segunda-feira, 30 de junho de 2014

À FRANCESA

NOTA 4,0

Misturando vários gêneros,
longa não se define por nenhum
e narrativa ainda é prejudicada por
personagens que não cativam
Você certamente deve conhecer alguém que não resiste a assistir um filme que destaca alguma cidade europeia famosa por sua cultura, souvenires e pontos turísticos. Mais fácil ainda conhecer pessoas que só se empolgam com opções que tragam nomes famosos nos créditos ou que não resistem a tramas açucaradas cujo final feliz é sempre garantido. À Francesa poderia ser perfeito para atender a estes dois tipos de público. Traz o luxo, a beleza e a sedução do universo parisiense atrelado aos nomes consagrados de Kate Hudson e Naomi Watts que pelas disposições de suas imagens no material publicitário convidam o espectador para uma agradável comédia romântica. Quem cria tais expectativas na verdade recebe um belo banho de um amargo champanhe e nem é preciso esperar muito para isso acontecer. Os vinte ou trinta primeiros minutos de exibição já são o suficiente para nos desapontar. Simplesmente temos a sensação de que nada aconteceu e até sentimos falta dos clichês que tanto achincalhamos. Sorte de Winona Ryder e Natalie Portman que desistiram de protagonizar tal engodo. Baseado no livro “Le Divorce” (o mesmo título original do filme) escrito por Diane Johnson, o enredo parte do reencontro de duas irmãs americanas. Isabel Walker (Hudson) viaja até a capital francesa para passar uma temporada com Roxanne (Watts), sua irmã mais velha que já vive por lá há algum tempo desde que se casou com o artista plástico Charles-Henri de Persand (Melvil Poupaud). No entanto, o relacionamento está em crise. Mesmo com a esposa grávida e já com outra filha grandinha, o francês decide abandoná-las e sai de casa com total naturalidade, não tendo receio nem mesmo dos possíveis comentários da cunhada recém-chegada. A reação do marido é estranha, mas a forma de Roxanne lidar com a situação também não fica a dever. Cadê os escândalos e chantagens emocionais? Ela até tenta extravasar sua raiva, mas parece que já está domada pelo estilo de vida francês: bons modos em primeiro lugar. Mesmo separada, a americana continua tendo contato com a família do marido e assim sua irmã acaba se aproximando de Edgard Cosset (Thierry Lhermitte), um diplomata francês casado, mais velho e tio de Charles-Henri. Logo eles estão vivendo um romance não muito secreto baseado puramente em prazer sem ligações emocionais profundas, mas para Isabel ainda existe o bônus de ser presenteada com presentes de grifes.

domingo, 29 de junho de 2014

CINCO EVAS E UM ADÃO

Nota 7,0 Comédia busca diferencial apostando em gancho de suspense, mas clichês não faltam

Muitas mulheres crescem sonhando um dia encontrar seu príncipe encantado, mas a realidade não é nada parecida com os contos de fadas. A grande decepção geralmente ocorre por conta de infidelidade por parte dos rapazes, ainda que existam alguns bastante fiéis e apaixonados, mas como lidar com a decepção quando se descobre que aquele homem aparentemente perfeito tem como principal defeito ser um fora-da-lei? É esse o grande conflito trabalhado na comédia romântica Cinco Evas e Um Adão. Amanda Pierce (Monica Potter) é uma jovem e bonita restauradora de obras de arte que está cansada de ser traída pelos namorados e após sua última frustração amorosa decidiu que não ia mais ficar bancando apartamento para marmanjos sem vergonhas. Ela então decide se mudar para um lugar menor e mais reservado, mas acaba encontrando uma opção um pouco fora dos padrões que desejava. Rapidamente ela passa a viver em um luxuoso apartamento em Nova York já dividido por outras quatro garotas. Roxana (Ivana Milicevic), Jade (Shalom Harlow), Candi (Sarah O’Hare) e Holly (Tomiko Fraser) são modelos e a agência da qual são contratadas banca todas as despesas da casa, mas o extra do aluguel de um “pequeno” quarto vago as ajudaria com seus gastos com extravagâncias. Amanda destoa do grupo por sua baixa estatura e timidez e embora tenha um pé atrás com modelos por elas serem os motivos de suas decepções amorosas, até que ela se dá bem com as garotas que levam um estilo de vida bem diferente. Enquanto as belas compridonas trabalham paralelamente como acompanhantes de luxo em troca de jantares e joias, Amanda não quer saber de homens no momento e quer se concentrar no trabalho, mas ela não consegue desgrudar os olhos da vista que tem da janela da sala. No prédio da frente vive Jim Winstom (Freddie Prinze Jr.), um rapaz charmoso que ela conheceu por acaso no dia em que veio ver o apartamento pela primeira vez e a atração foi recíproca e instantânea.

