sábado, 31 de maio de 2014

O SEGREDO DE CHARLIE

Nota 4,5 Apesar do bom argumento, suspense entedia com pistas falsas e confusões de nomes

Uma jovem quando volta de viagem descobre que seu marido faleceu, mas não se abala muito afinal já estavam para se divorciar. O problema é que todo o dinheiro dele desapareceu e o que era para ser sua herança também está sendo procurado por outros, mais especificamente por criminosos. O argumento de O Segredo de Charlie é relativamente bem simples, mas o diretor Johanthan Demme, consagrado por O Silêncio dos Inocentes, tratou de complicar as coisas tentando fazer sua obra parecer mais inteligente do que poderia. Regina Lambert (Thandie Newton) teve uma desagradável surpresa quando voltou para sua casa. O apartamento estava sujo e praticamente vazio, todos os móveis e objetos haviam sumido. Jeanne Dominique (Christine Boisson), Comandante da Polícia Judiciária, a aguardava para prestar alguns esclarecimentos a respeito do assassinato de seu marido Charlie (Stephen Dillane). Junto do corpo foram encontrados seus documentos, vários passaportes indicando que ele já havia passado por vários países e em cada um assumia uma identidade diferente, sendo sua última parada a França. Como trabalhava vendendo obras de arte, a ex-esposa nunca estranhou suas diversas viagens, tampouco o fato de ele afirmar não ter parentes vivos. O estranho é que eles estavam casados há apenas três meses, uma união feita impulsivamente e a moça aparentemente aceitou o compromisso deslumbrada pelo universo elitizado que o namorado habitava. Essa é apenas uma das dúvidas levantadas pelo roteiro escrito pelo próprio Demme em parceria com Steve Schmidt e Jessica Bendinger baseado no texto de Charada. Peter Stone, autor do filme original de 1963, contribuiu no primeiro tratamento da narrativa da refilmagem, mas ficou tão descontente com os rumos que a trama tomou que até pediu para seu nome ser trocado por um pseudônimo nos créditos. Fez bem ele. A intenção de fazer com que todos os personagens parecessem suspeitos do assassinato acabou atrapalhando os próprios atores que parecem desconfortáveis em seus papéis e sem saber quais serão seus destinos, assim atuaram na corda bamba entre a culpa e a inocência. Curiosamente, quem desde o início é elevado ao posto de vilão se sai muito melhor que os nomes fortes da fita. Além da citada Newton, Mark Wahlberg e Tim Robbins têm papéis importantes, mas o trio trabalha no piloto automático.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

ESPOSAS EM CONFLITO

NOTA 8,0

Apesar de datado, suspense
ainda causa tensão e reflexão
ao colocar em xeque o machismo
através de uma trama alegórica
Quando um filme ganha uma refilmagem é comum que as distribuidoras se apressem para colocar a disposição dos consumidores as versões originais, independente de serem ou não as responsáveis pela tal reinvenção ou se o novo trabalho guarda apenas alguns resquícios da fonte em que bebeu. Foi isso que aconteceu há alguns anos quando foi lançada a comédia Mulheres Perfeitas. Com um elenco encabeçado por Nicole Kidman, esse filme teve passagem rápida pelos cinemas e foi classificado por muitos como uma produção de humor rasteiro ou até mesmo uma bobagem que não vale o tempo perdido para assistir. Bem, talvez muitos passassem a ver esse trabalho com outros olhos ou até mesmo reforçariam as más críticas se conhecessem Esposas em Conflito, longa dos anos 70 cujo argumento muito interessante foi reaproveitado em sua releitura três décadas mais tarde, porém, com um enfoque completamente diferente. Visualmente a obra é datada e fica visível através das roupas, objetos dos cenários e penteados e nem mesmo o discurso esconde o envelhecimento do filme, mas nada que atrapalhe o público-alvo que certamente busca respirar naftalina através das imagens. É muito interessante comparar como um mesmo roteiro pôde ter duas leituras tão diferenciadas, sendo que a trama original pouco tem de engraçado, pelo contrário, é um enredo que leva o espectador a refletir sobre questões pertinentes à época, mas ainda polêmicas: o machismo versus a rebeldia à submissão da mulher. O diretor inglês Bryan Forbes criou um misto de ficção científica e suspense inspirado por um romance de autoria de Ira Levin, o mesmo que criou o livro que deu origem ao cultuado O Bebê de Rosemary. A história nos apresenta a um casal que decide deixar a estressante vida na metrópole para ir viver em um subúrbio norte-americano. O ano é 1975 e a cidade de Stepford parece um sonho. Ruas tranquilas, casas bonitas, bem adornadas e até excessivamente limpas e organizadas. Até o Sol parece compactuar com toda essa beleza e não deixa de dar as caras um dia sequer. Para completar o cenário dos sonhos para uma família modelo habitar só falta uma esposa bonita, bem arrumada, prendada e que nunca nega um pedido do marido. Bem, até isso se encontra aos montes nesse verdadeiro recanto feliz. Em meio a esse mundo perfeito a recém-chegada fotógrafa Joanna Eberhart (Katharine Ross) não consegue se encaixar e acha tudo aquilo muito estranho. A mesma opinião compartilha Bobbie Markowe (Paula Prentiss), outra habitante da cidade que não consegue compreender como todas as donas-de-casa parecem seguir um mesmo padrão de vida.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

HOMENS EM FÚRIA

NOTA 6,0

Procurando abordar questões
morais e religiosas através de dois
personagens fortes e controversos,
longa se perde e distancia o espectador
Existem filmes que são tão ruins que nem nos importamos em tecer comentários negativos, pelo contrário, é até uma satisfação, uma forma de extravasar a raiva de ter perdido seu precioso tempo com semelhante coisa. Pena que nem sempre é fácil apontar se um filme é bom ou ruim. São vários os exemplos de produções que podem deixar aquele gostinho amargo de insatisfação ao final, contudo, isoladamente possuem pontos positivos relevantes como é o caso de Homens em Fúria, reencontro de Robert De Niro e Edward Norton após quase uma década do lançamento de A Cartada Final. Sem dúvidas ambos são ícones de suas respectivas gerações de atores, mas o aguardado embate de talentos resulta em algo frio, distante do espectador, muito por conta do roteiro assinado por Angus MacLachlan, do mais acessível Retratos de Família. O problema deste distanciamento pode acontecer logo nos primeiros minutos devido a diálogos que soam um tanto artificiais, afinal o fio condutor da trama é um prisioneiro tentando conseguir sua liberdade condicional justificando sua boa conduta, o tempo considerável de sua sentença já cumprido e a saudades que tem de transar com a esposa, diga-se de passagem, algo mencionado com riqueza de detalhes. Quem não se importar com a conversa típica de filmes de malandros e confiar no talento dos protagonistas, a trama pode surpreender pelos rumos que toma. Jack (De Niro) trabalha em um presídio como avaliador de condicionais, ou seja, é ele quem tem a responsabilidade de esgotar as possibilidades de verificação para ter a certeza de que pode devolver um indivíduo ao convívio social antes mesmo dele cumprir totalmente a sua pena, mesmo que para tanto sejam necessários meses ou até anos de empenho. O policial está prestes a se aposentar e a essa altura encara um grande desafio: lidar com Stone (Norton), um presidiário acusado de matar os próprios avós em um incêndio, mas que já cumpriu oito anos de sua pena e não vê a hora de conseguir sua liberdade condicional. O problema é que Jack parece ter perdido sua razão de viver agora que caiu a ficha que vai ser desligado da polícia definitivamente e não está mais empenhado no trabalho, assim ele pouco dá atenção aos apelos do detento que então recorre a Lucetta (Milla Jovovich), sua esposa, para ajudá-lo a persuadir o velho. Com toda a propaganda que fez sobre sua vida sexual, é óbvio que Stone quer que ela seduza o agente e assim consiga persuadi-lo a lhe dar o alvará de soltura, mas Jack é durão e não cai na armadilha. Bem, pelo menos não nas primeiras tentativas da moça.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A PASSAGEM (2005)

NOTA 8,0

À primeira vista confuso e
monótomo, longa exige reflexão e
desafia a inteligência do espectador,
mas seu final compensa o esforço 
Não entendi nada. Certamente esse é um dos comentários mais comuns feitos para o suspense A Passagem, mais uma daquelas produções que jogam peças ao longo da narrativa para que o espectador tente montar o quebra-cabeça proposto, só que neste caso quem assiste pode respirar aliviado ao final, pois tudo é explicado. O problema é que aqueles que se entediarem com a narrativa certamente vão dispersar a atenção e perder detalhes importantes, assim a conclusão continuará sem sentido inevitavelmente. Apesar de colher elogios de críticos amadores, é óbvio que não é um filme popular, é preciso estar preparado para encará-lo o que lhe confere certa aura de “obra de nicho”. De fato, o passar dos anos comprova o rótulo já que se tornou um título de procura específica ou apenas curiosos aficionados pelo trio de atores principais devem querer assisti-lo, estes que provavelmente vão se perguntar porque seus ídolos se meteram nesse projeto. Escrito por David Benioff, a trama fala sobre o mundo de paranoias em que um psiquiatra mergulha quando se torna muito próximo de um de seus pacientes. Sam Foster (Ewan McGregor) foi chamado para substituir por duas semanas uma colega e assim conheceu Henry Lethem (Ryan Gosling), um jovem com graves distúrbios mentais. A mudança repentina de profissional não agradou o rapaz que já tinha a sensação de ser um rejeitado e se até sua médica não queria mais lhe dar ouvidos... De qualquer forma, não demora muito para ele se sentir a vontade e revelar ao doutor que pretende cometer suicídio em três dias, assim Foster começa a investigar o passado do paciente para compreender as razões de seu desespero e impedir uma tragédia, no entanto, conforme se aprofunda no assunto ele também acaba se envolvendo com situações que o fazem perder a noção da realidade. Falar que vai se matar qualquer um pode afirmar em momentos de depressão ou angústia, mas o que intriga o psiquiatra neste caso é uma coincidência. Henry é estudante de artes plásticas e tem sua morte meticulosamente planejada para o dia em que completará 21 anos, a mesma atitude que tomou um pintor que ele admira quando completou essa idade. Lila (Naomi Watts), namorada de Sam e sua antiga paciente, mas que ainda sofre de depressão, acredita que compreende as emoções do jovem suicida e oferece sua ajuda. Curiosamente ela chama constantemente o companheiro de Henry, por que isso? Como o tal paciente consegue prever acontecimentos futuros, inclusive pensamentos de seu psiquiatra? Por que o rapaz insiste que seu médico mantém contato com o seu pai, embora este já tivesse falecido? A mãe do paciente também já teria morrido, mas como Sam conversou com ela pessoalmente? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas que vão se acumulando e, como já dito, um desvio de atenção e tudo se embola.

