terça-feira, 24 de julho de 2012

POLARÓIDES URBANAS

NOTA 3,5

Longa tenta fazer um bem
humorado painel social
do caos cotidiano, mas erra
pela falta de unidade
Todos sabem que é bastante comum no cinema nacional beber em fontes teatrais para ter inspiração e a partir do momento em que alguns de nossos filmes comerciais passaram a ter êxito nas bilheterias a relação entre estes produtos culturais foi intensificada, porém, nem sempre o casamento gerou bons frutos como é o caso de Polaróides Urbanas que marca a estréia do mil e uma utilidades Miguel Falabella como diretor de cinema. Baseado na peça teatral "Como Encher um Biquíni Selvagem" (sabe-se lá o porquê desse título e do sucesso), o longa é uma tragicomédia que tem uma introdução interessante, mas aos poucos o roteiro vai entrelaçando as histórias de diversos personagens e o humor acaba sendo diluído em meio a cenas dramáticas, outras confusas e algumas que tentam fazer o telespectador ao menos dar um sorrisinho amarelo. O roteiro, adaptado para as telonas por Falabella de seu próprio espetáculo, é na realidade uma série de segmentos que procuram interligar as vidas de pessoas comuns, mas o resultado frustra pela ausência de um gênero predominante. Comédia ou drama? Difícil saber. A história começa mostrando a simplória Magda (Marília Pêra) que está entusiasmada para ir assistir pela primeira vez uma peça de teatro, mas para sua surpresa a atriz principal, Lise Delamare (Arlete Salles), interrompe o espetáculo e assume que tem está com síndrome do pânico de se expor em público e que sua carreira está em franca decadência. As duas já se conheciam do consultório da psicanalista Paula (Natália Do Valle), que não dá muita atenção para a sua filha Melanie (Ana Roberta Gualda) que está passando por um período conturbado e não pode nem contar com a ajuda da amiga Vanessa (Juliana Baroni), garota fútil que pensa mais em sua beleza e em uma forma de ser famosa. A moça problemática consegue auxílio com Dulce (Stella Miranda), uma atendente do centro de auxílio aos depressivos que acaba entrando em contato com Crioula (Neusa Borges), a empregada da casa de Melanie. Entre essas histórias outros tantos personagens e conflitos surgem e formam um retrato da população de uma grande metrópole, incluindo a irmã gêmea de Magda, a espalhafatosa Magali, uma perua que adora aproveitar a vida com muito bom humor.
 
Seguindo o estilo de produção nos padrões televisivos, atendendo as expectativas do público que se acostumou a ver no cinema nacional a estética da telinha também nas telonas, este filme também conta com um numeroso elenco bastante familiar para quem curte novelas, aliás, talvez neste caso parece que personagens existem até demais. Como a maior parte dos projetos comerciais apoiados pela Globo e seu braço cinematográfico, o longa foi lançado com todos os aparatos de um eminente sucesso, mas o resultado foi um grande fracasso tanto de público quanto de crítica. Uma ou outra risada é possível se dar, mas é impossível chegar aos créditos finais com a sensação de que se assistiu a um bom filme. Tentando formar um painel social contemporâneo, retratando o caos em que vivemos em meio ao estresse do dia-a-dia, Falabella apostou em uma narrativa fragmentada e que reproduz esquetes teatrais que deixam ganchos entre si com o objetivo de ligar os personagens. São como pequenos curtas metragens inseridos pouco a pouco, mas alguns trechos desnecessários acabam por arrastar a trama. Em particular uma das histórias destoa no conjunto. As sequências da personagem Melanie, embora muito boas, são um tanto dramáticas e não combinam com o clima da produção, ainda mais quando contrastamos com uma Marília Pêra falando palavrões em alto e bom som. Ver uma grande dama das artes cênicas protagonizando cenas do tipo é no mínimo curioso e talvez um dos poucos motivos para se assistir a esta pretensa comédia.
 
Se Marília se sai bem em dose dupla, interpretando uma mulher comportada e mais reservada e outra uma tanto cafona e ousada, não se pode deixar de elogiar as interpretações de Arlete Salles, que mesmo com pouco tempo de cena deixa sua marca, e de Stella Miranda como sua carismática atendente de call Center para aconselhar pessoas com problemas. Se a história se concentrasse mais nas personagens de Arlete e Marília dando ênfase no humor, o filme poderia ser bem melhor. Muitos personagens, tônicas diferenciadas e a tentativa de fazer uma comédia mais contida resultaram em um filme que parece uma colagem de trechos de vários roteiros que tentam ser alinhavados a qualquer custo, mas deixam pontas. Todavia, é inegável a boa vontade de Falabella em tentar oferecer personagens e histórias interessantes ao público, tanto que em seu extenso leque de perfis é impossível não nos apegarmos a um ou outro tipo por causa de características ou conflitos que podem fazer parte de nossa vida ou de algum conhecido. O problema é que mesmo assim nenhuma sequência deste trabalho é avassaladora e capta a atenção do espectador totalmente, ainda mais para quem espera gargalhar. É curioso, mas é quando o melodrama convencional se instala que a narrativa consegue fluir melhor, porém, nada que salve a produção afinal ela é vendida como uma comédia de costumes. Contudo, podemos dizer que como um projeto experimental Polaróides Urbanas ganha algum crédito. Tentando inovar a linguagem convencional de nossos filmes comerciais e expondo de maneira mais leve temas como o individualismo, o diretor conseguiu na verdade é fazer uma obra onde exalta a mulher, desde a mais simples até a mais esfuziante, característica comum em todos os seus trabalhos e que lhe rendem elogios que o equiparam as vontades do cinema do espanhol Pedro Almodóvar. Deixando o olhar crítico de lado, é até possível achar alguns detalhes que salvam este filme de ser um projeto totalmente fracassado, ainda mais quando o comparamos com trabalhos de Bruno Mazzeo e Marcelo Adnet que não se envergonharam de fazer filmes-merchandising descaradamente. De qualquer forma, parece que nem o próprio Falabella curtiu muito sua estréia no cinema, talvez por isso conclui seu trabalho com uma cena em um palco de teatro, espaço que ele domina e é reconhecido.

Nacional - 82 min - 2008 - Dê sua opinião abaixo.
 

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