sábado, 28 de junho de 2014

IDENTIDADE ROUBADA

Nota 5,0 Repleto de clichês, suspense é prejudicado por entregar o ouro com pistas constantes

Susan Sarandon tem um nome a zelar, mas talvez a falta de bons convites de trabalho a estejam forçando a topar qualquer coisa para sobreviver. A atriz de grandes obras como O Óleo de Lorenzo, Os Últimos Passos de Um Homem e Lado a Lado está cada vez mais “apagadinha” e sua presença em um longa já não justifica nem mesmo arriscar um lançamento nos cinemas quando a história não é das melhores. Mesmo contando no elenco com Emily Blunt que na época desfrutava do sucesso que fez com O Diabo Veste Prada, a distribuidora não confiou no potencial da fita e Identidade Roubada chegou ao Brasil diretamente em DVD, mídia que combina melhor com seu estilo de telefilme. A trama gira em torno de Sophie Hartley (Sarandon), uma premiada ilustradora de livros infantis que está passando por um momento delicado perturbada com a recente morte de sua mãe. Com duas filhas pequenas, aparentemente convivendo muito bem com o marido Craig Singleton (Sam Neill) e vivendo em uma bela e confortável casa, a desenhista tinha tudo para ser feliz, mas também pressionada para cumprir o prazo de entrega de um trabalho ela acaba desenvolvendo uma fobia. Ela cisma que alguém estranho frequentemente está entrando em sua casa sumindo com coisas, mudando objetos de lugares e pregando peças. A situação só piora quando ela conhece Mara Toufiey (Blunt), a assistente de seu marido em um escritório de decoração. O jeitinho “falsa fofa” da moça entrega o ouro: é óbvio que ela quer a vida de Sophie. Sua atenção exagerada para com o chefe, a aproximação repentina junto a sua família e a obsessão em ter até os horrendos enfeites de coruja da ilustradora mostram que ela está cheia de segundas intenções. A garota é casada com Jimmy (William McInnes) e também é mãe, mas nada cessa as desconfianças de Sophie de que ela quer o seu marido, suas filhas, sua casa, enfim sua vida. A paranoia começa a se tornar um problema sério a partir do momento em que ela passa a ter o seu cotidiano regido basicamente por planos para buscar provas que comprovem sua sanidade mental e confirmem suas suspeitas, mas fica difícil com todos a rotulando de doente.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

MUDANÇA DE HÁBITO 2 - MAIS LOUCURAS NO CONVENTO

NOTA 6,0

Com pouco a ser explorado do
argumento original, longa tenta
manter o nível de humor, mas esbarra
em protagonista domada e emotiva
Produções de humor costumam render continuações, mas para tanto é preciso entender um pouco de matemática. Somam-se os lucros totais de bilheterias e mídia doméstica, às vezes é necessário até adicionar na conta os dividendos da venda para canais fechados e abertos, e então se subtrai o quanto a produção custou. Tendo um resultado razoavelmente positivo aí sim é possível que produtores e demais interessados se reúnam para estudar a possibilidade de um desdobramento da obra original. Muitos filmes tem potencial para tanto, mas a demora para se fazer essas estatísticas de sucesso e problemas para reunir novamente o mesmo elenco acabam jogando por água abaixo as intenções. Mudança de Hábito 2 – Mais Loucuras no Convento é um caso raríssimo. Parece que os produtores confiavam tanto no sucesso do primeiro que nem esperaram seu lançamento para trabalharem em cima de um novo filme. A sequência foi lançada em tempo recorde, cerca de um ano depois, mantendo os principais nomes do elenco mesmo com a mudança de direção. Bill Duke assumiu a vaga de Emile Ardolino que faleceu exatamente em 1993, mas o diretor já estava descartado do projeto talvez por conta dos boatos de que a estrela Whoopi Goldberg enfrentou muitos problemas de bastidores nas filmagens anteriores. Sem a neguinha, sem filme. Para vestir novamente o hábito da irmã Mary Clarence ela ganhou uma pomposa quantia de milhões de dólares, mas isso não impediu que Maggie Smith, Kathy Najimi e Wendy Makkena reasumissem seus papéis mesmo com pagamentos bem menores. Partindo de onde o primeiro filme acabou, Deloris Van Cartier (Goldberg) obviamente não poderia seguir carreira religiosa e não iria mudar completamente seu jeito de ser tocada por uma luz divina (bem, há que acredite em milagres do tipo), mas sua passagem pelo convento não foi em vão. Agora ela se dedica a shows em Las Vegas cantando músicas gospel vibrantes e até suas amigas freiras fazem questão de ir prestigiá-la, mas não vai demorar muito para ela trocar seu hábito purpurinado pelo tradicional. Ela é convidada pela Madre Superiora (Smith) para que passe a ensinar canto em uma escola religiosa para uma turma de alunos indisciplinados. A ideia é que o jeito despojado da cantora facilite a comunicação e ajude os jovens a voltarem a se interessar pelos estudos.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