terça-feira, 27 de maio de 2014

SOCIEDADE FEROZ

NOTA 3,0

Procurando relacionar costumes
de antiga tribo a comportamentos
contemporâneos, drama se perde em
meio a tantos personagens e situações
Quando somos jovens e entediados com nosso cotidiano é muito fácil acreditar que a vida pode ser diferente em um novo ambiente, em outra realidade. Se conseguimos mudar de ares, o entusiasmo inicial é inevitável, mas até quando ele vai durar? A única certeza é que depois de viver esta experiência ninguém mais consegue ser o mesmo de outrora e é isso que aprende o protagonista de Sociedade Feroz, drama com uma premissa interessante acerca do amadurecimento, não só de jovens, mas também de pessoas mais velhas que compreendem tardiamente que todo dia é um aprendizado e que nossas ações deixam marcas por onde passamos. Em meados de 1980, Finn Earl (Anton Yelchin) é um jovem de 16 anos que cresceu longe do pai, um antropólogo que ficou famoso por ser o primeiro a conseguir manter contato com membros da tribo Iskanani, indígenas da América do Sul conhecidos por serem extremamente agressivos e darem muito valor a rituais e atos violentos para provar coragem e liderança. O filho acabou ficando fascinado por esse povo por associá-lo como a única lembrança concreta que teve do pai em todos esses anos através de seus livros e documentários de televisão. A mãe do menino, Liz (Diane Lane), sempre levou uma vida meio desregrada e engravidou por um descuido de uma única noite. Atualmente ela ganha a vida como massagista, costuma ir para a cama com alguns clientes e é viciada em drogas e álcool. Certa vez, tentando ajudar a mãe, Finn acabou metendo os pés pelas mãos e foi pessoalmente comprar entorpecentes para ela se acalmar e teve o azar de cair em uma batida policial. Após ver o filho em maus lençóis, Liz resolve que é hora de colocar sua vida e a dele nos trilhos e decide aceitar o convite do milionário Ogden C. Osborne (Donald Sutherland), um antigo amigo e cliente que lhe ofereceu uma de suas propriedades para eles passarem uma temporada enquanto ela seria sua massagista particular. O idoso vive em uma espécie de comunidade alternativa, Vlyvalle, uma cidade fechada onde ele é uma figura ilustre, respeitada e seu dinheiro lhe dá poder absoluto, tanto que conseguiu promover o Sr. Gates (Blu Mankuma), seu motorista, à chefe da polícia local. No início, Finn mostra-se contrário a mudança, até porque não confia que sua mãe se regeneraria, mas aos poucos passa a gostar do novo endereço, até porque promete ser um período de grandes novidades e experiências.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

NARC

NOTA 7,0

Produção independente resgata
os principais elementos de um
filme policial legítimo e garante
um final crível e empolgante
O gênero policial já teve sua fase de glória no passado, mas com o tempo acabou sendo diluído à produções de suspense ou ação e assim perdeu suas principais características. A rigor, um filme do tipo deve convidar o espectador a brincar de detetive juntando peças até chegar a conclusão do crime em questão, sem necessariamente precisar de vertiginosas perseguições, tiroteios a cada cinco minutos e tampouco tramas intricadas apoiadas em um suposto final surpresa. É na simplicidade e objetividade que estão as grandes qualidades de Narc, obra independente que não conseguiu o devido valor quando lançada, mesmo sendo o período considerado a era de ouro para o cinema alternativo e de baixo orçamento. A sigla que dá título à fita também é usada pela polícia norte-americana, uma abreviação para narcotráfico como são chamados os crimes envolvendo drogas e entorpecentes. Os policiais desta facção geralmente trabalham disfarçados e infiltrados entre as gangues que facilitam a venda de tais substâncias. Nick Tellis (Jason Patric) é um deles. O filme começa com uma impactante sequência na qual o detetive está caçando a pé um bandido. O estilo câmera na mão perseguindo o policial dá um incrível senso de realismo à cena e já que vivemos assombrados pelo espectro da violência imediatamente nos sentimos fazendo parte da ação e acompanhamos a tensa situação. Em um ato impulsivo, ele atira no criminoso várias vezes e uma das balas acaba acertando uma mulher grávida, assim suas atitudes acabam sendo consideradas demasiadamente violentas e exageradas o que levou seus superiores a optarem por seu afastamento. Meses depois, acompanhamos um pouco da melancólica rotina de Tellis em família. Sem trabalho, só lhe resta se dedicar aos afazeres domésticos e a ajudar a esposa com o filho de apenas dez meses, o que mexe com seu emocional já que no fatídico episódio ele acabou tirando a vida de um bebezinho ainda na barriga da mãe. Contudo, ele não é um sujeito violento, é apenas justo, leva a sério sua profissão e não mede esforços para combater a criminalidade. Um ano depois lhe é oferecida uma oportunidade para voltar à corporação com promessas de que seus crimes seriam perdoados, mas a missão em um primeiro momento não lhe interessa.

domingo, 25 de maio de 2014

BAILEY - UM CÃO QUE VALE MILHÕES

Nota 3,0 Transbordando clichês de filmes de animais falantes, longa deve agradar aos pequenos

Cachorrinhos fofinhos e falantes ainda tem plateia garantida? Bem, confiando que o público está sempre se renovando e crianças inocentes e descobrindo a magia do cinema não vão faltar, tem sempre produtores de plantão dispostos a bancar produções censura livre para atender esse nicho. Os roteiristas Mary Walsh e Heather Conkie não tem como fugir dos estereótipos desse tipo de produção em Bailey – Um Cão que Vale Milhões, nem mesmo das batidas mensagens de proteção à natureza e tampouco das lições de moral, neste caso acerca da ganância que cega as pessoas. O filme tem um rápido prólogo onde conhecemos Marge Maggs (Laurie Holden), uma corajosa ambientalista que faz de tudo para proteger os animais, assim ela tem uma ficha policial considerável, mas sempre perdoada devido as boas intenções de seus atos. Dois anos depois de desmantelar mais um laboratório que usava ilegalmente bichos para experimentos, ela agora trabalha em uma instituição de pesquisa e direitos dos animais fundada pela Sra. Constance Pennington (Jackie Burroughs), uma idosa milionária que antes de falecer deixou seu testamento gravado em vídeo. Como nunca teve filhos, seu sobrinho Caspar (Tim Curry) e a esposa Dolores (Jennifer Tilly) já faziam planos para gastar a herança, mas se surpreendem quando descobrem que a eles só restou o cargo de direção da fundação, uma espécie de punição por eles nunca terem sido muito amáveis com ela. Toda a fortuna foi deixada para o cãozinho Bailey, seu fiel companheiro por anos, que tem como tutor o tímido Ted Maxwell (Dean Cain), um especialista em comportamento animal que afirma “dialogar” com o cachorro milionário. Contrariando a regra que os opostos se atraem, o psicólogo e a defensora dos animais se entendem logo que se conhecem por conta de seus interesses em comum, mas recebem uma forcinha de seus bichinhos. Bailey também se apaixona por Tessa, a cadelinha de estimação de Sam (Angela Valee), a filha de Marge. Obviamente a felicidade do casal, ou melhor, dos casais, vai sofrer interferência da dupla de vigaristas que antes mesmo de terem a decepção do testamento já estavam colocando um plano B em prática.

sábado, 24 de maio de 2014

FEITA POR ENCOMENDA

Nota 5,5 Longa se apoia no carisma da protagonista e trata superficialmente tema científico

O assunto de bebês do tipo “produção independente” hoje é debatido com mais naturalidade, mas ainda assim não deixa de ser um tabu. Imagine então falar disso duas décadas atrás. Para afugentar o fantasma da polêmica, nada melhor que trazer a temática para o campo do humor, embora qualquer questão científica seja descartada ou minimizada em Feita por Encomenda, um filme que claramente se sustenta em cima do carisma e talento de Whoopi Goldberg que dá vida à Sarah Matthews, a politizada dona de uma livraria na Califórnia especializada em cultura africana. Ela sempre quis ter filhos, mas acabou ficando viúva antes de conseguir engravidar. Não se importando em enfrentar as dificuldades de ser uma mãe solteira, ela acabou recorrendo a um banco de sêmen para realizar seu sonho e de uma inseminação artificial nasceu Zora (Nia Long). Como a maioria dos casos do tipo, é óbvio que na adolescência a menina começa a questionar sua origem, a diferença é que até então ela nem desconfiava que fosse filha de pai desconhecido. A descoberta foi por um acaso. Durante uma pesquisa escolar, ela descobre que seu tipo sanguíneo não corresponde com a junção do sangue da mãe com a do falecido marido. Como toda comédia romântica tradicional, são perceptíveis só de ler a sinopse todas as peças necessárias para fazer essa engrenagem funcionar. Após muito esforço, Zora consegue arrancar a verdade de Sarah, fica em meio a uma crise de identidade e encasqueta de saber quem foi o doador do material genético. Muito facilmente ela chega até o laboratório onde foi gerada, arma um plano para ter acesso ao banco de dados e então mais uma surpresa... Para a filha e também para a mãe. A comerciante havia requisitado o sêmen de um homem negro, alto e inteligente. Bem, realmente lhe conseguiram um doador alto, talvez inteligente, mas de pele branca. Ele é Hal Jackson (Ted Danson), um vendedor de carros falastrão e metido a conquistador que chega até a dar uma cantada de leve em Zora, mas quase tem um colapso quando descobre que ela é sua filha. Ao ver o tipo de pai que tem, a menina se decepciona e sua mãe fica enfurecida pelo erro do laboratório, mas já que agora toda a verdade veio à tona o melhor seria tentar a convivência pacífica.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

