sábado, 23 de maio de 2026

ÁGUA NEGRA (2005)



Enredo de suspense ganha toques de drama familiar e psicológico graças a sensibilidade do diretor


No início da década de 2000 pode-se dizer que Hollywood complementou seu orçamento graças as refilmagens de produções de terror e suspense orientais, algumas comandadas inclusive pelos mesmos diretores de suas versões originais para não correr risco de decepcionar o público. Alguns foram muito bem aceitos, porém, outros verdadeiros fiascos devido a inevitável repetição de clichês. Quando surge alguém disposto a colocar as mãos nesse material e dar algum ar de novidade o povo cai em cima com críticas negativas e infelizmente nem os entendidos na arte do cinema procuram exaltar a iniciativa. Foi isso que atrapalhou a carreira de Água Negra, refilmagem de um terror psicológico que explora a relação muito próxima de uma mãe e sua filha pequena diante da necessidade de darem um novo rumo as suas vidas. A produção original assinada por Hideo Nakata mantinha uma atmosfera assustadora desde a introdução até sua trágica conclusão e o clima de tensão era acentuado devido ao uso de movimentos lentos de câmera. Ainda criando a sensação de medo com uma narrativa mais lenta e planos-sequências que privilegiam o detalhamento dos cenários e a captura de expressões dos atores, o diretor brasileiro Walter Salles aceitou o convite para comandar esta refilmagem, mas fez questão de imprimir seu estilo explorando o lado dramático do enredo. 

Dahlia (Jennifer Connely) procura reiniciar sua vida se mudando para uma nova cidade em companhia da filha, a pequena Ceci (Ariel Gade), mas o processo de separação se transforma em uma complicada batalha pela custódia da criança já que Kyle (Dougray Scott) exige seus direitos paternos e não gosta nada da ideia delas morarem afastadas. Para piorar a situação, o apartamento alugado pela moça passa longe de ser a morada dos sonhos. O prédio é uma construção antiga projetada para abrigar muitas famílias, mas o que incomoda mesmo são os barulhos misteriosos, vazamentos constantes de uma água escura e alguns outros fatos estranhos que ocorrem com certa frequência. Todos esses fatores dão margem à imaginação de Dahlia que passa a acreditar que está sendo vítima de um perturbador jogo mental. Para completar o calvário, a garotinha passa a se relacionar com um amigo imaginário e a ter seu comportamento levemente alterado. Com essa premissa bem interessante Salles reproduz algumas situações do original, mas sempre que pode tenta explorar o drama familiar mostrando as brigas do ex-casal e desfilando sua câmera pelo velho condomínio em que mãe e filha se instalam, evidenciando a situação econômica difícil delas. 


Todo o enredo casa muito bem com a atmosfera dada a produção. Poucas vezes o cinema passou com tanta veracidade o clima frio, melancólico e instável tanto da ambientação da história, uma cidade de tons cinzentos e com chuva constante, quanto dos personagens, imersos numa espiral de problemas que resvala em suas saúdes psicológicas e emocionais. Salles é habilidoso ao mesclar tensão e drama utilizando artifícios do mundo sobrenatural com outros que evidenciam problemas ligados a paranoia. Ainda bem que ele economiza nos clichês do gênero e no máximo o que vemos de convencional são rápidas passagens em que a imagem de um espírito infantil pode causar alguns sustos rápidos. Fora isso, somente a água negra que jorra das torneiras e pinga no teto do apartamento pode ser considerada uma manifestação do outro mundo. A regra aqui é ser o mais natural possível dentro do contexto. É perceptível que até pouco mais da metade o filme segue o estilo do cineasta, mas o final certamente foi uma imposição do estúdio que não queria desapontar os fãs desse tipo de produção. Pela linha narrativa do diretor a conclusão seria outra e bem mais aceitável. 

Após entrar no mapa cinematográfico mundial com a enxurrada de prêmios e indicações de Central do Brasil e assinar a direção de Diários de Motocicleta já explorando terreno internacional, esta era a chance de Salles ter um verdadeiro blockbuster em mãos, mas não se deixou corromper ou pelo menos tentou contar a história do seu jeito até certo ponto, já que diversas mudanças foram impostas pelo estúdio que bancou o projeto. Todavia, o argumento de pessoas assombradas por algo desconhecido em um apartamento um tanto sombrio e decadente ganhou um enfoque bem mais interessante com um olhar mais apurado atrás das câmeras e pelas mãos do roteirista Rafael Yglesias que adaptou o texto original, que por sua vez é inspirado em um conto de terror de Koji Suzuki. Aqui o problema deixa de ser exclusivamente de cunho espiritual e passa a ter feições de alterações psicológicas, visto que a protagonista, além de enfrentar um clima de tensão constante dentro de sua própria casa, também precisa exorcizar fantasmas de seu triste passado.


Mesmo cercado de cuidados para oferecer um filme de horror que fugisse da mesmice, infelizmente Água Negra recebeu uma saraivada de críticas negativas, diga-se de passagem, um tanto injustas. O problema foi vender um produto voltado para o drama com toda a publicidade enfocando o lado de suspense sobrenatural e exaltando a grife oriental do título, coisa que na época ainda atraia muitos espectadores. Dessa forma, os fãs de O Chamado, O Grito e afins tiveram uma grande decepção. Com olhos mais atentos, dificilmente podemos considerar este trabalho desprovido de atrativos ou propósitos bem definidos. O diretor brazuca sem dúvidas realizou uma obra que deu uma cara nova a esse tipo de filme e conseguiu se destacar em um cenário estagnado investindo nas reações que o medo provoca sem se preocupar em materializá-lo. Quando ele ganha corpo físico o caldo entorna, mas nada que reduza o longa a pó. Uma pena que outros cineastas que se aventuraram pelos remakes orientais continuaram apostando em fantasmas que puxam os pés dos vivos. Levaram o filão literalmente para a tumba e de forma bastante ligeira.

Suspense - 105 min - 2005

Leia também a crítica de:

O GRITO (2004)

Um comentário:

Rafael W. disse...

Concordo, o interessante do filme é seu aspecto dramático, que trouxe um valor maior para a obra. Mas que ficou um pouco maçante, isso ficou.

http://cinelupinha.blogspot.com/