MUDANÇA DE HÁBITO

NOTA 8,0

Desbocada, careteira e marrenta,
ninguém melhor que Whoopi
Goldberg para viver uma freira que
de santa não tem absolutamente nada
Igreja é um lugar aonde você vai para rezar, idolatrar o Senhor, fazer caridades e até lamentar ou se entristecer dependendo das circunstâncias que o levam à missa ou a uma passada rápida para acender uma vela para algum santo, mas para Whoopi Goldberg esse templo do louvor provavelmente deve ser sinônimo de muita felicidade e dinheiro no bolso, ou melhor, na conta bancária. Seria impossível ela carregar a fortuna que fez com a comédia Mudança de Hábito, um estrondoso sucesso no mundo todo. Para alguns hoje o longa pode não passar de mais um título que abastece as sessões da tarde da TV e que é repetido à exaustão, mas na época foi um dos filmes mais comentados e lucrativos do ano de 1992. Muita gente o tem como uma grata lembrança do tempo da infância ou da adolescência e o fato de ser uma produção lançada há mais de vinte anos não impede que novas gerações se divirtam com as confusões da cantora Deloris Van Cartier (Goldberg) que se apresenta em um cassino no estado de Nevada sem muito sucesso, afinal o pessoal que frequenta o lugar está mais interessado é em grana, bebidas e apostas. Certa noite ela acidentalmente testemunha um assassinato cometido pelo seu namorado, o gângster Vince LaRocca (Harvey Keitel) que acaba fugindo após fracassar na tentativa de silenciar a cantora. Depois que declara à polícia tudo e mais um pouco do que sabe a respeito do bandidão, Deloris é colocada no programa de proteção às testemunhas sob a batuta do tenente Eddie Souther (Bill Nunn) que a ajuda a ser aceita em um convento em São Francisco, o último lugar que alguém poderia desconfiar que ela pudesse se esconder. Atendendo a partir de então pelo nome de irmã Mary Clarence ela deveria permanecer no local até que o fugitivo fosse capturado, mas ela mesma não poderia esperar que essa temporada em um local completamente diferente do que estava habituada traria mudanças significativas tanto para ela quanto para suas novas companhias. No entanto, obviamente no início as coisas não são fáceis e Deloris precisa fazer o possível e o impossível para se adaptar a pacata rotina do local, mas seu jeito extrovertido acaba se sobressaindo e isso não agrada nada à Madre Superiora (Maggie Smith). Seria possível uma mulher desbocada, que frequentava inferninhos e adepta de algumas falcatruas, ainda que leves, se regenerar à força?