SAHARA (2005)

NOTA 5,0

Muito extenso e pretensioso,
filme não cumpre sua promessa
de ser uma super aventura, mas
quebra o galho como passatempo
O título nos lembra a deserto, que nos remete a aventura e que por sua vez evoca diversão. Matthew McConaughey, Penélope Cruz (antes de serem premiados e fazerem parte do alto escalão de Hollywood) e Steve Zahn, aquele cara que já fez vários filmes, mas é um eterno ilustre desconhecido, encabeçam o elenco de uma produção que tinha tudo para ser um legítimo representante do estilo sessão da tarde, porém, peca em um requisito básico: ser envolvente. Um filme-pipoca não precisa ser necessariamente calcado no humor ou na aventura, mas quando até seu material publicitário vende esse peixe é preciso no mínimo honrar o compromisso. Eis o problema. Quem se prepara para ver Sahara imbuído do sentimento nostálgico das antigas aventuras no deserto deve se decepcionar. A trama nos apresenta ao explorador e caçador de tesouros Dirk Pitt (McConaughey) e ao sue fiel companheiro de aventuras Al Giordino (Zahn) que após encontrarem uma moeda mitológica começam uma obcecada busca por um encouraçado dos tempos da Guerra Civil norte-americana que naufragou na perigosa região do Oeste Africano. Conhecido pelos nativos sugestivamente como Navio da Morte, a embarcação estaria em Mali, mais precisamente nos arredores do deserto do Saara. A dupla, obviamente de perfis opostos, um é bonitão e metido a valente enquanto o outro é o engraçadinho e desengonçado, trabalham para o almirante Jim Sandecker (William H. Macy) que os apoia reticente nessa empreitada, mas quis o destino que cruzasse os seus caminhos a doutora Eva Rojas (Cruz), uma bela pesquisadora que está estudando a origem de uma estranha epidemia que está se alastrando pelo continente africano. Claro que a origem deste mal estaria em Mali e com ligações com o tal navio misterioso, no entanto, o ditador local, o General Kazim (Lennie James), não quer que a notícia se espalhe e prontamente recruta soldados para impedir a cientista. Ganha um doce quem descobrir quem a salvará. O pior é que a previsibilidade não se reserva apenas ao final, mas toda a narrativa é certinha demais, tudo se encaixa perfeitamente. Quando duas pessoas com objetivos opostos, mas com interesses de ir a um mesmo local, coincidentemente iriam se encontrar em um momento oportuno e em pleno oceano? Em nome da diversão, acatamos as soluções esquemáticas. Sem elas não teria filme, não é?

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A OUTRA FACE DA RAIVA

NOTA 7,0

Talento e carisma do elenco são
essenciais para prender atenção em

filme que mescla drama e humor para
contar história simples, mas envolvente
É repetitivo dizer que devemos encarar nossos erros e frustrações tentando tirar algum saldo positivo, aquele velho ditado que diz que o não te mata te fortalece. Isso é o que as pessoas mais velhas sabiamente chamam de experiência de vida, mas a maioria não se dá conta que as decepções e até mesmo os momentos de triunfo não influem em nossas vidas apenas no futuro, mas atuam diariamente na construção do caráter e personalidade de todo ser humano. Às vezes é preciso que filmes como A Outra Face da Raiva nos lembre ou nos faça tomar consciência disso, um bom exemplo que se encaixa na linha de obras que abordam problemas familiares ou a volta por cima de um desacreditado. O filme dirigido e roteirizado por Mike Binder tem uma introdução que atrelada à narração em off já deixa o final revelado para quem tem um mínimo de cultura cinematográfica, mas o segredo da produção é cativar o espectador para convidá-lo a vivenciar os fatos que culminaram nesta cena. Três anos antes do funeral do patriarca dos Wolfmeyer, sua esposa Terry (Joan Allen) mudou seu comportamento radicalmente. Antes considerada a pessoa mais doce do mundo por suas filhas, ela tornou-se uma mulher triste e amarga desde que descobriu que o marido a traía com a secretária, mas piorou muito depois que foi abandonada repentinamente por ele. Sempre em posição defensiva, ela sabe que agora terá o difícil desafio de criar suas quatro filhas, embora já sejam bem crescidinhas, mas cada uma com seus problemas particulares a resolver. A narradora da história é Popeye (Evan Rachel Wood), a mais jovem e a que parece se compadecer mais com a situação da mãe, porém, fica perturbada quando se apaixona por um colega de escola mesmo tendo dúvidas sobre sua sexualidade; Hadley (Alicia Witt) é a mais velha e embora não more mais com a família culpa Terry pela fuga do pai, ainda mais agora que está com os hormônios a flor da pele devido a uma gravidez inesperada; Emily (Keri Russell) sonha em ser bailarina, mas seu futuro pode estar comprometido por conta de uma grave doença; e, por fim, Andy (Erika Christensen) deseja ser jornalista e acaba se envolvendo com seu patrão alguns anos mais velho. Para aguentar tantos problemas, Terry acaba se entregando ao vício do alcoolismo que a leva a se tornar uma pessoa sempre a beira de um ataque de nervos e desleixada.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

ADORAÇÃO

NOTA 6,0

Proposta relativamente simples de
discutir o terrorismo através de um
drama familiar acaba tornando-se
complexa pelos exageros do diretor
Estranho, tedioso, vazio ou confuso. Realmente quem assistir uma única vez o filme Adoração não terá muito subsídios para rotular este drama de forma positiva. O público em geral nem deve se interessar pela temática, até porque não há atores renomados no elenco. No entanto os cinéfilos e adeptos de cinema alternativo devem ficar tentados a realizar um repeteco para avaliar melhor a produção já que o diretor e roteirista é Atom Egoyan, famoso nos anos 90 por Exótica e O Doce Amanhã. Natural do Egito, este profissional radicado no Canadá vem construindo uma carreira relativamente de sucesso e a maioria de suas obras trazem uma espécie de assinatura através de elementos em comum: a atmosfera introspectiva para contar histórias que procuram traçar paralelos entre tragédias coletivas e dramas particulares, tramas que irremediavelmente exigem atenção redobrada do espectador. É uma pena que até uma segunda avaliação neste caso não deve trazer um saldo muito positivo. A melhor forma de se julgar um filme é tentando recontar em detalhes sua trama. Quando não é fácil fazer isso significa que o filme tem problemas ou não te envolveu satisfatoriamente. As duas opções justificam as dificuldades para escrever uma crítica a respeito deste trabalho de Egoyam. Ao mesmo tempo em que tem muito conteúdo a oferecer, faz isso de forma que no fundo parece não ter nada a dizer, apenas alimentar o ego de deslumbrados cinéfilos que acreditam que mencionar que viu o filme de um cineasta renomado ou participante de festivais possa rotulá-los como mentes privilegiadas. A obra em questão não foge a regra do manual de trabalho de Egoyan e conta uma história sobre intolerância a cultura muçulmana atrelada a um problema familiar, todavia, o que fica mais em evidência é discutir os limites entre a realidade e a ficção, principalmente em tempos de tecnologia comandando os rumos e a velocidade da comunicação.  Simon (Devon Bostick) é um jovem estudante que lê para seus colegas de classe uma redação na qual aborda um assunto relacionado ao passado de seus pais, algo envolvendo um ato terrorista. A atividade fazia parte da aula de francês de Sabine (Arsinée Khanjian), uma libanesa que também é professora de teatro e que contou a tal história primeiro com o intuito dos alunos a reescreverem com as suas próprias palavras. Há cerca de 18 anos atrás um árabe teria usado a própria esposa grávida em um plano para explodir um avião que seguia para Israel, porém, o artefato não chegou a funcionar e o bebê nasceu.

terça-feira, 20 de maio de 2014

TUDO POR VOCÊ

NOTA 6,5

Equilibrando-se entre o drama
e a comédia, longa tem uma
bela história, mas demora um pouco
para seus objetivos serem revelados
Cinebiografias costumam chamar atenção devido ao apelo de serem baseada em fatos verídicos, mas se o homenageado não é muito famoso, o ostracismo é praticamente o destino certo da fita, ainda mais quando não há nada no material publicitário e nem mesmo no enredo que deixe claras as intenções da produção. Tudo por Você se encaixa nessa definição. Com um título desses e elenco encabeçado por Renée Zellweger, nada mais natural que o espectador julgar ser mais uma comédia romântica açucarada, mas quem se arrisca a assistir este filme pode ter uma surpresa, positiva ou negativa, depende do ponto de vista. Escrito por Charlie Peters, o roteiro começa de uma maneira estranha. Em 1953, um jovem de apenas 15 anos, muito bem apessoado e com roupas bem alinhadas, está em uma loja de automóveis pretendo adquirir um Cadillac e prometendo pagamento a vista em dinheiro. Os vendedores muito desconfiados logo começam a lhe fazer perguntas, assim o menino procura resumir os fatos que o levaram até aquele momento levemente constrangedor. Ele é George Devereaux (Logan Lerman), que em seus pensamentos posteriores conclui que deveria ter saído da concessionária assim que recebeu o primeiro chamado de atenção de um dos atendentes por tocar no carro, quem sabe assim ele não teria a memória de tantas frustrações. Em um flashback rápido ficamos conhecendo um pouco sobre sua família. Ele é filho de Dan (Kevin Bacon), um músico de razoável fama, mas que se sustenta com um único sucesso de sua autoria, a canção “My One and Only” que também é o título original do filme. Ele sempre deu tudo de bom e do melhor para a esposa, Anne (Zellweger), uma mulher deslumbrada e deslocada do mundo real. Talvez essa fosse mesmo a intenção do marido. Oferecendo um padrão de vida elevado ele enrolava a mulher para que ela não descobrisse suas traições, mas eis que um dia ele foi flagrado com outra e, pior ainda, na própria cama do casal. Anne desce do salto, discute e decide sair de casa, provavelmente já desconfiava da infidelidade do companheiro. Vai ao banco resgatar algum dinheiro e suas joias e parte para buscar os filhos na escola e colocar o pé na estrada com o tal carro que George estava comprando. Tudo isso é apresentado em cerca de dez minutos de filme, afinal o que está em discussão é o que Anne fará de sua vida agora que está separada.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A COR DE UM CRIME

