segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

GAROTAS DO CALENDÁRIO


Nota 7,5 Por solidariedade, senhoras fazem projeto ousado e de sucesso, mas com preço a pagar


Comédias inglesas costumas ser facilmente reconhecidas devido a certas características. Geralmente assuntos cotidianos são abordados de maneira ingênua, porém, com críticas sutis escamoteadas em produções com tratamento visual refinado. Em 1997, Ou Tudo ou Nada, por exemplo, contava a história de um grupo de homens, que não eram necessariamente símbolos de beleza e sensualidade, que driblou a crise financeira protagonizando apresentações de strip-teases e o longa ultrapassou fronteiras e chegou a conquistar Hollywood que o abraçou em premiações, incluindo no Oscar. Alguns anos mais tarde, Garotas do Calendário foi lançado abordando temática semelhante, porém, uma obra milimetricamente planejada para arrancar proporcionalmente risos e lágrimas dos espectadores. Na minúscula cidade de Knapely, no interior da Inglaterra, a maioria das mulheres, principalmente as mais maduras, não trabalham e preenchem seu tempo livre participando de um instituto de cunho cultural, mas fora as aulas de ioga e os ensaio do coral as reuniões geralmente se resumem a troca de receitas e palestras sobre alimentação e jardinagem. 

Chris Harper (Helen Mirren) não leva nada daquilo muito a sério assim como Annie Clarke (Julie Walters), esta que perdeu o marido vítima de leucemia. Ela desejaria muito colaborar com o hospital doando um sofá para dar mais conforto aos acompanhantes dos pacientes e eis que sua amiga tem uma ideia diferenciada. O tradicional calendário do grupo sempre vendeu pouquíssimo e então Chris propõe trocar as fotos de paisagens e de igrejas por imagens de nus artísticos. Para uma comunidade tão moralista só isso já seria motivo suficiente para muito burburinho, mas ainda há um detalhe para ouriçar ainda mais a população. Inspirada por uma folhinha que viu em uma oficina mecânica e levando em consideração o que o falecido marido da amiga deixou em um discurso, uma comparação das mulheres com as flores típicas da região que tem seu momento mais esplendoroso em pleno amadurecimento, Chris sugere que as respeitáveis senhoras da cidade posem seminuas praticando atividades cotidianas, como fazendo bolinhos ou cuidando de arranjos florais. Inicialmente, a proposta sofre resistência, mas logo Chris e Annie ganham o apoio de outras nove senhoras entre 45 e 65 anos, restando para ilustrar o mês de dezembro uma foto coletiva com todas reunidas para um cântico natalino.


A ideia era jamais mostrarem suas partes íntimas, mas o simples fato de mulheres fora dos padrões de beleza convencionais (jovens com corpos esculturais) toparem se despirem para as lentes de um fotógrafo seria o suficiente para chamar a atenção e assim arrecadar mais donativos. Contudo, não bastava terem coragem e boa vontade, era preciso também dinheiro para cobrir os custos de produção. Assim elas vão em busca de patrocínio e até de apoio governamental e o resultado surpreende a elas mesmas. A pequena tiragem de impressão inicial se esgota rapidamente e logo o assunto vira manchete de jornais e até chega ao território americano que, além de encomendar uma versão especial do calendário, convoca o grupo para uma entrevista em um badalado programa de televisão e até para participarem de uma campanha publicitária. Contudo, paralelamente, o sucesso vai trazendo aborrecimentos para as modelos. Alguns jornais a comparam a prostitutas, suas vidas pessoais passam a ser especuladas e até causa a separação de Ruth (Penelope Wilton), embora seu marido use o episódio apenas como desculpa já que vinha a traindo há algum tempo. É uma pena que não seja muito explorado o gancho de que a ideia de Chris também constranja Jem (John-Paul Macleod), seu filho adolescente, resumindo-se a umas duas cenas em que o rapaz flagra a mãe tirando o sutiã. 

Chris também tem problemas com Annie quando passam a divergir sobre como o sucesso alterou os rumos do projeto. É nesse momento que o diretor Nigel Cole, do também britânico e divertido O Barato de Grace, perde um pouco o ritmo parecendo apressado para narrar a passagem do grupo de senhoras por solo americano. Contudo, nada que desabone o longa que diverte e envolve em seus dois primeiros terços com uma trama bem fluída e solar. Inspirados em uma excêntrica história real, os roteiristas Tim Firth e Juliette Towhidi evitam transformar a curiosidade pela nudez das senhoras o interesse principal da fita, tanto que lá pela metade elas já estão despidas escondendo o que podem atrás de fruteiras e arranjos de flores. O foco é a força tarefa que as une em prol de um ato de caridade e a repercussão do mesmo não só na sociedade, mas também entre elas próprias. No entanto, para gerar interesse isso seria pouco, por isso foram criadas algumas dificuldades a mais para o calendário conseguir ser lançado, assim aumentando a participação de Walters e Mirren.  As duas veteranas mostram uma contagiante sintonia e também interagem harmoniosamente com as outras atrizes, compondo assim um grupo homogêneo quanto a qualidade das interpretações. 


Vale destacar que as subtramas de maior peso ficam a cargo de Walters e Wilton, respectivamente a primeira tentando superar a morte do marido e a segunda fazendo-se de cega quanto a indiferença do companheiro. Já Mirren está em estado de graça divertindo-se em cena como poucas vezes a vimos e compondo uma mulher determinada e corajosa, talvez até um pouco mais impulsiva que o necessário. Alguns podem achar que as tramas paralelas não são bem desenvolvidas, mas é uma escolha do diretor para evitar a descaracterização do filme e a fuga da temática principal. Garotas do Calendário tem como principal objetivo exaltar a beleza da mulher madura, uma qualidade que resiste ao tempo e que pode se tornar ainda mais relevante a cada ano que passa. Isso porque elas não querem ser reconhecidas por rostos sem rugas ou corpos sem celulite. Elas se orgulham de cada marca que acumulam na pele, pois sabem que são lembranças de uma vida aproveitada intensamente, com suas alegrias e tristezas, e revelam as experiências adquiridas e que agora podem passar adiante. A iniciativa de se despirem da vergonha e da vaidade por um ato de caridade jamais deve ser encarada como motivo de chacota ou repulsa e sim exaltada por seu propósito de solidariedade.

Comédia - 108 min - 2003

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