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NOTA 8,5
Épico romântico segue a receita dos grandes clássicos da era de ouro de Hollywood, mas faltou calor humano à obra talhada para premiações |
Os filmes épicos já foram responsáveis no passado por grandes
lucros de Hollywood, faturavam prêmios e elogios da crítica e as grandes
estrelas do cinema disputavam acirradamente papéis em tais produções. A fase
áurea durou até meados dos anos 60, mas a partir da década seguinte o gênero
começou a ficar escasso, tendência que perdura até hoje, salvo os longas a
respeito de guerras que continuam despertando interesse tanto de profissionais
quanto do público. Os altos investimentos exigidos, principalmente para
reconstituições de cenários e figurinos, acabam afastando investidores de
projetos do tipo, porém, quando se lembra que épicos é quase um sinônimo de
Oscar a coisa muda de figura, mas é um risco declarado. O
estilo extremamente romântico e a longa duração, além da pretensão de se tornar
um marco na história cinematográfica do tipo E o Vento Levou, podem ser as razões do fracasso de público de Cold
Mountain, um filme também subestimado até por parte da crítica
especializada. Em contrapartida este trabalho foi superestimado pelo seu
diretor, o saudoso Anthony Minghella que claramente queria repetir o feito de O Paciente Inglês, um dos maiores
recordistas em número de estatuetas do Oscar de todos os tempos. O cineasta se
acostumou a se envolver com produções que preservam características do cinemão
hollywoodiano de antigamente agregadas ao estilo dos chamados filmes de arte e que
são obras declaradamente feitas para participarem das temporadas de premiações.
Apesar de diversas indicações a prêmios e sete indicações ao Oscar, que não
incluem as famigeradas categorias de filme, direção, ator e atriz, o longa
acabou sendo uma surpresa às avessas e se tornando uma mancha no currículo do
estúdio Miramax acostumado a sempre se sair bem nos festivais. Na época a
empresa metia medo na concorrência quando surgiam boatos de que um novo
trabalho dela estrearia em plena temporada do fim de ano americano, período em
que os críticos estão de olhos nas votações dos melhores filmes. Um belo conto
pinçado de algum livro, atores renomados e talentosos, produção impecável e
tudo o mais que compõe um legítimo clássico, essa era a receita do sucesso. Pelo
porte do projeto, esperava-se uma repercussão maior desta obra de Minghella,
até mesmo por conta do elenco de astros reunido. De qualquer forma, tornou-se
um filme injustiçado e que merece uma reavaliação. Não é apenas a parte técnica
que nos surpreende, mas sim a bela história de amor e de esperança contada
tendo como plano de fundo uma guerra reconstituída minuciosamente.

O
enredo é praticamente uma releitura do clássico texto grego "A
Odisseia", de Homero. O fio condutor do enredo é mantido, mas o cenário é
alterado para uma idílica paisagem de campo e as ações se passam em pleno auge
da Guerra Civil Norte-Americana. Em 1864, os homens do povoado de Cold Mountain,
um vilarejo da Carolina do Norte, imediatamente unem-se ao exército dos
Confederados quando o conflito é declarado. Nessa mesma época Ada (Nicole
Kidman) se apaixona por Inman (Jude Law), um dos empregados do sítio de seu
pai, o Reverendo Monroe (Donald Sutherland), mas o rapaz também foi recrutado e
irá lutar com o exército. Ambos prometem esperar o tempo que for necessário
para voltarem a se ver, mas a batalha parece não ter fim e a moça nunca recebe
respostas das cartas que envia ao soldado, o que a leva a crer que ele faleceu
ou desistiu do amor. Após a morte de seu pai, Ada fica sozinha e precisa
aprender a cuidar da sua propriedade e de si mesma, inclusive passa a vender
tudo o que tem para conseguir dinheiro e precisa se virar como pode para fugir
do assédio de homens. Eis que surge em seu caminho Ruby (Renée Zellweger) uma
moça humilde e com hábitos rudes e masculinizados que a ajuda a superar o
momento difícil e a encoraja a ir atrás de seu grande amor. Enquanto isso,
Inman está tentando voltar para a casa, mas ele está em rota de fuga por ter desertado
de seu posto no combate. Durante o trajeto o rapaz passa a conhecer muitas
pessoas que vão fazer a diferença nesse momento difícil de sua vida. Se o
elenco principal já é dos melhores, o mesmo elogio cabe aos coadjuvantes, uma
extensa lista que inclui nomes como Natalie Portman, Giovanni Ribisi e Philip
Seymour Hoffman. Como estão muito bem caracterizados, é até difícil reconhecer
algumas das participações especiais. Baseado no livro homônimo de Charles
Frazie, que utilizou muitas referências de seus parentes que lutaram no combate
retratado, além do já mencionado conto grego para escrever sua obra, somos
apresentados a duas histórias paralelas que se cruzarão no final, mas é curioso
que apesar da aura romântica que a sinopse apresenta, o amor entre Ada e Inman
é tão frio quanto a paisagem de neve que ocupa a tela nos minutos finais. Todavia,
mesmo tendo apenas uma cena mais quente entre eles, a relação é totalmente
crível e mais de acordo com os rígidos padrões morais da época.