NOTA 5,0

Suspense começa intrigante,
mas logo se torna previsível e
desperdiça um bom pano de fundo a
ser discutido: o preconceito racial
Todo mundo sabe que o racismo é um problema social universal, mas chama a atenção que em alguns países chegam a existir bairros exclusivamente habitados por negros e os papéis se invertem. Uma pessoa branca nos arredores é sinal de encrenca. É essa guerra travada entre humanos que se distinguem pela cor da pele e que são separados geograficamente por algum elemento urbano, tal qual um muro ou uma linha de trem, o grande foco de discussão do suspense A Cor de um Crime. Ou melhor, deveria ser. A trama começa em uma noite qualquer do mês de maio em 1999 e tem como palco principal o residencial Armstrong localizado em um subúrbio de Nova Jersey nos EUA. Brenda Martin (Julianne Moore) chega ao hospital com as mãos ensanguentadas e desesperada, é atendida pela equipe médica, mas ainda está em estado de choque quando recebe a visita do detetive Lorenzo Council (Samuel L. Jackson) a quem passa a relatar o que lhe aconteceu. Ela afirma que estava nos arredores do tal condomínio quando foi surpreendida por um homem negro que a arrastou violentamente para fora do carro e levou o veículo. Ela não chegou a ser estuprada e nem teve outros pertences roubados, assim o investigador fica desconfiado do porquê de tanto desespero, ainda mais por ela fazer questão de que um detetive de sua confiança seja chamado para tratar do caso. Council conhece bem os moradores e os problemas do bairro, é visto como uma espécie de autoridade a qual a maioria respeita e pede auxílio quando necessário, e sabe que um caso desses pode trazer a tona sérios problemas relacionados ao preconceito racial, mas não tem como tentar fugir da raia quando algumas horas depois da primeira conversa Brenda revela que sua preocupação pelo roubo do carro é porque seu filho Cody de apenas seis anos estava no banco traseiro. A situação fica ainda mais complicada porque a pessoa que ela deseja que leve adiante as investigações é seu próprio irmão, Danny Martin (Ron Eldard), um policial metido a valentão que vê o caso como uma afronta pessoal e consegue criar um cerco em torno de Armstrong de forma que os moradores ficam com restrições para entrar e sair do local enquanto o sobrinho não fosse encontrado. É óbvio que os habitantes se revoltam e encaram a decisão não como uma precaução, mas sim como uma atitude preconceituosa.

domingo, 18 de maio de 2014

O URSO

Nota 7,5 Amizade entre ursos traz belas lições para os humanos em filme emocionante e atípico

Após presenciar a trágica morte de sua mãe, um pequeno órfão é obrigado a lutar sozinho por sua sobrevivência em um ambiente hostil, mas após alguns momentos de dificuldade acaba encontrando alguém que poderia lhe estender a mão, embora também estivesse em apuros e fosse um tanto ranzinza e introspectivo. Ajudando um ao outro, nasce uma grande amizade que os ensinará importantes lições a respeito de convivência e tolerância. Belo enredo, porém, clichê demais. Bem, não é repetitivo se estamos nos referindo ao filme O Urso, produção francesa datada do final dos anos 80 que ainda mantém seu poder de cativar, praticamente como a tão batida convivência entre o homem e o cachorro, mas o roteiro de Gerard Brach é bem mais profundo. Baseado no livro “The Grizzly Bear”, escrito em 1916 pelo naturalista americano James Oliver Curwood, a trama tem como personagem principal Youk, um precoce e corajoso ursinho que depois de ver sua mãe sendo morta por caçadores teve que aprender na marra a sobreviver na floresta fugindo das armas de fogo do homem e de outros animais predadores, além de vencer os obstáculos da natureza como a aridez dos rochedos e a força das águas dos rios. Em meio aos perigos o bichinho encontra Kaar, um grande urso solitário que, mesmo contratriando seus instintos, o ajuda a enfrentar os obstáculos. Tchéky Karyo e Jack Wallace, respectivamente como os caçadores Tom e Bill, são os únicos humanos da fita que conta com um mínimo de diálogos, assim exigindo atenção redobrada do espectador que deve estar preparado para um legítimo programa alternativo, mas que pode ser apreciado por qualquer um desde que não esteja preocupado com a pipoca ou com o telefone que pode tocar de repente. Para curtir esta obra realmente você deve esquecer o mundo em que vive e procurar se concentrar para se sentir um personagem onipresente. Para tanto, o diretor Jean-Jacques Annaud, dos cultuados O Nome da Rosa e Sete Anos no Tibet, não mediu esforços para dar alma ao seu filme e não deixá-lo parecendo um documentário a respeito da vida dos ursos. A recompensa foram alguns prêmios europeus, como o César de Melhor Filme, e até uma indicação ao Oscar de montagem, mas o tempo foi implacável com a obra.

sábado, 17 de maio de 2014

LOUCOS DE AMOR (2005)

Nota 6,5 Protagonizado por casal de autistas, filme poderia ter situações mais bem exploradas

Se as relações amorosas entre pessoas totalmente sadias já são complicadas imagine como deve ser para um autista viver tais experiências. É esse ponto de vista que salva a comédia romântica Loucos de Amor da mesmice. O roteiro de Ron Bass, vencedor do Oscar por Rain Man, começa nos apresentando à Donald Morton (Josh Harnett), um jovem motorista de táxi que é aparentemente sem noção e azarado. Muito tagarela, ele se distrai facilmente e constantemente bate o carro, assim ele já passou por praticamente todas as empresas de táxi de sua cidade, mas ele não é um bobalhão, pelo contrário, é muito inteligente e tem uma espantosa habilidade para lidar com números e se comunicar com pássaros. Ele sofre da Síndrome de Asperger, um problema relacionado ao autismo, mas que se diferencia pelas dificuldades de interação social e apreço por rotinas. Sentindo-se um estranho no mundo, o jovem só fica a vontade quando está junto de outras pessoas com perturbações semelhantes, assim frequenta rotineiramente um grupo de apoio a deficientes e nele conhece Isabelle Sorenson (Radha Mitchell), uma moça que desde criança procura lidar com seus problemas de maneira positiva, vendo com bons olhos até mesmo o fato de muitos homens a terem assediado quando era adolescente, assim ela se sentia importante para alguém. A primeira conversa dos jovens é literalmente coisa de doido, mas por fim acabam se acertando afinal de contas nenhum deles sabia como se comportar em um primeiro encontro, ainda mais quando fica no ar um clima de romance. O problema é que ela é feliz, consciente de suas limitações e muita agitada enquanto ele é mais fechado, metódico e não lida bem com sua síndrome. Em comum, são amantes dos bichos e compactuam em tentar viver esse amor, mas para isso um deles terá que ceder ao estilo de vida do companheiro ou terão que achar o equilíbrio entre a alegria exagerada de um e a melancolia inquietante do outro.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

MORTO EM 03 DIAS

NOTA 7,0

Produção austríaca investe
no terror adolescente, mas
surpreende com uma bem-vinda
reviravolta e narrativa envolvente
Os filmes de horror teen bombaram nos anos 80 com os vilões das séries Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, ambos que surgiram na esteira do sucesso Halloween. Também começaram a surgir fitas similares e medonhas para abastecer o comércio do home vídeo e o resultado foi a saturação do subgênero. Em 1996, Pânico resgatou a fórmula do serial killer que caça jovens, geralmente bem apessoados e populares, mas mais uma vez filmes semelhantes foram surgindo aos montes e a receita desandou tornando-se cada mais previsível. E o pior: os assassinos passaram a agir por motivos idiotas e suas vítimas adolescentes mais babacas e salientes que de costume, o que acaba levando o público a vibrar com suas merecidas mortes. É uma pena que algumas boas produções cujas premissas sejam semelhantes acabam sendo desprezadas pagando pelo erro de suas antecessoras como é o caso de Morto em 03 Dias, que só pelo fato de ser uma fita de terror austríaca já merecia algum crédito por conta da curiosidade. Conhecemos a cartilha dos filmes de horror americanos de trás para frente e até da filmografia oriental do gênero, mas o estilo europeu de fazer esse tipo de cinema ainda não tem um modelo definido. Com direção de Andreas Prochaska, que também assina o roteiro com Thomas Baum, a obra começa apontando caminhos previsíveis, ou melhor, quase isso. Durante os créditos iniciais, vemos um homem se enforcando e em seguida uma jovem ferida pedindo ajuda em meio a um matagal. Desconexo? Está claro que a intenção é deixar o espectador ligado, colocá-lo para caçar pistas que possam ser vinculadas com as primeiras imagens, mas a trama começa mesmo recapitulando fatos de quatro dias antes quando um grupo de jovens está entretido com as apresentações de trabalhos de conclusão de curso da universidade. Em breves diálogos, já vamos definindo a personalidade de cada um dos personagens que nos próximos minutos serão vítimas de mortes violentas, quem sobreviverá é a incógnita. Bem, sabemos que a destemida e justa protagonista Nina (Sabrina Reiter) vai sofrer o pão que o Diabo amassou, mas sua sobrevivência está garantida, afinal sua morte seria uma ousadia muito grande. Botamos fé na renovação do subgênero dos slashers, mas...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