quarta-feira, 25 de junho de 2014

IDIOCRACY

NOTA 7,0

Comédia critica sem pudor
algum o consumismo e a alienação
das pessoas, mas erra por se entregar
ao escracho sem aprofundar reflexões
Antigamente, muitos acreditavam que nos primeiros anos do século 21 a humanidade já estaria vivendo em modernos apartamentos no melhor estilo família Jetsons e que tudo seria possível com apenas um toque na tela do computador ou da TV. O tempo passou e realmente chegamos a esse famigerado futuro ou algo bem próximo das expectativas, mas com ele também vieram os pontos negativos. Cada vez mais as pessoas estão dependentes de celulares e computadores a ponto de passarem mal quando estão desprovidas de tais ferramentas. Ainda se fosse para trabalho ou estudo, mas é triste constatar que a maioria usa essas bugigangas tecnológicas para fofocar e se exibir em redes sociais. Mais triste ainda é saber que até as crianças estão entrando nessa onda. Da mesma forma que há anos a televisão é considerada uma grande vilã com suas programações de baixo nível, hoje também não podemos descartar a internet como instrumento manipulador e difusor de conteúdo duvidoso. Vendo o atual cenário, vale muito a pena conferir a crítica realizada por Idiocracy, comédia de humor negro que apresenta um futuro apocalíptico no qual absolutamente todas as pessoas sofrem de um grande mal: o baixíssimo índice de QI. Pena que a própria produtora, a Fox, mostrou que sua ganância é maior que sua inteligência e negligenciou a obra. Não confiando em seu potencial, a empresa a lançou mal nos EUA e consequentemente prejudicou sua distribuição em outros países, sendo que no Brasil saiu diretamente em DVD e sem publicidade. Escrito por Etan Cohen e Mike Judge, este também diretor, a trama gira em torno de Joe Bauers (Luke Wilson), um jovem soldado americano que nunca recebeu o devido valor no Exército até que foi recrutado para uma experiência inovadora. Os cientistas descobrem como congelar humanos, mas a novidade precisa passar por um teste definitivo. Sozinho no mundo e um profissional desacreditado, Bauers teria o perfil ideal para cobaia afinal de contas se algo desse errado ninguém sentiria sua falta. Por falta de modelos semelhantes femininos dentro da própria corporação, o jeito foi procurar entre os civis e assim foi recrutada Rita (Maya Rudolph), uma prostituta que topa tudo por um dinheirinho extra. Os dois ficariam congelados por um ano e depois seriam avaliados por uma junta médica, mas algo dá errado e o experimento acaba sendo abortado, ou melhor, completamente esquecido até que no século 26 o inesperado acontece.

terça-feira, 24 de junho de 2014

CASA DE AREIA E NÉVOA

NOTA 10,0

Drama sobre duas pessoas
desconhecidas que disputam a
posse de uma casa surpreende
com rumos inesperáveis 
A obsessão pelo sonho americano também pode levar ao pesadelo. Essa é a grande mensagem de Casa de Areia e Névoa e seus protagonistas vivem de maneiras diferentes estes momentos. O conceito de que os EUA é a terra das oportunidades surgiu após a Segunda Guerra Mundial quando os ianques passaram a cultivar a imagem de grande potência. Assim muitas pessoas partiram para lá sonhando com melhores condições de vida, mas na realidade as coisas não são tão fáceis como mostra o longa de estreia do diretor Vadim Perelman. Na verdade a mensagem não é restrita ao sonho americano, podendo ser aplicada em várias situações do cotidiano. Quantas vezes você já não brigou por motivos tolos? Às vezes o que é uma bobagem para os outros para você é de suma importância naquele momento e vice-versa. Cada cabeça é uma sentença e a vida é feita de conflitos que precisamos superar para nos tornar pessoas melhores, mas em alguns casos as coisas são complicadas. Já diz o ditado quando dois não querem dois não brigam, porém, quando ambas as partes estão dispostas a duelar... O longa poderia ser facilmente resumido como a história de duas pessoas que disputam um imóvel, cada qual com suas justificativas e ideais a defender, uma briga que revela a falta de limites e o egoísmo do ser humano quando movido pelo individualismo, mas o que fazer quando ambos os lados tem razões convincentes? A premissa simplória na realidade se transforma em um angustiante e envolvente drama pelas mãos do roteirista Shawn Lawrence Otto que adaptou em parceria com o próprio Perelman o best-seller homônimo de Andre Dubus III, este que já havia recebido praticamente uma centena de propostas para vender os direitos de sua obra para o cinema. Curiosamente fechou com um estreante que surpreendeu ao realizar uma obra madura e que é um verdadeiro soco no estômago. Kathy Nicolo (Jennifer Connelly) é uma mulher que tenta se livrar do vício do álcool, mas sua depressão é um grande empecilho. Abandonada pelo marido, há meses ela se desligou do mundo e não abria nem mesmo suas correspondências, assim não era de seu conhecimento o fato de que impostos atrasados de sua residência estavam sendo cobrados. Ela só descobre que está para ser despejada quando a polícia já está batendo a sua porta reivindicando sua saída. Na realidade, os impostos eram indevidos por serem tributações exclusivas para comércios, mas como ela não recorreu a casa que herdou dos pais já havia sido levada à leilão pela prefeitura. Sem dinheiro e para onde ir a situação da jovem acaba comovendo Lester Burdon (Ron Eldard), policial que ironicamente lhe comunicou sobre o despejo. Ele então tenta ajudá-la a sobreviver em um abrigo provisório e rever o processo na justiça, mas a convivência acaba os aproximando além de uma pura amizade, mesmo ele sendo casado e com filhos pequenos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O PRIMEIRO AMOR