Assistindo a apenas algumas cenas já é difícil
entender o porquê do tão comentado fracasso deste épico. Como já dito, a
decepção é consequência de uma história de bastidores, expectativas que não
foram atingidas. Sem pensar em prêmios e menções honrosas é possível encontrar
o verdadeiro valor de Cold Mountain, uma obra que guarda
muito de sua força em sua parte técnica e visual arrebatador, pontos que
infelizmente colaboram para deixar o público com a pulga atrás da orelha. Uma
produção que tem tanto esmero em sua plasticidade também teria condições de
manter o mesmo nível em termos de narrativa e interpretações? A resposta neste
caso é sim. Praticamente um road-movie a moda antiga, somos apresentados a
belíssimos e bucólicos cenários que complementam o trabalho primoroso do elenco,
inclusive os coadjuvantes que representam figuras ou colocam obstáculos no
caminho do mocinho que se assemelham ao já citado poema grego. Aliás, os
personagens configuram mais um fator “oscarizável” deste trabalho. Law é o
típico herói clássico. Ele é justo, bonito e simpático e forma um belo par com
a mocinha vivida por Nicole, bela, delicada, recatada e que encontra forças que
jamais esperava ter para viver sua grande paixão, enfim, o casal básico que há
várias gerações faz o público se emocionar e sonhar em clássicos românticos
sejam eles épicos ou contemporâneos. Curiosamente, a interpretação de Renée
como uma caipira valentona caiu no gosto da crítica, mas não passou ilesa pelo
crivo do público sendo que muitos a consideraram estereotipada e carregada
demais. Sendo sua terceira indicação seguida, o Oscar premiou a atriz talvez
como forma de se redimir, tática comum dos votantes. A parte técnica impecável
também acabou sendo preterida pela Academia de Cinema, mas ainda assim valeu a
pena todo o esforço e investimentos de Minghella e sua equipe para construir
literalmente um vilarejo e um campo de batalha em uma região da Romênia onde
até 2002 (ano das filmagens) ainda existiam pessoas que viviam como em uma
época medieval sem ao menos o conforto da eletricidade, peculiaridades que
ajudaram elenco e produção a entrar no clima do roteiro. Flertando entre o
intimismo típico dos filmes de arte e o espetáculo ao qual o cinema comercial
clama, o veterano cineasta conseguiu concluir um dos grandes filmes do início
do século 21. Seu maior erro foi ter lançado seu último grande trabalho cercado
por uma campanha agressiva e pretensiosa que vendia mais a ideia de qualidade
que de emoção. Faltou calor humano à produção friamente calculada. Ainda bem que sempre há tempo no mundo cinematográfico de
revermos nossos conceitos e posições. Classificar como um marco do cinema pode
ser exagero, mas como um entretenimento de primeira sem dúvidas.
Vencedor do Oscar de atriz coadjuvante (Renée Zellweger)
Drama - 154 min - 2003
2 comentários:
Meio pretensioso, mas é muito bem feito, tecnicamente impecável e com boas atuações.
http://cinelupinha.blogspot.com/
gostei do filme talvez por não ter um olhar critico , e não achei a atuação da Nicole ruim como foi dito em outra critica
filme bom
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