MALDITA SORTE

NOTA 3,0

Abusando de cenas apelativas
e sem graça, comédia 
desperdiça
boa premissa e nem o casal
principal desperta interesse
Quando um filme é lançado em DVD, no verso existe um pequeno quadrado com um numeral e algumas palavras escritas com letras bem pequenas. Esse é o informativo quanto a classificação indicativa relacionando os motivos das inadequações do filme para determinada faixa etária. O mesmo esquema serve para orientar os cinemas que devem barrar clientes menores de idade que estejam desacompanhados para assistir filmes proibidos para sua condição. Na teoria tudo é bem esquematizado, mas na prática é uma grande bobagem que só chega a ser aplicada quando o filme é indicado a maiores de 18 anos. A classificação existe em todo o mundo, sendo que cada país adota seus parâmetros individuais para aplicá-las, mas o mesmo deveria ser feito fiscalizando os próprios bastidores dos filmes. Quer coisa mais constrangedora que uma produção com temática adulta contar com elenco mirim? É logo na introdução que Maldita Sorte mostra a que veio e faz o espectador mais consciente perder o interesse rapidamente. A trama redigida por Josh Stolberg começa em 1985 mostrando uma típica e caseira reunião de pré-adolescentes aparentemente inocentes, no entanto, o passatempo deles é uma brincadeira “educativa” com uma garrafa que é girada de forma que um dos lados aponte para um garoto e o outro seja direcionado a uma menina. Os felizardos dos “sete minutos no paraíso” devem passar esse tempo trancados em um armário onde tudo pode acontecer. Por mais que os diálogos tentem nos fazer crer que os personagens mal sabem o que estão fazendo (me engana que eu gosto!) a cena poderia ter o mesmo efeito se realizada com mais cautela. Bastava mostrar que quis o destino que um dos garotos fosse contemplado a se juntar com a esquisitinha da turma, porém, periguete. O visual gótico da menina já deixaria implícita a repulsa do contemplado que ainda enfatizaria sua reação com uma careta e em resposta ela lançaria a maldição de que toda a mulher com quem ele se relacionasse amorosamente iria logo em seguida abandoná-lo e casar com o próximo homem com quem ficasse. Simples assim, mas tiveram o mal gosto de praticamente colocar a garota implorando para ser estuprada ou fazer o mesmo com o virgenzinho. Tal sequência não coloca os atores jovens ligados diretamente com o que vem a seguir, mas qual criança que teve a chance de atuar no cinema não ia querer ver o resultado? Melhor que seus pais tenham as proibido. O restante da história tem um ou outro momento divertido e sem apelações, porém, o conjunto faz o filme de estreia do diretor Mark Helfrich parecer um pornô-soft-picante.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

GOMORRA

NOTA 7,0

Procurando desmistificar a
imagem de glamour em torno da
máfia, longa abusa do realismo e não
envolve o espectador completamente
Gangue ou máfia? Qual o melhor termo para se referir ao grupo de pessoas ligadas ao crime organizado? Bem, as duas caem muito bem, mas dependendo do nível cultural e financeiro dos envolvidos apenas uma é a melhor escolha. Quando falamos em facções criminosas no Brasil dificilmente nos vem a cabeça a imagem de engravatados, mas sim de marginais que sonham com roupas da moda e correntes gigantes de ouro penduradas no pescoço, mas se falarmos por exemplo em bandidos italianos logo resgatamos as lembranças dos criminosos elegantes do clã protagonista de O Poderoso Chefão, longa que ajudou a dar certo glamour aos inescrupulosos foras-da-lei. No entanto, há tempos e no mundo todo, criminosos que ouvem ópera e fumam charutos dividem o cenário da criminalidade com bandidos pé-de-chinelo adeptos de drogas e música popular. Enquanto a elite dá ordens a ralé tenta cumprir tudo direitinho sonhando inocentemente com o dia em que serão promovidos, pena que quando estão no limite dos esforços também estão prestes a terem suas vidas interrompidas por acertos com a Lei ou com os próprios criminosos. O filme Gomorra aborda justamente isso: como o mundo do crime tem poder de persuasão, a sedução do dinheiro fácil que cega novos adeptos que pedem para entrar nesse perigoso universo como se pedissem emprego em uma vendinha na esquina. Mal sabem alguns no que estão se metendo. O título é um trocadilho com uma conhecida figura de escrituras católicas, um Deus que propagava a ideia de que a destruição é uma obra do próprio ser humano. Entrelaçando algumas histórias de pessoas envolvidas de forma direta ou indiretamente com a Camorra, nome dado a máfia da cidade de Nápoles, na Itália, o longa mostra como a organização incentiva a degradação do homem e consequentemente de tudo que o cerca em busca de poder e riquezas. A obra ganhou repercussão internacional e chegou a ser considerado a versão italiana do nosso Cidade de Deus, mas com o acréscimo de mais violência. O roteiro do jornalista Roberto Saviano (dividindo o crédito na função com outros cinco autores) é uma adaptação do livro homônimo de sua própria autoria no qual se baseou em uma série de entrevistas com cidadãos napolitanos e em suas próprias experiências infiltrado na máfia local. A obra vendeu milhares de exemplares na Europa e irritou os mafiosos, obrigando o autor a viver durante um bom tempo sob proteção policial. Com relatos tão verídicos em mãos, não é a toa que o filme soa realista demais, chegando a algumas passagens fazerem o espectador se sentir mal diante de tanta crueldade. É preciso ter estômago, sem dúvida, mas também atenção para não perder o fio da meada.

terça-feira, 13 de maio de 2014

HABITANTES DA ESCURIDÃO

NOTA 2,0

Mesmo com premissa interessante,
longa não consegue conexão
com espectador com sua trama
enfadonha e clichês bobocas
O diretor Wes Craven marcou os anos 80 com a série A Hora do Pesadelo e na década seguinte iniciou outra franquia de sucesso, Pânico. Antes destes lançamentos, também criou pequenos clássicos do suspense e terror como Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos e até surpreendeu anos mais tarde com uma inversão de expectativas quanto ao conteúdo de A Maldição dos Mortos-Vivos. Não é a toa que é chamado de mestre do terror, porém, os últimos anos não tem sido bons para este profissional que também é roteirista, ator e produtor. Aliás, esta última denominação tem sida usada com muita frequência para fins de publicidades de filmes de terror menores e de cineastas pouco conhecidos. Já com mais de 70 anos de idade, Craven sabe o legado que deixará e, embora ainda mantenha-se ativo no meio cinematográfico, está apadrinhando a nova geração do horror produzindo seus filmes e de quebra lhes garantindo um mínimo de publicidade graças ao seu nome atrelado aos projetos. Pena que nem sempre uma grife é garantia de qualidade como prova Habitantes da Escuridão, do diretor Robert Harmon. Bem, este não é um trabalho de um cineasta em início de carreira, pelo contrário, ele logo na estreia em 1986, com A Morte Perde Carona, conseguiu gerar um interessante burburinho em torno de seu trabalho, mas sua carreira não vingou como a do colega produtor. A união dos dois poderia resultar em algo bom, mas este suspense está longe de ser memorável, sendo apenas um passatempo para aficionados pelo gênero quando já não tem mais o que assistir ou para plateias adolescentes que estão começando a ter contato com o cinema e ainda não estão totalmente familiarizados com clichês. Todavia, a premissa é instigante prometendo que o enredo será desenvolvido em cima de uma fobia muito comum: o medo do escuro. O que existe nele de tão ameaçador? Por que alguns adultos não conseguem perder o velho hábito de dormir com uma luminária acesa? Logo na introdução, durante uma noite chuvosa, temos um garotinho com medo de dormir no escuro, sua mãe tenta tranquiliza-lo, mas algo inexplicável acontece em seu quarto assim que a escuridão toma conta. Billy Parks (Jon Abrahams) cresceu atormentado por este e outros episódio semelhantes e apesar de ter pouco tempo de cena é seu drama que serve de fio condutor da narrativa.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

ENCONTROS E DESENCONTROS (2003)

NOTA 9,0

Sem apelar para clichês, longa
se sustenta em cima de situações
corriqueiras engrandecidas por
interpretações emotivas e sinceras
Filho de peixe, peixinho é. Tal ditado popular cai como uma luva para muitos profissionais que passaram aos herdeiros o talento e o amor pelas carreiras que os consagraram. No meio artístico isso é muito comum e Sofia Coppola não nega o provérbio. Filha do cultuado Francis Ford Coppola, o responsável pelos três filmes da série O Poderoso Chefão, ela até tentou fugir um pouco da sombra do pai, mas não conseguiu se desgarrar totalmente. Ela arriscou a carreira de atriz fazendo seu debout no último filme da famosa trilogia do papai, mas foi extremamente criticada e por anos seu nome sumiu da mídia, até que em 1999 ele voltou a ser destacado com sua elogiada estreia como diretora em As Virgens Suicidas. Poderia ser apenas um golpe de sorte de uma mulher que teria que ralar muito para ser respeitada no meio cinematográfico, mas seu segundo projeto, Encontros e Desencontros, veio para provar que talento e vocação estão em seu sangue. Neste trabalho ela mostra que o amadurecimento e a cautela foram essenciais já que quatro anos separam os dois filmes. Neste tempo que ficou em off, Sofia deve ter passado horas diárias refletindo sobre sentimentos e contrastes, assim esta obra não nasceu hermética a um gênero específico. A vida, as pessoas, o mundo são feitos de diferenças e as variações podem acontecer em um estalar de dedos e este roteiro, escrito por ela própria, tem um pouco de tudo. Drama, romance e um sutil humor se misturam e até um leve suspense pode ser levado em consideração visto que os protagonistas se encontram em um país completamente diferente e não sabem o que os espera. Bob Harris (Bill Murray) é um ex-astro do cinema americano que está em Tóquio para fazer um comercial de uísque aproveitando os últimos suspiros de sua carreira. Frustrado com os rumos da sua vida profissional e ainda tendo que lidar com um casamento em crise, mesmo assim ele é dotado de senso de humor. No mesmo hotel em que está hospedado ele conhece Charlotte (Scarlett Johansson), também norte-americana e que está acompanhando John (Giovanni Ribisi), seu marido, um fotógrafo que está viajando a trabalho e a deixa sozinha o tempo todo, assim ela está deprimida. O fuso horário diferenciado acaba fazendo com que os dois sofram de insônia e eles se encontram no bar do hotel por acaso e imediatamente surge uma empatia mútua, mas engana-se quem pensa que a partir de então uma previsível história de amor será desenvolvida.

