terça-feira, 3 de setembro de 2013

VALE PROIBIDO

NOTA 6,5

Confusão de gêneros incomoda
um pouco, mas ideia principal é
envolvente e Edward Norton cativa
com personagem esquisitão
Qual o limite da loucura da mente humana? Bem, talvez nem mesmo a ciência tenha essa resposta, sendo o mais provável que a insanidade é infinita. Longe dos estudos gigantescos e cheios de palavras complicadas, o cinema sempre tenta dar uma mãozinha para esclarecer tal assunto e são inúmeras as produções que procuram desvendar os mistérios que cercam as mentes de pessoas com desvios de caráter, mas já diz o ditado que cada cabeça é uma sentença, logo cada personagem é um tipo específico a ser analisado.  Vale Proibido centra suas atenções no misterioso Harlan (Edward Norton) e seu repentino interesse por uma família. O longa escrito e dirigido por David Jacobson começa nos apresentando à Tobe Sommers (Evan Rachel Wood), uma adolescente rebelde e que gosta de se divertir às custas dos outros, porém, talvez nunca tenha imaginado que uma de suas traquinagens mudaria sua vida e de seus familiares para sempre. Certo dia ela combina com uns amigos de ir à praia, mas antes param em um posto de gasolina onde são atendidos por Harlan, figura que chama a atenção por seu visual de caubói em uma região onde as fazendas já começavam a ser raridades. Pelo perfil diferente, preferindo montar a cavalo a usar um carro, Tobe acredita que escolheu a vítima perfeita para uma brincadeira, começa a paquerá-lo e o convida para ir a praia, local onde ele nunca esteve, mas não hesita em aceitar o convite mesmo perdendo o emprego por abandono. Enquanto os amigos se divertem por levar um caipirão para passear, a adolescente parece olhá-lo de outra forma, ele teria a ingenuidade e a doçura que faltava a ela, e rapidamente eles começam a namorar. A relação vai se encaminhando bem, inclusive porque o irmão mais novo da jovem, Lonnie (Rory Culkin), logo faz amizade com o cunhado, este que usa seu estilo ingênuo, fala mansa e artimanhas para conquistá-lo. Harlan seria o amigo que o garoto sempre quis ter, ou melhor, o pai que desejava. Todavia, Wade (David Morse), o pai dos adolescentes, não cai na lábia do rapaz desde a primeira vez que o viu. Profissional da área policial, a certa altura ele afirma para o próprio caubói que ele lida diariamente com pessoas como ele, tipos que são um zero a esquerda e que fariam de tudo para conseguirem ser algo na vida ou suprirem suas necessidades. Viúvo, mas praticamente ausente na criação dos filhos, Wade consegue deixar a rebeldia da filha ainda mais latente proibindo o namoro, mas não esperava que até Lonnie estaria contra ele nessa parada.

Com cenas otimistas e alto astral, como o nascimento do amor entre Harlan e Tobe durante um mergulho no mar ou quando o rapaz pára o trânsito insistindo para as pessoas saírem de seus carros e caminharem pelas ruas para respirar ar de verdade, os primeiros minutos do filme nos passam a ideia de que uma açucarada história de amor irá se desenvolver, o bom  e velho clichê do casal que tem seu amor ameaçado, mas as implicâncias de Wade tem fundamento e conforme elas vão se confirmando a narrativa toma um outro rumo. O doce romance dá lugar a uma paixão agridoce. Além de algumas vezes nos questionarmos se Tobe realmente está apaixonada ou é apenas mais uma forma que encontrou para afrontar o pai, Harlan vai dando sinais de perturbação ou desvio de caráter, como brincar de bandido e mocinho sozinho no quarto de pensão em que vive e arrumar uma confusão por conta de um cavalo que pegou emprestado quando na realidade ele forjou tal desculpa para tentar roubá-lo. São pequenos detalhes que não escapam aos olhos atentos de Wade, mas ficam invisíveis aos olhares deslumbrados de Tobe e Lonnie, aliás, o rapaz consegue até persuadir o garoto a acreditar nas intrigas que inventa sobre seu pai fazendo sua cabeça para fugirem juntos e depois buscarem sua irmã. Fica evidente que os problemas de Harlan são psicológicos e emocionais, mas assim como os irmãos Sommers dificilmente o enxergamos como um vilão, muito graças ao talento e cara de bom moço de Norton, embora já estivesse um pouco passado para viver um homem na casa dos vinte e poucos anos. Detalhes à parte, mesmo quando a trama se encaminha para uma conclusão em clima de suspense, não conseguimos ver o personagem como alguém ruim. Simplesmente ele é um sujeito desajustado, abandonado a própria sorte desde muito cedo e que chegou a um ponto que não distingue mais o que é real ou fantasia. Ele até escreve cartas destinadas a um personagem que jamais aparece falando a respeito da vida feliz que está levando. A partir do momento em que conquistou a confiança e a amizade da namorada e de seu irmão é como se eles fossem propriedades dele e finalmente ele teria uma família. A justificativa psicológica é válida, mas como explicar sua capacidade em bolar mentiras tão convincentes? Pode parecer difícil compreender que uma mente perturbada possa fazer coisas assim, mas na realidade situações do tipo são muito comuns. Só não espere análises aprofundadas sobre o caso nesse filme.

