quarta-feira, 6 de junho de 2012

COLD MOUNTAIN

NOTA 8,5

Drama romântico segue a
receita dos grandes
clássicos, mas seu sucesso
não faz jus a seu porte
Os filmes épicos já foram responsáveis no passado por grandes lucros de Hollywood, faturavam prêmios e elogios da crítica e as grandes estrelas do cinema disputavam acirradamente papéis em tais produções. A fase áurea durou até meados dos anos 60, mas a partir da década seguinte o gênero começou a ficar escasso, tendência que perdura até hoje, salvo os longas a respeito de guerras que continuam despertando interesse tanto de profissionais quanto do público. Os altos investimentos exigidos, principalmente para reconstituições de cenários e figurinos, acabam afastando investidores de projetos do tipo, porém, quando se lembra que épicos é quase um sinônimo de Oscar a coisa muda de figura, mas é um risco declarado. O estilo extremamente romântico e a longa duração, além da pretensão de se tornar um marco na história cinematográfica do tipo E o Vento Levou, podem ser as razões do fracasso de público de Cold Mountain, um filme também subestimado até por parte da crítica especializada. Em contrapartida este trabalho foi superestimado pelo seu diretor, o saudoso Anthony Minghella que claramente queria repetir o feito de O Paciente Inglês, um dos maiores recordistas em número de estatuetas do Oscar de todos os tempos. O cineasta se acostumou a se envolver com produções que preservam características do cinemão hollywoodiano de antigamente agregadas ao estilo dos chamados filmes de arte e que são obras declaradamente feitas para participarem das temporadas de premiações. Apesar de diversas indicações a prêmios e sete indicações ao Oscar, que não incluem as famigeradas categorias de filme, direção, ator e atriz, o longa acabou sendo uma surpresa às avessas e se tornando uma mancha no currículo do estúdio Miramax acostumado a sempre se sair bem nos festivais. Na época a empresa metia medo na concorrência quando surgiam boatos de que um novo trabalho dela estrearia em plena temporada do fim de ano americano, período em que os críticos estão de olhos nas votações dos melhores filmes. Um belo conto pinçado de algum livro, atores renomados e talentosos, produção impecável e tudo o mais que compõe um legítimo clássico, essa era a receita do sucesso. Pelo porte do projeto, esperava-se uma repercussão maior desta obra de Minghella, até mesmo por conta do elenco de astros reunido. De qualquer forma, tornou-se um filme injustiçado e que merece uma reavaliação. Não é apenas a parte técnica que nos surpreende, mas sim a bela história de amor e de esperança contada tendo como plano de fundo uma guerra reconstituída minuciosamente.

O enredo é praticamente uma releitura do clássico texto grego "A Odisséia", de Homero. O fio condutor do enredo é mantido, mas o cenário é alterado para uma idílica paisagem de campo e as ações se passam em pleno auge da Guerra Civil Norte-Americana. Em 1864, os homens do povoado de Cold Mountain, um vilarejo da Carolina do Norte, imediatamente unem-se ao exército dos Confederados quando o conflito é declarado. Nessa mesma época Ada (Nicole Kidman) se apaixona por Inman (Jude Law), um dos empregados do sítio de seu pai, o Reverendo Monroe (Donald Sutherland), mas o rapaz também foi recrutado e irá lutar com o exército. Ambos prometem esperar o tempo que for necessário para voltarem a se ver, mas a batalha parece não ter fim e a moça nunca recebe respostas das cartas que envia ao soldado, o que a leva a crer que ele faleceu ou desistiu do amor. Após a morte de seu pai, Ada fica sozinha e precisa aprender a cuidar da sua propriedade e de si mesma, inclusive passa a vender tudo o que tem para conseguir dinheiro e precisa se virar como pode para fugir do assédio de homens. Eis que surge em seu caminho Ruby (Renée Zellweger) uma moça humilde e com hábitos rudes e masculinizados que a ajuda a superar o momento difícil e a encoraja a ir atrás de seu grande amor. Enquanto isso, Inman está tentando voltar para a casa, mas ele está em rota de fuga por ter desertado de seu posto no combate. Durante o trajeto o rapaz passa a conhecer muitas pessoas que vão fazer a diferença nesse momento difícil de sua vida. Se o elenco principal já é dos melhores, o mesmo elogio cabe aos coadjuvantes, uma extensa lista que inclui nomes como Natalie Portman, Giovanni Ribisi e Philip Seymour Hoffman. Como estão muito bem caracterizados, é até difícil reconhecer algumas das participações especiais. Baseado no livro homônimo de Charles Frazie, que utilizou muitas referências de seus parentes que lutaram no combate retratado, além do já mencionado conto grego para escrever sua obra, somos apresentados a duas histórias paralelas que se cruzarão no final, mas é curioso que apesar da aura romântica que a sinopse apresenta, o amor entre Ada e Inman é tão frio quanto a paisagem de neve que ocupa a tela nos minutos finais. Todavia, mesmo tendo apenas uma cena mais quente entre eles, a relação é totalmente crível e mais de acordo com os rígidos padrões morais da época.