domingo, 11 de maio de 2014

O RETORNO DE BLOODWORTH

Nota 4,0 Com narrativa superficial, ritmo lento e falhas, é difícil ser cativado pelos Bloodworth

Dramas acerca de famílias problemáticas são corriqueiros no cinema americano, embora a maioria não se torne sucesso devido a repetições de temas e até mesmo de papéis semelhantes. Produções do tipo tem o objetivo de contar histórias com as quais o espectador consiga se identificar facilmente, pelo menos se envolva com o dilema de um ou outro personagem, mas esse não é o caso de O Retorno de Bloodworth, e o desinteresse começa já pelo título que pode erroneamente evocar um filme de terror ou algo assim. Bem, não chega a ser uma sensação de pavor a volta de E. F. Bloodworth (Kris Kristofferson), mas tal notícia mexe com os ânimos de seus familiares. Depois de 40 anos de ausência, ele escreve uma carta dizendo que está retornando, mas Julia (Frances Conroy), a esposa que abandonou com os três filhos pequenos, nem fica sabendo. Brady (W. Earl Brown - também autor do roteiro) não revela a mãe, mas procura os irmãos Warren (Val Kilmer) e Boyd (Dwigh Yoakam) para saber suas opiniões, pois ele tem certeza de que o pai só está voltando porque já está velho e deseja esperar a morte apoiando-se naqueles que renegou. Contudo, cada um destes homens está as voltas com seus próprios problemas. Warren é um boa vida que só pensa em bebidas, diversão e mulheres, assim vira e mexe está metido em alguma confusão. Enquanto isso, Boyd se preocupa em perseguir a ex-mulher e quer afastá-la de um suposto novo namorado. Já Brady foi o único que não saiu da casa da mãe e guarda mágoas por ter acompanhado de perto o envelhecimento e a tristeza dela, o que pode ter influenciado seu desequilíbrio mental, sendo que é conhecido por lançar feitiços contra seus inimigos. O único que parece se importar com o retorno de Bloodworth é o jovem Fleming (Reece Daniel Thompson), filho de Boyd e único neto do homem que partiu para a cidade grande em busca do sonho de viver de música. Por coincidência, é justamente com o rapaz que o velho pega carona assim que chega em sua cidade natal, um canto qualquer e esquecido do Tennessee. Ele nunca chegou a conhecer o neto, mas de certa forma desconfiava que poderia ser o rapaz gentil que o ajudou, este que não se mostra surpreso ou emocionado ao saber quem o caroneiro era.

sábado, 10 de maio de 2014

THE POET - ASSASSINO DE ALUGUEL

Nota 7,0 Embora previsível, suspense prende atenção com trama bem amarrada e verniz cult

Muito se reclama que comédias românticas, filmes envolvendo o mundo dos esportes e produções sobre seriais killers têm uma cartilha padrão a ser seguida para funcionarem, mas o estilo regrado também se estende a outros subgêneros. Os assassinos de aluguel também estão ficando estereotipados e vivendo situações engessadas. Precisam esconder suas verdadeiras identidades, mostram-se frios, inteligentes, mas tem sempre um momento em suas carreiras que algo dá errado em algum serviço e isso faz com que eles se aproximem de suas vítimas, repensem suas vidas e clamem pela redenção. The Poet – Assassino de Aluguel não foge a regra, mas mesmo assim consegue entreter com um enredo bem construído e envolvente, embora totalmente esquematizado para chegar a um final previsível. No roteiro de Barbara Jago e Robert Hammond, René Bonnard (Dougray Scott) está em Viena para mais uma missão.  Ele deve assassinar Jörg Hoogezahl (Peter Moucka), um empresário que ajudou a desviar milhões de euros de um fundo de beneficência para crianças carentes, mas para alguém o querer morto deve ser porque ele está envolvido em muitos outros crimes. Usando como álibi a desculpa de estar procurando uma sala para instalar o escritório de uma multinacional na cidade, o assassino consegue o local perfeito para atirar do alto de um prédio em seu alvo quando este estaria prestes a ir a julgamento. Era atirar e dar no pé, porém, na hora que aperta o gatilho ele é surpreendido por Rick Stern (Andrew Lee Polls), um jovem fotógrafo que estava no prédio para dar uma entrevista a uma jornalista, mas teve o azar de errar de sala e acaba também sendo morto por Bonnard que não poderia confiar no silêncio da testemunha. Perturbado com o que aconteceu, o criminoso decide ir à exposição que a vítima inocente inauguraria a noite para descobrir quem ele era e acaba conhecendo Paula (Laura Elena Harring), irmã do fotógrafo que a usava como modelo para suas criações que tinham como mórbido tema a morte, ou melhor, impactar as pessoas com imagens que as levariam a refletir sobre suas vidas. Pena que esse estranho gancho não traga nada de relevante à trama.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

DOGMA DO AMOR

NOTA 2,0

Mescla de drama, suspense e
ficção científica para no fundo
contar uma história de amor
soa bizarra e enfadonha
Dogma 95 foi um movimento cinematográfico que não resistiu muito tempo. Os jovens, criativos e sufocados cineastas que o fundaram tinham a proposta de realizar um cinema mais realista e cru, abandonando praticamente todos os artifícios cinematográficos em nome da arte pura. O resultado eram filmes preocupados com o conteúdo e com estética semelhante a de filmes caseiros, mas pouco a pouco apenas os conceitos estéticos rústicos poderiam ser elogiados, pois as narrativas não conseguiam mais superar o impacto dos primeiros filmes sob essas regras. O dinamarquês Thomas Vinterberg faz parte da mesma turminha da qual despontou Lars Von Trier, mas mesmo com todo o sucesso de Festa de Família ele jamais alcançou o mesmo status do colega que logo se esqueceu dos conceitos de cinema que defendia e ficou famoso com obras tão polêmicas quanto suas declarações e atitudes em eventos. O segundo trabalho de Vinterberg rompe totalmente com o movimento que o lançou, pois fica claro que é uma produção requintada e que usou e abusou de tudo aquilo que antes era considerado apenas como firulas (entenda-se como recursos técnicos) para escamotear a falta de conteúdo.  Lançado quando o Dogma 95 já havia se tornado um capítulo encerrado, “It’s All About Love” (tudo a respeito do amor) ganhou no Brasil o oportunista título Dogma do Amor, um claro chamariz para os cinéfilos alternativos, mas a produção queria arrebatar novas plateias, ainda que a narrativa fosse estranha. Curiosamente, o filme não agradou a gregos e nem a romanos. Simplesmente foi massacrada pela crítica especializada e nem as plateias cults foram seduzidas. O descaso é totalmente justificável, mas não exatamente pelo fato do diretor aderir ao cinema-espetáculo.  A trama, escrita por ele mesmo, é o grande calcanhar de Aquiles. Em 2021 o mundo está um verdadeiro caos. A falta de amor e a solidão tornaram-se grandes problemas da humanidade e diariamente centenas de pessoas em todos os cantos do mundo estão literalmente caindo mortas por conta de um estranho problema no coração. Áreas que costumeiramente sofriam com altas temperaturas, agora vivem sob temperaturas negativas e na TV os noticiários informam que na Uganda pessoas estão morrendo por conta de acidentes causados pelo estranho fenômeno de falha da gravidade que leva os habitantes a flutuar. Em meio a estas situações bizarras, o escritor John (Joaquin Phoenix) está vindo da Polônia para Nova York para reencontrar a esposa, Elena (Claire Danes), uma patinadora artística de sucesso.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

ALEX E EMMA

NOTA 5,5

Longa conta duas histórias de
amor paralelas, mas nenhuma
delas cativa ou diverte por completo,
mesmo assim é uma opção razoável
Toda comédia romântica precisa de alguns ingredientes básicos para funcionar. Um par romântico bonito e simpático, um punhado de cenas cômicas, algumas situações que atrapalhem o casal protagonista momentaneamente e um final feliz. A fórmula mágica usada e abusada geralmente tem seu público cativo que ajuda na manutenção do caixa deste gênero e banca futura produções semelhantes, mas tem diretor que ainda tem a boa vontade de tentar fazer algo diferente sem fugir muito do tradicional. No caso de Alex e Emma o diretor Rob Reiner, de Harry e Sally – Feitos um Para o Outro e Sintonia de Amor, um especialista em comédias românticas, adotou como elemento surpresa contar duas histórias de amor, uma dentro da outra. O roteiro de Jeremy Leven nos apresenta ao escritor Alex Sheldon (Luke Wilson) que está sendo ameaçado por agiotas cubanos que cobram uma grande quantia que lhe emprestaram para que ele pudesse torrar tudo em uma corrida de cães (!) em que ele perdeu absolutamente tudo. Depois de sofrer ameaças, o romancista resolve recorrer ao seu editor para pedir um adiantamento por conta de um livro que está lhe devendo, mas o pedido é negado já que ele ganhou uma graninha antes como incentivo e também gastou tudo tentando agradar uma garota que lhe deu um fora. De qualquer forma, ele terá trinta dias para entregar o manuscrito e assim receber exatamente a mesma quantia que está devendo aos mafiosos que concordam em esperar mais um tempo, porém, um dia de atraso e ele pode se considerar um homem morto. Tudo poderia ser resolvido com o prazo extra, mas o problema é que Sheldon está sofrendo um bloqueio criativo, ou melhor, sob pressão não conseguiria criar um história e redigi-la ao mesmo tempo, assim ele tem a ideia de colocar um anúncio falso em um jornal requisitando os serviços de algum profissional da área de advocacia, tudo para usufruir de sua experiência com taquigrafia, a transcrição de diálogos em tempo real. Bem, qualquer desocupado poderia fazer isso em troca de uma merreca, mas se fosse fácil assim não haveria filme. Emma Dinsmore (Kate Hudson) é atraída para esta armadilha e obviamente se enfurece quando descobre que foi enganada por um escritor desconhecido e que teria que trabalhar por horas seguidas em um pequeno e decadente apartamento de um solteirão desligado. Após um breve tempo para pensar, Emma aceita o trabalho mediante a um bom pagamento (endividado até o pescoço, sabe-se lá como o escritor iria ressarcir a moça).