O argumento do longa realmente é bem interessante, o desenvolvimento do conflito também totalmente crível, mas a certos detalhes que não deixam de incomodar na fita. A primeira coisa é a indefinição de gênero. Começa como um romance, depois o drama toma as rédeas da narrativa, a problemática então ganha rumos de suspense e por fim desembocamos em uma conclusão com um quê de faroeste acrescida de uma brincadeira de metalinguagem com os personagens invadindo as filmagens de um filme de época. A ambientação também pode causar estranheza. Estamos tão acostumados a ligar os EUA a imagens de lugares que são verdadeiras selvas de concreto que é difícil acreditar que ainda existam área campestres, mesmo que isoladamente. O clima bucólico ajuda a envolver o espectador que inicialmente poderia se sentir vendo um filme dos anos 50 ou 60. Até os carros e o posto de gasolina que aparece no início denunciam que a cidade onde a trama se passa simplesmente parou no tempo. Qual lugar é esse? Los Angeles. Sim, mais precisamente o Vale de San Fernando, área em que se concentram a maior parte dos bairros periféricos da chamada cidade proibida, o que justifica o trocadilho do título. Mesmo com a paisagem atípica ou os passeios por diversos gêneros, o que faz Vale Proibido ser um projeto relevante é a proposta e a construção dos personagens, itens que se relacionam intimamente. Harlan aparentemente a anos sofre com problemas mentais relativamente leves, de nascença ou devido a traumas do passado, não importa. Sem tratamento adequado e prejudicado pela obsessão, seu quadro foi se agravando até chegar ao limite. Tobe e Lonnie sentem ressentimento por conta do pai não ser aberto ao diálogo e cada um responde de uma maneira diferente ao tratamento ora relapso ora possessivo dele. A garota tenta peitar as ordens do pai para ser notada, uma rebeldia que no fundo o agrada, mas o menino prefere causar o mínimo de transtorno para não ser um estorvo, comportamento introspectivo que muda completamente quando ele passa a conviver com o cunhado que lhe mostra timidamente o mundo que existe fora de sua casa e por tabela vem a preencher a lacuna de atenção e carinho que Wade deveria ter com ele. Por sua vez, o policial só sabe usar a força e acredita que berrando, batendo ou quebrando coisas está educando os filhos, mas não sabe explicar civilizadamente o porquê de não gostar de Harlan até que o rapaz dê uma escorregadela que ele possa apontar como um desvio de caráter explícito, como na citada confusão do cavalo que só a sua cara fechada já dizia tudo o que ele estava sentindo e pensando. Todos os personagens no fundo têm seus defeitos, mas no balanço geral é Wade quem sai ganhando por ter sido a voz da razão e seus filhos, como qualquer adolescente típico, teimam em não aceitar os conselhos. Por outro lado, errar faz parte do crescimento do ser humano e as frustrações na juventude podem ajudar a formar adultos melhores. São questões pertinentes e polêmicas que o longa levanta. Pena que o visual a la John Wayne de Norton na publicidade, embora justificado, acabe vendendo gato por lebre e muitos desistam de acompanhar este trabalho ao perceberem que o romance vai aos poucos se esvaindo e a alusão ao gênero faroeste seja uma mera ilusão.

Drama - 112 min - 2005 - Dê sua opinião abaixo.

Um comentário:

renatocinema disse...

Tenho pena de ver Edward Norton, alguém que começou tão espetacular, em produções nota 6......UM PECADO DE TALENTO DESPERDIÇADO.

ABS

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