quinta-feira, 28 de março de 2013

AOS TREZE

NOTA 7,5

Longa mostra como uma má
companhia pode mudar a
drasticamente uma vida,
ainda mais na adolescência
A adolescência é um período da vida no qual qualquer ser humano está cheio de dúvidas e anseios e encontrar o equilíbrio entre o resquício da inocência da infância e a maturidade forçada por uma sociedade cada vez mais irracional é quase impossível. Aos olhos dos pais e protegidos dentro de seu lar, em geral, os filhos são vistos de forma positiva, a criança que cresceu bem educada e feliz, até porque a maioria já sabe usar muito bem os truques de personalidade para persuadir. Porém, quando estão fora de casa as regras são outras e os jovens gradativamente são levados a seguir caminhos torpes e como estão na idade de se auto-afirmarem como pessoas fazer parte de um grupo bacana na escola ou no bairro torna-se uma necessidade primordial. Ser você mesmo é descartável, o importante é parecer com a turma que escolheu fazer parte, o que implica certamente em mudanças de visual e de comportamento chegando inclusive a atos de extrema crueldade contra semelhantes ou a si próprios. De anjinho da mamãe à garota pervertida e problemática, a protagonista de Aos Treze mostra de forma realista e econômica o processo desta transformação, embora o roteiro seja baseado em episódios clichês já vistos em outras produções que lidam com temas parecidos. Tracey Freeland (Rachel Evan Wood) é uma adolescente aparentemente exemplar. Aos treze anos ela é excelente aluna, boa filha e ainda mantém ativo um irresistível jeitinho de criança, porém, ela já está se sentindo mal por ser esnobada na escola pelas garotas mais populares, aquelas que estão sempre na moda e chamam a atenção dos meninos. A chance de mudar esse quadro surge quando ela consegue se aproximar de Evie Zamora (Nikki Reed), o modelo de garota ideal que ela gostaria de seguir, mas o problema é que essa nova amizade não é uma boa companhia e assim Tracey acaba sendo pouco a pouco persuadida a se envolver com drogas, experimentar prazeres sexuais e até cometer pequenos crimes. As coisas complicam quando tais atos deixam de ser curiosidade e se tornam rotineiros desencadeando uma série de desentendimentos entre Tracey e sua mãe Melanie (Holly Hunter), ainda mais quando Evie tem a ideia de tentar morar na casa da nova amiga, claramente se aproveitando da relação em frangalhos que a jovem mantém com seus familiares.

Ricos e pobres estão sujeitos a essas más influências, pois todos sabem que a falta de dinheiro ou sua abundância causam transtornos, mas historicamente filhos de famílias problemáticas são as principais vítimas de amizades duvidosas, não que isso não tenha a ver com grana. Bobagens como não ter posses para comprar uma roupa bacana para ir a uma festa ou o papai que compensa seu distanciamento oferecendo dinheiro para o filho comprar o que quiser no shopping podem tornar-se grandes problemas a curto ou a longo prazo. Com pais separados, falecidos, ausentes ou que vivem juntos apenas por conveniência, é comum que o adolescente insatisfeito busque apoio nas amizades e quem lhe estende a mão primeiro certamente ganha sua inteira confiança, tornando-se basicamente um jogo de dominação onde o mais forte geralmente não tem coisas boas a oferecer e se aproveita da fragilidade do outro. É justamente nas questões da família fragmentada e da possível vítima das circunstâncias que se apoia o trabalho de estreia da diretora Catherine Hardwicke. A mãe de Tracy é amorosa e não deixa faltar nada para a filha, mas talvez o fato de ser separada e estar namorando um homem que não é um exemplo de ser humano de sucesso provoquem na garota uma revolta que talvez só ela compreenda e sua maneira de extravasar sua raiva é através de atos impensados como colocar um piercing na língua ou trocar beijos com outra menina, tudo para chamar a atenção. Ela busca o choque para atingir a mãe deixando-se levar pelas ideias ousadas e bizarras de Evie que aparentemente não tem quem a repreenda. Aliás, se o longa apresenta muito bem a aproximação e o desenrolar da amizade das duas adolescentes, por outro lado deixa a desejar por não mostrar ao espectador como era a vida de cada uma antes desse encontro, ou melhor, da Tracy até acompanhamos algumas coisas, mas não o suficiente para tornar mais impactantes as cenas que marcam sua mudança comportamental. Algumas pessoas apontam que as situações apresentadas no longa não são totalmente críveis e não chocam como deveriam. Bem, é obvio que outros filmes deste tipo do passado foram bem mais além, até ultrapassaram limites em alguns casos, mas é admirável as escolhas que Catherine fez. Não é preciso nudez e escatologia para causar impacto. Um texto forte já é o bastante para dar o recado, ainda mais com um elenco afiado para defendê-lo.

O roteiro foi escrito pela própria diretora em parceria com Nikki Reed que colaborou muito trazendo experiências que ela própria vivenciou. Seus pais se divorciaram quando ela ainda era muito pequena e a atriz foi criada pela mãe. Até os doze anos ela era uma garota meiga e comportada, mas depois se tornou rebelde e refém de problemas emocionais que trataram de afastá-la da mãe e aproximá-la dos vícios e do sexo. Após a fase conturbada, Nikki aos quatorze anos conseguiu sua emancipação e transformou as lembranças de seu passado recente em um roteiro cinematográfico. Curiosamente, ao ser escalada para o elenco a atriz e escritora acabou ficando com um papel oposto ao que viveu na vida real. Rachel e Nikki estão perfeitas em seus papéis. Mesmo já tendo passado dos treze anos de idade na época das filmagens elas incorporaram com perfeição as adolescentes problemas e a relação delas tende a certa altura parecer tão natural que nem nos importamos em ver duas jovens trocando carícias e provocações no ápice da loucura. Também não há como negar que boa parte da força do longa se deve ao talento da jovem veterana Holly Hunter que alterna o perfil da mãe carinhosa e compreensível com o da mãe rígida que busca talvez tardiamente descobrir onde errou na criação da filha acompanhando a degradação da mesma. Na balança do amor e do ódio, a relação delas pende para o lado negativo da situação sendo que a solução para o conflito aparentemente seria o afastamento de Evie que não perderá a chance de trair a amiga quando se sentir pressionada, afinal não existe um laço concreto de amizade ou pelo menos por parte de uma delas. As cenas finais com diálogos intensos e apresentadas quase em preto e branco reforçam o aspecto documental do longa que opta pela aparência realista através de ângulo ousados ou tremidos de câmera para se destacar do visual limpo das produções hollywoodianas e ainda flertar com a estética do cinema alternativo. Podem dizer que é uma produção fraca, mas quando chegamos ao final de Aos Treze percebemos seus reais objetivos: não apresentar respostas mastigadinhas para ajudar quem passa por situações semelhantes, mas sim servir como um ponto de apoio para o diálogo entre pais e filhos, estudantes e educadores para prevenir ou tentar remediar problemas. Uma conclusão muito clichê essa? Pode ser, mas infelizmente ainda necessária para uma sociedade metida a moderninha, mas cujos integrantes ainda mal sabem dialogar e pensar por conta própria.

Drama - 100 min - 2003 

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