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O RETRATO DE DORIAN GRAY (2009)

NOTA 7,0

Baseado em romance clássico,
longa deixa de lado o espírito
da obra original para investir em
suspense para atrair plateias jovens
O sonho da eterna juventude é uma utopia que atravessa séculos despertando discussões e fantasias, tanto que é um argumento comumente utilizado no campo artístico-cultural, tendo inspirado desde as artes plásticas até o cinema, passando obviamente pela literatura e o teatro. O problema é que todos pensam nos aspectos positivos de ser jovem para sempre, mas poucos refletem a respeito das consequências negativas e do que é preciso compactuar ou abrir mão para ter tal dádiva. É esse olhar que temos em O Retrato de Dorian Gray, suspense de época baseado no romance homônimo do dramaturgo irlandês Oscar Wilde, famoso por contos que revelam lados sórdidos ou que criticam de forma bem humorada a burguesia de sua época. Aqui ele deixa os sarcasmos de lado para abordar de forma mais aterrorizante e dramática o culto a beleza. Ele teria profanado o pensamento de que todo autor em seu primeiro romance acaba se colocando como Cristo ou Fausto no lugar do personagem. Neste caso ele optou pela segunda opção. Adaptado até para humorísticos de televisão, todos já tiveram contato de alguma forma com a história do homem que vendeu sua alma ao Diabo em troca de reconquistar sua juventude para ganhar o amor de uma mulher. Aqui temos mais uma releitura deste argumento. O roteiro, assinado pelo estreante Toby Finlay, se passa na lúgubre Londres do século 19 e gira em torno de Dorian Gray (Ben Barnes), rapaz que herdou os bens e fortuna de um parente e agora quer se adaptar ao estilo de vida da alta sociedade inglesa. Logo em seu primeiro evento social, ele faz amizade com Basil Hallward (Ben Chaplin), um pintor que fica tão impressionado com os traços perfeitos do jovem que pede para ele posar para um de seus quadros. Estarrecido com a sua própria beleza na tela, Gray não resiste a força persuasiva de Lorde Henry Wotton (Colin Firth), um sujeito de caráter duvidoso e comportamento estranho que seduz o novo amigo a viver em busca da beleza eterna e do prazer sem limites. Tal convivência acaba levando-o a se afastar dos planos de constituir uma família e certo dia ele questiona se não haveria a possibilidade de trocar sua alma em troca da manutenção de sua juventude e beleza intactas para sempre. O pedido é aceito e o passar dos anos são sentidos por sua imagem no quadro que pouco a pouco vai absorvendo as marcas de expressões e até os ferimentos conquistados pelo rapaz que se aventura em orgias sexuais regadas a bebedeiras e com direito a masoquismo, afinal sofresse o que for sua pele sempre era regenerada e voltava à perfeição. Tais cenas não chegam a chocar, mas seria de bom tom apenas sugestioná-las.

terça-feira, 6 de maio de 2014

DESEJOS E TRAIÇÕES

NOTA 6,5

Reencontro de irmãos é um
prato cheio para explorar, mas
longa perde bons ganchos adotando
estrutura teatral que engessa a obra
Roteiros com temáticas que abordam famílias problemáticas são as matérias-primas preferidas dos cineastas independentes que encontram neles possibilidades de trabalharem com questões psicológicas ou simples fatos cotidianos sem a necessidade de se preocupar em criar finais apoteóticos ou situações impactantes. Quem curte esse tipo de produção já sabe o que vai encontrar. Geralmente são obras que deixam pontas soltas para instigar o espectador a refletir sobre os assuntos propostos, mas nem sempre eles acertam em cheio o seu emocional. Por exemplo, talvez quem é filho único e viveu cercado de mimos não se envolva com os conflitos apresentados em Desejos e Traições, drama basicamente estruturado na reunião de quatro irmãos que quando adultos veem a necessidade de tentar resolver assuntos do passado a partir de situações do presente que os colocam a debater ideias, comportamentos e sonhos desfeitos. O roteiro de Richard Alfieri baseia-se em uma peça de sua própria autoria, “The Sisters”, e tem como ponto de partida uma festa surpresa para Irene (Erika Christensen), a caçula da família Prior cuja trajetória gira em torno de uma conceituada universidade na qual o chefe do clã era um dos mais importantes professores que já passaram por lá e seu legado é levado adiante por alguns de seus alunos e admiradores. Mesmo já falecido a algum tempo, seus filhos tocaram suas vidas também mantendo ligações estreitas com a faculdade, todos se formaram lá em profissões distintas, assim os festejos do aniversário da moça irão acontecer em uma das salas da instituição, mas o ponto ápice da festa acontece antes mesmo de Irene chegar. Suas irmãs mais velhas não perdem a oportunidade de discutirem. Olga (Mary Stuart Masterson) é mais séria, solteira e assumiu um papel masculino na família após a morte do pai. Já Marcia (Maria Bello) é extrovertida, casada com o psicólogo Harry Glass (Steven Culp), também ex-aluno da universidade, mas tem o grave defeito de falar o que lhe vem a cabeça sem pensar nas consequências, assim vive trocando farpas com Olga, mas com a caçula estranhamente adotou uma postura protetora, assim Irene cresceu educada por falsos valores moralistas que acreditava serem herança da educação que o pai deixou aos outros filhos já que ela era muito novinha quando ele veio a falecer. Veremos mais a frente que o passado desta família tem seus segredos obscuros.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

LADRÃO DE SONHOS

NOTA 7,5

Bom argumento é desperdiçado
em produção cujo roteiro foi
construído em cima de belas,
oníricas e originais imagens
Cada país pode e deve produzir os mais variados estilos de filmes, mas sem querer um ou mais gêneros acabam se tornando a marca registrada do cinema local. Por exemplo, a cinematografia francesa é muito lembrada pelos romances com toques de sensualidade ou dramas que carregam na emoção ou na contemplação do silencio no lugar dos diálogos, mas garimpando sempre é possível encontrar algum tesouro esquecido nesta filmografia. Uma das obras mais destacadas dos últimos tempos do cinema francês foi O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, uma obra que rompe com estilos narrativos convencionais, além de apresentar inovações no processo de edição e o uso de muitas cores em seus cenários e paisagens. Dirigido por Jean-Pierre Jeunet, certamente o cineasta trouxe para este seu primeiro trabalho solo muito do que aprendeu trabalhando ao lado do diretor Marc Caro. Juntos eles revolucionaram a maneira de fazer filmes na França trabalhando com enredos e visuais criativos capazes de deixar até o excêntrico Tim Burton com inveja. Uma prova disso está em Ladrão de Sonhos, uma fábula infanto-juvenil com toques sombrios, mas ainda assim um tanto onírica. Este tipo de cinema que capta a atenção do espectador muito pelo visual se tornaria bastante popular nos anos seguintes, inclusive em solo americano, mas realmente fica difícil definir se o estilo de Burton influenciou os cineastas franceses neste caso ou se foram eles que inspiraram o gótico diretor em seus projetos futuros, lembrando que anos antes Caro e Jeunet já haviam chamado a atenção com a comédia de humor negro Delicatessen. Como sempre dito neste blog, imagem não é tudo e um bom enredo é preciso para sustentar uma produção. Você já imaginou o quanto desgastante e sem motivação seria a vida se não pudéssemos sonhar? É partindo dessa hipótese fantasiosa que os diretores em parceria com Gilles Adrien desenvolveram o roteiro cujo foco central é o sofrimento pelo qual passa Krank (Daniel Emilfork), um homem que envelheceu prematuramente e a cada dia sua própria face deixa transparecer que seu quadro só vem se agravando. Tal distúrbio ocorre pela incapacidade que ele tem de sonhar e, na tentativa de achar uma solução definitiva ou ao menos frear a rápida passagem de sua vida que não acompanha o tempo real, ele passa a sequestrar crianças para roubar seus sonhos através de uma invenção que criou.

domingo, 4 de maio de 2014

O CASAMENTO DOS MEUS SONHOS

Nota 3,0 Além de previsível, longa comete os pecados de não ser divertido e tampouco emociona