NOTA 7,0

Apesar da aparência frágil,
longa aborda sentimentos 

comuns aos jovens de modo realista,
mas sem abrir mão da inocência
No início dos anos 90, Meu Primeiro Amor foi lançado sem grande alarde, mas acabou ganhando status de clássico familiar devido às inúmeras reprises na TV, história singela e curiosidades em torno do nome Macaulin Culkin, promessa de grande ator que acabou sendo apenas uma ilusão. Cerca de vinte anos depois, muitos pais e avós gostariam de apresentar este filme às novas gerações e certamente festejaram quando locadoras e lojas colocaram a disposição O Primeiro Amor. Alguns devem ter gostado da obra enquanto outros se decepcionaram.  O título cabe bem à proposta, mas é inegável que ele faz uma clara alusão ao outro longa citado, assim muitos acabaram assistindo pensando em se tratar de um relançamento ou até mesmo uma refilmagem. Na verdade esta produção apenas pega carona em uma publicidade alheia, mas seu conteúdo é bem diferente apesar da premissa ser a mesma: falar da inocência, receios e fantasias de uma primeira paixão. Todos já viveram essa experiência, seja platônica ou algo real, mas o fato é que na maioria das vezes elas passam longe de serem fáceis como nos contos de fadas. Baseado no livro “Flipped”, de Wendelin Van Draanen, a trama roteirizada por Andrew Scheinman e Rob Reiner, este também diretor da fita, começa no final dos anos 50 quando a família Loski estava de mudança para uma nova vizinhança e imediatamente o filho caçula chamou a atenção da garotinha que vivia na casa da frente. Ela estava certa que ele não era um simples vizinho e sim o seu primeiro amor. O problema é que o menino não compartilhava da mesma sensação e por anos fugiu das várias investidas da garota para tentar segurar a sua mão, roubar um beijo ou simplesmente ter um olhar de ternura. As coisas só mudaram quando eles tinham em torno de 13 anos de idade. Juliana Baker (Madeline Carroll), já cansada de tanto ser menosprezada, estava decidida a dar um gelo em Bryce Loski (Callan McAuliffe), mas isso era muito difícil já que além de vizinhos também eram colegas de classe. Ele a considerava muito excêntrica, mas passou a vê-la com outros olhos quando Chet Duncan (John Mahoney), seu avô, passou a morar com a família. O idoso adora plantas e fica intrigado ao ver uma foto da menina no jornal envolvida em um manifesto quanto a remoção de uma gigantesca árvore. As crianças do bairro costumavam esperar o ônibus escolar sob a sua sombra, mas nenhuma se mostrava rebelde quanto a sua remoção, assim Bryce não foi solidário à vizinha que tanto estimava a preservação do ambiente, ou melhor, das lembranças que aquela planta lhe trazia.

domingo, 22 de junho de 2014

ELA É O DIABO

Nota 7,5 Comédia envelhecida ainda vale a pena para ver Meryl Streep em papel atípico

