quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

ELI


Nota 6,5 Longa apela para gerar sustos, desperdiçando uma boa ideia sobre fobias e superstições


Nos tempos das videolocadoras físicas, além dos filmes mais aguardados que já haviam sido exibidos nos cinemas, havia uma grande procura por fitas menos conhecidas lançadas exclusivamente para locação. É verdade que muitas coisas ruins eram despejadas mensalmente nas prateleiras, mas também ótimas opções existiam para suprir a falta do lançamento blockbuster. Um dos gêneros mais beneficiados por essa tática era o terror com produções que muitas vezes não chegavam às salas de exibições devido a baixa expectativa de público por serem destinadas a nichos específicos. Agora, tais filmes encontram espaço nos serviços de streaming que, na ânsia de terem um catálogo amplo de opções, adquirem produtos que variam drasticamente em conteúdo e qualidade técnica. Lançado pela Netflix, o longa Eli não é excepcional, mas também não chega a ser um desperdício de tempo. O personagem-título, interpretado por Charlie Shotwell, é um garoto que sofre com uma rara doença autoimune que o faz alérgico a quase tudo, ficando constantemente com a pele avermelhada e machucada por queimaduras. Desta forma, ele vive isolado dentro da própria casa dependente de uma redoma plástica e as poucas vezes que sai precisa usar um traje especial que lhe rende situações constrangedoras. 

O contato do garoto é mínimo até mesmo com Rose (Kelly Reilly) e Paul (Max Martin), seus pais que decidem submetê-lo ao tratamento oferecido pela Dra. Horn (Lili Taylor) apenas confiando em suas palavras já que utiliza técnicas experimentais sem comprovações científicas. Afastada da cidade, sua clínica aparentemente é como uma casa de repouso, mas aos poucos o garoto passa a descobrir uma série de segredos obscuros a respeito do local, sobre a médica e até mesmo em relação a seus próprios pais. Assim, ele passa a questionar em quem realmente pode confiar, sentindo-se mais seguro apenas com o apoio de Haley (Sadie Sink), uma garota que estranhamente sempre surge do lado de fora do casarão em momentos oportunos e trazendo mensagens de autoestima. A inserção da personagem, que deveria servir como um respiro ao confinamento de Eli, acaba sendo falha ao deixar no ar, ainda que não claramente em suas palavras, que o casarão só serve de fachada para esconder eventos cruéis. A espinha dorsal do longa é o secular conflito do bem contra o mal, mas o que pode aparentemente parecer clichê, ganho certo fôlego nas mãos do diretor Ciáran Foy que inverte o jogo. Preservar o paciente em segurança é sinônimo de egoísmo e a defesa da ideia de fazer um bem maior para todos é prioridade, mesmo que para tanto seja preciso recorrer ao sacrifício humano. Não é spoiler algum revelar que o grande mistério do filme tem a ver com alguma seita religiosa, afinal os roteiristas David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing deixam pistas ao longo de toda a narrativa. 


As dúvidas levantadas por Eli não ajudam a alimentar o mistério já que as respostas sempre são desviadas pelos outros personagens deixando claras as intenções de retardar o mistério até o último ato que, diga-se de passagem, acaba não impactando, pois de certa forma o espectador já vinha sendo preparado para o que estava por vir. Durante o desenrolar da trama é possível reconhecer elementos já usados em tantos outros filmes do gênero, como sussurros no meio da noite, vultos pelos cantos, barulhos de portas e janelas estalando, entre outros truques manjados que acabam enfraquecendo a resolução que tinha pretensões de surpreender com uma reviravolta. O gancho da enfermidade rara por si só teria potencial para levar a produção a tomar outros rumos, afinal o fato de não poder ter contato com o mundo fora de casa já é bastante amedrontador, mas é uma pena que tenham optado pelo caminho comum do sobrenatural, ainda que Foy demonstre destreza no campo manipulando o roteiro de forma a levar o espectador a sempre duvidar se o que está vendo é real ou imaginação do garoto perturbado pelo confinamento, mas também afetado pela aparente distância que existe entre seus pais. Fica no ar a sensação de que o casal se mantém unido apenas para não traumatizar ainda mais o filho e piorar seu quadro clínico.

A falta de originalidade do texto felizmente é compensada com uma qualidade técnica decente. A cenografia é bem arquitetada, com diversas passagens secretas que contribuem para a tensão no clímax, a fotografia é realista e há parcimônia no uso dos efeitos especiais. As interpretações também não comprometem o resultado. Taylor, Reilly e Martin constroem personagens dúbios equilibrando-se entra a vontade de ajudar o protagonista e a sensação de que estão presos a uma contagem regressiva para que algo muito ruim e inevitável aconteça ao menino. Contudo, o grande destaque é Shotwell que entrega uma performance vigorosa e que respeita uma cadência de emoções. Do garoto retraído da introdução ele chega à meia hora final extravasando suas emoções e literalmente soltando os demônios que há dentro dele. Ele parece bastante à vontade em cena, o que é fundamental para este tipo de trabalho que exige bastante do emocional e do psicológico de qualquer intérprete. Lançado sorrateiramente para streaming, o que revela certa falta de ambição de seus produtores, Eli acaba se beneficiando dessa falta de publicidade. Sem criar expectativas, é o tipo de filme que você escolhe assistir por acaso e que acaba lhe agradando razoavelmente, principalmente quando lembra que não gastou com ingresso ou locação, já estava incluso em seu pacote de assinatura. 


De qualquer maneira, é uma pena que uma boa ideia seja desperdiçada. Muitas experiências assustadoras poderiam acontecer com o garoto sendo submetido a um tratamento que o forçasse a ter contato com tudo aquilo que supostamente lhe causaria alergia, mas então o filme acabaria com um viés mais dramático ou de suspense, o que certamente seus realizadores não queriam. Contudo, não conseguiram desenvolver a proposta do horror psicológico eficientemente, até porque por várias vezes parecem simplesmente esquecer da gravidade da doença de Eli com a desculpa esfarrapada que o tal casarão em que ele é internado é completamente livre de agentes passíveis de contaminação. Por fim, na conclusão optam por abordar o fanatismo religioso em sequências que devem deixar felizes aqueles que abominam a lavagem cerebral que certas seitas fazem tirando proveito de mentes fracas e fatigadas.

Terror - 98 min - 2019

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