Sonia Braga há anos sobrevive nos EUA às custas de papéis para lá de secundários sempre que surge a necessidade de alguma personagem latina afinal seus traços étnicos denunciam suas origens. Contudo, algumas intérpretes tem mais sorte e transitam nos mais variados papéis sem que suas características físicas tornem-se empecilhos. Agora, a atriz porto-riquenha Jennifer Lopez viver uma descendente de italianos é um pouco duvidoso, mas seu carisma e beleza acabam nos cegando para esse detalhe quando a vemos em O Casamento dos Meus Sonhos, mais uma comédia romântica previsível e que acaba tornando-se tediosa pelo fato do conflito não cativar o espectador e nem dar a chance de coadjuvantes roubarem a cena. Não temos nem mesmo o clássico amigo gay e super afetado da protagonista para dar pinta e animar as coisas. Na trama escrita por Pamela Falk e Michael Ellis (duas cabeças para escrever algo tão simples e ainda com falhas?) Lopez vive Mary Fiore, uma organizadora de festas de casamento extremamente profissional e que sabe captar exatamente a personalidade de seus clientes assim proporcionando todos os fricotes sonhados para suas festas, desde as toalhas de mesa até os discursos redigidos por ela mesma e ditados aos noivos por ponto eletrônico. Não é a toa que seus serviços já foram requisitados até por celebridades. Tanta dedicação ao trabalho lhe proporciona total independência financeira, contudo, não sobra nem tempo para gastar seu suado dinheirinho. Acostumada a planejar o casamento dos outros, ela não demonstra sonhar com o seu, mas seu pai, o entusiasmado Salvatore (Alex Rocco) vive tentando lhe arranjar pretendentes. O último é Massimo (Justin Chambers), um rapaz bobalhão e ingênuo que era seu amigo de infância e que acredita que um simples encontro seria sinônimo de noivado. A grande preocupação de Mary no momento não é acabar com sua solidão, mas sim tornar-se sócia da empresa para a qual trabalha. Para tanto, ela precisa fechar um contrato com a milionária Fran Donoly (Bridgette Wilson-Sampras) e lhe oferecer o casamento dos seus sonhos, incluindo até aulas de dança para os noivos não fazerem feio na festa.

sábado, 3 de maio de 2014

UM CRIMINOSO DECENTE

Nota 7,0 Ladrão inteligente e simpático tira longa de ação do marasmo e brinca com clichês

Filmes de ação envolvendo roubos milionários continuam tendo seu público cativo, mas é certo que com o passar dos anos e repetições de enredo eles também tem perdido fãs cansados dos estereótipos e previsibilidade de tais produções. Talvez pensando em recobrar a confiança no gênero dos desacreditados que ele ainda poderia surpreender é que o roteirista Gerard Stembridge teve a ideia para Um Criminoso Decente, trama policial que no fundo satiriza de modo inteligente praticamente todos os clichês dos filmes de ação, mais especificamente aqueles que envolvem golpistas e seus planos mirabolantes para conseguir fortunas. Bem produzido, editado e redigido, é estranho que tenha sido lançado diretamente em DVD no Brasil antes mesmo de dar as caras nos EUA. A trama é protagonizada por Michael Lynch (Kevin Spacey), logo de cara a primeira ironia do enredo. Ele é o criminoso mais procurado da cidade de Dublin, quiçá de toda a Irlanda, mas se engana quem pensa que ele vive escondido em alguma parte do submundo. Com toda a cara-de-pau e confiança, ele caminha pelas ruas tranquilamente desfilando com seus filhos e suas duas mulheres, as irmãs Christine (Linda Fiorentino) e Lisa (Helen Baxendale), e até faz piadinhas quando se depara com algum policial. Muito egocêntrico, ele adora fazer pouco das autoridades e bola planos cada vez mais mirabolantes para assaltar bancos e joalherias sem deixar uma pista sequer. Contudo, os crimes acabam sempre tendo algum detalhe semelhante, uma provocação para a polícia que não consegue provas concretas para colocá-lo atrás das grades. Quando vai a julgamento, seu bando sempre dá um jeitinho de livrar sua cara dando um “recadinho” que é tiro e queda para mudar opiniões de juízes e até políticos já intercederam por ele, mas ainda assim ele vive entrando e saindo de liberdades condicionais. Entre um e outro super golpe, Lynch passa o tempo praticando pequenos assaltos para não perder o vício. Vestido como motoqueiro, por exemplo, ele não chama a atenção quando vai a um banco como um cliente comum, assim chega a passar despercebido por investigadores que ficam a sua espera em locais estratégicos. O terror das autoridades, um herói para os bandidos e quase uma celebridade para os irlandeses, Lynch leva uma vida harmoniosa e com luxos e a paz de sua atípica família só é quebrada quando a polícia bate em sua porta, mas isso já virou rotina e suas mulheres sabem que ele será liberado para aguardar julgamento em casa.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

PSICOSE (1998)

NOTA 8,5

Refilmagem de clássico suspense
segue a risca o original, mas lhe falta
aura de mistério e personalidade, 

ainda que seja uma opção acima da média
Por que refazer um filme considerado perfeito? Em contrapartida, a reposta pode ser e por que não fazer? Pois é justamente essa indagação que o cineasta Gus Van Sant assumidamente ofereceu como justificativa para milhares de pessoas que não viam razão para um remake de Psicose, um clássico por acaso do cultuado Alfred Hitchcock. A obra original foi concebida apenas para cumprir um contrato do diretor com a Paramount antes de seu desligamento e por isso ele não queria perder tempo e nem dinheiro e trabalhou em cima de um projeto pequeno que quis o destino que se tornasse uma de suas maiores obras. A legião de fãs, que só veio a somar adeptos com o passar dos anos, torceu o nariz logo que as primeiras informações sobre a refilmagem começaram a pipocar. Reinventar uma obra do mestre do terror seria como resgatar para a modernidade um dos trabalhos de Charles Chaplin, ou seja, invariavelmente iria se perder alguma coisa pelo caminho para atender as novas exigências do mercado. Contudo, Sant colocou sua cara a tapa e com o respaldo do sucesso inesperado de Gênio Indomável entre plateias adolescentes, adultas e até com os críticos conseguiu finalmente realizar um de seus maiores sonhos e não causou a decepção esperada, pois fez praticamente uma réplica copiando fotograma por fotograma com atenção especial para reproduzir cenários, diálogos e até repetir as características físicas dos personagens, isso sem se esquecer de utilizar a clássica e marcante trilha sonora que de tão difundida já foi utilizada até em sátiras de filmes de terror e em publicidade para vender mata insetos, o que não deixa de ser um ultraje afinal não é uma melodia qualquer, foi composta para o filme de um cineasta de peso. Bem, como dizia Sant em 1998, muita gente hoje em dia sequer sabe do que se trata esta obra e como o público está sempre se renovando vamos ao enredo baseado nos escritos originais de Joseph Stefano. Em Phoenix, no Arizona, Marion Crane (Anne Heche) é uma infeliz secretária de uma imobiliária que tem raros momentos de felicidade ao lado do namorado Sam Loomis (Viggo Mortensen), dono de uma loja de bugigangas, assim o futuro não lhe parece muito promissor. Certo dia, em uma sexta-feira, seu patrão lhe confia a exorbitante quantia de 400 mil dólares para ser levada ao banco. A tentação é maior e a moça decide roubar o dinheiro e fugir da cidade. Na segunda-feira, quando descobrissem o roubo, ela já estaria longe e só então se comunicaria com o namorado para marcar um ponto de encontro e enfim conseguirem construir uma vida juntos.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

FÚRIA PELA HONRA

NOTA 6,5

Drama aborda as etapas que
levaram um estudante sonhador
do céu ao inferno, mas termos
científicos entediam a narrativa
Muitas pessoas desconhecem a força das palavras, mas quem nunca se sentiu melhor ao ouvir uma mensagem de conforto, um elogio ou uma frase positiva? E quem nunca se sentiu mal ou entristecido devido a uma fofoca, intriga ou frase mal elaborada que acabou sendo interpretada de forma errada? O pior é quando constatamos que fomos enganados por palavras amigáveis e essa sensação amarga é sentida plenamente pelo protagonista Fúria Pela Honra, drama pouco conhecido mesmo tendo como coadjuvante de luxo Meryl Streep. Com direção de Shi-Zheng Chen, tentando fazer carreira fora da China, a primeira vista o longa pode parecer tedioso e até didático demais tentando ensinar, sem sucesso, ciências cósmicas a um público leigo. No entanto, uma apreciação livre de preconceitos, nos faz atentar mais à trama e percebemos que há sim muito conteúdo emocional e humano por trás dos cálculos e termos técnicos. Baseado em uma história real, o roteiro de Billy Shebar gira em torno do jovem Liu Xing (Ye Liu), um brilhante estudante chinês que passa em um teste para fazer seu doutorado em uma conceituada universidade dos EUA. Muito otimista quanto a seus estudos sobre as origens do universo, logo ele chama a atenção do professor Jacob Reiser (Aidan Quinn) que, além de orientar seu projeto de doutorado, o convida para participar de seu grupo de cosmologia elogiando muito sua inteligência. A proposta caiu dos céus afinal de contas o homem que ele tanto admirava e cujos estudos lhe inspiravam estava lhe dando uma prova de confiança, a pista de que ele estava no caminho certo. Xing não é o único estrangeiro chinês a viver essa experiência. Historicamente conhecidos pela intimidade com as mais variadas formas de ciência, além dos chineses que já eram estudantes, mais dois novatos foram aceitos e assim eram oferecidas reuniões de orientação para ajudar os alunos asiáticos a se adaptaram ao solo norte-americano. Joanna Silver (Streep) é uma entusiasta da cultura chinesa e costuma levar os estudantes a passeios por pontos turísticos, ao mesmo tempo em que quer mostrar que no novo país eles não precisam abandonar suas raízes, como mostra a sequência do espetáculo teatral tipicamente oriental, contudo, não é bem isso que Xing vai perceber com o passar do tempo. No início, Reiser mostra-se um grande parceiro do estudante incentivando-o a levar adiante suas teorias e aumentando suas responsabilidades no estágio, inclusive o próprio jovem chega a ajudar seu mentor quando este é desafiado pelo professor Gazda (Erick Avarai) a comprovar uma ideia. Todavia, quando ganha total confiança, o aluno acaba tendo suas asinhas cortadas.

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