Muita gente se surpreendeu ao ver Meryl Streep na comédia musical Mamma Mia!, já que sua carreira é marcada por personagens dramáticos e densos. Contudo, mesmo que esporadicamente, a recordista de indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro já tinha colocado à prova sua veia cômica bem antes. Em Ela é o Diabo ela interpreta Mary Fisher, uma escritora de romances de sucesso, mas de conteúdo um tanto duvidoso para entreter suas leitoras, geralmente donas de casa entediadas. A bondosa, porém, desajeitada e feiosa Ruth (Roseanne Barr) é uma delas. Certa vez em um evento social acompanhada de seu marido, o contador picareteiro Bob (Ed Begley Jr.), ela encontra a escritora e como grande fã acaba se entusiasmando demais e derrama acidentalmente vinho sobre o pomposo vestido dela, mas não imaginava que esse pequeno tropeço mudaria os rumos da sua vida. O esposo da rechonchuda imediatamente vai ajudar Mary a limpar a roupa e demonstra certo interesse que vai além da boa educação. Os galanteios são correspondidos e após alguns poucos encontros clandestinos ele acaba optando por abandonar a esposa e os filhos para morar em uma mansão à beira-mar junto com a amante. Acostumada a levar patadas, mas até então conseguindo ostentar um homem loiro e alto ao seu lado, dessa vez Ruth foi ferida profundamente e se deixou domar por um incontrolável desejo de vingança. Além de deixar os filhos na companhia do ex para eles já irem atiçando a ira da ladra de maridos, ela bola um plano para destruir a vida de Bob e para tanto conta com a ajuda de outras mulheres que já sofreram algum tipo de humilhação. Olivia (Maria Pitillo), a secretária do ex, não é lá muito eficiente para quem trabalha com alguém sem escrúpulos, assim não é preciso muito esforço para ela soltar a língua sobre segredos de trabalho. Já Hooper (Linda Hunt) é a baixinha e sisuda assistente de uma casa de repouso onde está internada ninguém mais ninguém menos que a própria mãe de Mary, a Sra. Fisher (Sylvia Miles), muito amargurada por a filha tê-la internado e lhe virado as costas. Já que Bob a chamava de demoníaca, Ruth faz jus a alcunha e o inferniza por etapas, primeiro destruindo sua vida particular, depois sua carreira e por último caçando sua liberdade, assim por tabela também conseguiria levar sua rival para o fundo do poço.

sábado, 21 de junho de 2014

LUGARES ESCUROS

Nota 0,5 Desculpe o trocadilho, mas este filme realmente merece ser esquecido na escuridão

Está aí um filme que faz jus ao seu título. Lugares Escuros literalmente deve ficar arquivado em algum lugar de penumbra em nossas mentes tamanha a sua babaquice. Alguém deve ter dito ao experiente produtor Donato Rotunno que qualquer coisa fazendo alusão à escuridão tinha chances de fazer sucesso entre os fãs de suspense e horror e assim ele decidiu se arriscar na direção, sua primeira e única experiência em tal cargo (e que permaneça inapto na atividade até o fim dos seus dias). A trama tem como protagonista Anna Veigh (Leelee Sobieski), uma jovem professora especializada em arte-terapia, mas seus conceitos não agradam ao diretor do colégio em que trabalha. Contudo, ela mal perdeu o emprego e já foi convidada para se tornar babá e educadora particular de um casal de crianças bem-nascidas. O estranho é que ela nem chega a ser entrevistada e já é contratada para cuidar de Flora (Gabrielle Adam) e Miles (Christian Olson) que ficaram recentemente órfãos e aos cuidados de um tio sempre ausente. Vivendo isolados em uma mansão distante da cidade, a chegada de uma nova pessoa e com espírito jovem soa como um alívio para os garotos que no fundo sofrem com algum tipo de trauma, algo escondido pela governanta, a misteriosa Srta. Grose (Tara Fitzgerald). Anna acaba se adaptando a nova rotina rapidamente e até consegue criar laços com os irmãos, mas fica intrigada com certas coisas. Além dos constantes pesadelos e vozes que escuta a noite, lhe chama a atenção o comportamento dos menores que às vezes mudam radicalmente, como se pressentissem forças ocultas ao redor e dentro da própria mansão. Tudo leva a crer que existe alguma coisa a ver com a antiga ocupante do posto de babá que morreu afogada também há pouco tempo. Traumatizados, impressionados ou possuídos? O que acontece com Flora e Miles? Resposta: nenhuma das anteriores. Tudo leva a crer que o mistério criado em torno deles é tão furado quanto uma peneira, assim como todo o filme que se revela um tremendo engodo capaz de descartar até mesmo o conhecido argumento do tio de olho na herança dos sobrinhos. Na falta de coisa melhor seria uma opção válida.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