Assistindo a apenas algumas cenas já é difícil entender o porquê do tão comentado fracasso deste épico. Como já dito, a decepção é consequência de uma história de bastidores, expectativas que não foram atingidas. Sem pensar em prêmios e menções honrosas é possível encontrar o verdadeiro valor de Cold Mountain, uma obra que guarda muito de sua força em sua parte técnica e visual arrebatador, pontos que infelizmente colaboram para deixar o público com a pulga atrás da orelha. Uma produção que tem tanto esmero em sua plasticidade também teria condições de manter o mesmo nível em termos de narrativa e interpretações? A resposta neste caso é sim. Praticamente um road-movie a moda antiga, somos apresentados a belíssimos e bucólicos cenários que complementam o trabalho primoroso do elenco, inclusive os coadjuvantes que representam figuras ou colocam obstáculos no caminho do mocinho que se assemelham ao já citado poema grego. Aliás, os personagens configuram mais um fator “oscarizável” deste trabalho. Law é o típico herói clássico. Ele é justo, bonito e simpático e forma um belo par com a mocinha vivida por Nicole, bela, delicada, recatada e que encontra forças que jamais esperava ter para viver sua grande paixão, enfim, o casal básico que há várias gerações faz o público se emocionar e sonhar em clássicos românticos sejam eles épicos ou contemporâneos. Curiosamente, a interpretação de Renée como uma caipira valentona caiu no gosto da crítica, mas não passou ilesa pelo crivo do público sendo que muitos a consideraram estereotipada e carregada demais. Sendo sua terceira indicação seguida, o Oscar premiou a atriz talvez como forma de se redimir, tática comum dos votantes. A parte técnica impecável também acabou sendo preterida pela Academia de Cinema, mas ainda assim valeu a pena todo o esforço e investimentos de Minghella e sua equipe para construir literalmente um vilarejo e um campo de batalha em uma região da Romênia onde até 2002 (ano das filmagens) ainda existiam pessoas que viviam como em uma época medieval sem ao menos o conforto da eletricidade, peculiaridades que ajudaram elenco e produção a entrar no clima do roteiro. Flertando entre o intimismo típico dos filmes de arte e o espetáculo ao qual o cinema comercial clama, o veterano cineasta conseguiu concluir um dos grandes filmes do início do século 21. Seu maior erro foi ter lançado seu último grande trabalho cercado por uma campanha agressiva e pretensiosa que vendia mais a idéia de qualidade que de emoção. Ainda bem que sempre há tempo no mundo cinematográfico de revermos nossos conceitos e posições. Classificar como um marco do cinema pode ser exagero, mas como um entretenimento de primeira sem dúvidas.

Vencedor do Oscar de atriz coadjuvante (Renée Zellweger)

Drama - 154 min - 2003 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

Rafael W. disse...

Meio pretensioso, mas é muito bem feito, tecnicamente impecável e com boas atuações.

http://cinelupinha.blogspot.com/

jessica santos disse...

gostei do filme talvez por não ter um olhar critico , e não achei a atuação da Nicole ruim como foi dito em outra critica
filme bom

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