusão dos répteis pré-históricos foi uma liberdade artística do diretor está enganado. O longa original já garantia o encontro deles com Kong. Infelizmente, é uma tendência dos críticos avaliarem as obras levando em consideração o currículo de seus realizadores, se esquecendo de que cada trabalho é diferente do outro e que eles são lançados em épocas distintas, o que certamente influencia em suas apreciações. Não adianta comparar o Jackson de 2005 com o de uma década antes que indicava um promissor diretor de dramas fortes e contundentes.


Como qualquer filme que seja cultuado, uma refilmagem é motivo para deixar muita gente com o pé atrás, mas a crítica pegou pesado na análise desta surreal reinvenção do clássico. É claro que a obra original é repleta de significados e ideias relevantes inseridas no contexto para entreter o público daquela época que sofria com pressões políticas e mal tinham dinheiro para comer. Hoje os tempos são outros e realmente são inexplicáveis certas acusações e a falta de elogios ao menos para alguns aspectos do longa. Até os espetaculares efeitos especiais entram na ciranda de esculachos. Fora isso, também é incompreensível que alguns reclamem do início que gasta boa parte do tempo esmiuçando as motivações, sentimentos e caráter dos personagens e, pior ainda, imaginar que há quem encontre vestígios de teor sexual nas cenas em que Ann se aproxima de Kong, principalmente quando ela decide defendê-lo com todas as suas forças (das cordas vocais principalmente) na cidade grande. Longe de parecer simplesmente uma criatura bestial, o gorilão é apresentado como um ser solitário, provavelmente o último de sua espécie, assim sua personalidade combina com a da aspirante a atriz, esta que se sente sozinha mesmo estando cercada de semelhantes, mas nenhum disposto a lhe estender a mão. Enquanto ele é um gigante na floresta tropical, ela é uma formiguinha na floresta de concreto que começava a se formar em Nova York. A empatia que nasce entre os dois rapidamente é transferida ao espectador e o que mais cativa em King Kong, superprodução que proporciona pura diversão do início ao fim e ainda nos oferece um clima nostálgico irresistível. 

Vencedor dos Oscars de efeitos visuais, som e edição de som

Aventura - 187 min - 2005 

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