LANCELOT - O PRIMEIRO CAVALEIRO

NOTA 6,5

Épico tem belo visual e boas
cenas de batalhas, mas ganchos
dramático e romântico soam fracos
com apoio de interpretações apáticas
A história do Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda sem dúvidas é uma das mais famosas do período da Idade Média e desde seus primórdios a sétima arte mostra-se apaixonada pelo conto que já ganhou diversas adaptações, mas a impressão que temos é que a cada nova releitura a força e fascínio originais vão se esvaindo. Talvez isso explique o porquê da superprodução Lancelot – O Primeiro Cavaleiro não tenha se tornado um marco. Filmado em 1995, na época o filme já era desnecessário resumindo-se a mais um produto hollywoodiano que visava lucrar em cima de uma receita consagrada somada a dois nomes de peso no elenco. De qualquer forma, a tentativa de reciclar um texto clássico de tempos em tempos é sempre válida para despertar a curiosidade das novas gerações, tanto que em meados da década de 2000 uma nova releitura das aventuras do Rei Arthur foi concebida. Filmes épicos costumam ter público cativo e arrematar novos adeptos com visuais pomposos e promessa de efeitos especiais de ponta, mas essa não era a praia do diretor Jerry Zucker, famoso pelo humor inteligente de Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu e por fazer milhões de pessoas se emocionarem com Ghost – Do Outro Lado da Vida. Em sua experiência no mundo medieval, no entanto, ele demonstra certo desconforto. Na realidade, ele faz um trabalho apenas correto, limitando-se a apresentar o mínimo que se espera de uma produção do tipo. Belos cenários e figurinos, um pouco de contexto histórico e cenas de batalha bem coreografadas estão no cardápio, mas falta ousadia à obra, principalmente no que diz respeito ao gancho romântico. Como torcer para um casal que não desperta simpatia? E como explicar o fato de que o vilão é de longe o personagem mais bem construído mesmo sem estar ligado diretamente ao romance da trama? Com auxílio de Lorne Cameron e David Hoselton, o roteiro criado por William Nicholson, baseando-se na obra do romancista inglês Thomas Malory, começa com um violento ataque ao vilarejo de Leonesse, na Inglaterra, comandado pelo Príncipe Malagant (Ben Cross) que sonha em comandar o local. Este episódio e alguns outros semelhantes parecem provocações para que a população se submeta as ordens deste homem arrogante, mas Guinevere (Julia Ormond), a filha do recém-falecido líder da vila, está disposta a impedir que ele tome o poder aceitando se unir ao rei de Camelot, Arthur (Sean Conney).

quinta-feira, 19 de junho de 2014

BANQUETE DO AMOR

NOTA 7,0

Longa traz um farto cardápio
de histórias românticas com um
final inesperado, mas peca ao
abordá-las de forma superficial
Há títulos que podem jogar por água abaixo as chances de um bom filme encontrar seu público. Banquete do Amor vende aquela ideia básica de histórias românticas que nasceram envoltas ao mundo gastronômico como, por exemplo, Sem Reservas, mas esta fita não é das mais adocicadas, preferindo a opção de salientar o paladar agridoce das relações amorosas. Todavia, a tradução literal do título original não deixa de ser correta. Aqui temos uma cafeteria onde boa parte dos personagens transita e as várias tramas paralelas desenvolvidas lembram a um farto cardápio. Temos o amor não correspondido, uma relação homossexual, a famosa paixão a primeira vista, os encontros extraconjugais, o casamento relâmpago e a transformação do sentimento perante uma tragédia. Baseado no romance homônimo de Charles Baxter, a trama escrita por Allison Burnett serve um prato farto em clichês, mas acompanhado de um molho que dá um toque especial ao conjunto. A leveza e naturalidade do texto e das interpretações fazem toda a diferença. As várias histórias vão se ligando por conta do próprio destino, mas Harry Stevenson (Morgan Freeman) está sempre a postos para dar aquela mãozinha como uma espécie de conselheiro ou anjo da guarda. Professor de filosofia, há meses ele está afastado do trabalho por conta da dor que ainda tenta digerir da morte precoce do seu filho vítima de overdose e sente-se culpado por não ter o conhecido a fundo a ponto de evitar tal tragédia. O episódio acabou modificando a relação de Harry com Esther (Jane Alexander), sua esposa, que passaram a viver uma união melancólica e que nos primeiros minutos lembra até a convivência entre irmãos. Toda a sabedoria deste homem não o ajuda com seus próprios problemas, no entanto, ele sempre tem uma palavra amiga para outras pessoas e compreende os dilemas delas como ninguém. Diariamente ele não dispensa uma passada na cafeteria de Bradley Smith (Greg Kinnear), um ex-aluno que se tornou um grande amigo, mas muito distraído ele não percebia o que estava acontecendo com seu casamento. Junto há seis anos de Kathryn (Selma Blair), alguns bons anos mais jovem que ele, o quarentão do tipo gente fina não se dava conta que mal conhecia sua esposa e que ela estava infeliz. Um fato inesperado, pelo menos para o marido, colocará um ponto final neste casamento.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A CASA DO FIM DO MUNDO

NOTA 5,5

O desenvolvimento da amizade
de dois jovens é temperado com
temas polêmicos, mas longa os
apresenta de forma superficial
O comportamento desregrado na adolescência pode ser apenas um problema passageiro, algo motivado pela ansiedade dos jovens em quererem experimentar inúmeras sensações. Colhidos os frutos e os danos, a maturidade nos ensina a escolher as melhores opções, mas viver é estar pronto para mudanças constantes. O que é bom hoje pode não ser amanhã e vice-versa. A Casa do Fim do Mundo fala justamente sobre transformações, emoções e escolhas, vivências que marcam nosso passado, ajudam a explicar o presente e podem influenciar o futuro. Pena que é muito assunto envolvido com polêmicas para se abordar em pouco tempo de arte, assim o resultado acabou sendo relativamente superficial. O roteiro de Michael Cunningham é baseado no romance homônimo de sua própria autoria e narra a história da evolução da amizade de dois grandes amigos. Bobby Morrow (Erik Smith) teria tido um início de vida normal se não fosse o acúmulo de óbitos que assolou sua família. Em Clevelend, em meados dos anos 60, ele teve seus primeiros contatos com drogas e foi incentivado a começar precocemente sua vida sexual graças aos conselhos do irmão mais velho, Carlton (Ryan Donowho). O rapaz aparece pouco no filme, mas sua participação é importante para ditar os rumos da vida do caçula. Ainda criança Bobby o viu perder a vida em um estúpido acidente doméstico devido ao seu estado de embriaguez durante uma festa. Logo sua mãe também falece devido a tristeza causada pelo episódio e não tarda para que ao pai aconteça o mesmo. Dessa forma, o garoto cresceu sem apoio familiar, fazia o que queria e não dava satisfação a ninguém, mas quando a última morte de seu clã ocorreu ele já era um adolescente e totalmente adaptado à família de Jonnathan (Harris Allan), seu melhor amigo da escola. Na frente dos pais, Alice (Sissy Spacek) e Ned Glover (Matt Frewer), os dois eram uns santinhos, mas quando estavam sozinhos eles usavam drogas, ouviam músicas pesadas e viviam experiências homossexuais. A Sra. Glover, como toda boa mãe, achava que quando eles se trancavam no quarto estavam apenas curtindo inocentes brincadeiras, mas um dia se surpreende ao vê-los fumando. Bobby, sem um pingo de vergonha, chega a oferecer um baseado a ela que para o espanto do próprio filho acaba aceitando. Pode soar estranho que uma tradicional dona de casa dos anos 70 pudesse ser tão cuca fresca, mas a naturalidade da atriz ajuda a tornar essa ideia crível, inclusive o fato dela encarar sem estresse a descoberta da relação amorosa entre os garotos.

terça-feira, 17 de junho de 2014

A FACE OCULTA DA LEI

NOTA 6,5

Apesar dos vários clichês, longa
envolve com trama intrincada a
respeito de um crime que revela
preconceitos e corrupção na polícia
O título já diz tudo. A Face Oculta da Lei é mais um filme que tem como objetivo escancarar a hipocrisia existente dentro da própria polícia, instituição que deveria lutar pelos direitos e segurança da população, mas a ganância acaba levando seus membros a serem corrompidos e a entrarem em esquemas de corrupção, roubos, tráficos de drogas, prostituição e tudo mais que envolva o submundo, justamente as mazelas que eles deveriam combater. Para abordar tal tema, sabemos que os clichês do gênero policial não podem faltar. Bandidos com linguajar chulo, tiroteios, perseguições, vagabundas, consumo de entorpecentes, muita bebida e claro que não se pode excluir o velho conflito entre uma dupla de homens da lei completamente diferentes um do outro. Aqui eles são representados por Eldon Perry (Kurt Russell) e Bobby Keough (Scott Speedman), respectivamente a cobra criada e fardada e o novato na máfia... Quer dizer, na polícia. O filme começa em meados de 1991 com uma perseguição policial a um foragido, um negro que quando foi capturado acabou sendo agredido pelas autoridades até morrer. Um ano depois os quatro agressores, todos brancos, estão sendo julgados, não escaparam do crivo de seus superiores, e correm o risco de perderem o cargo na polícia. A situação é tensa porque mais que julgar a morte de um ser humano, independente de ser realmente um bandido ou não, o caso envolve racismo. Essa introdução é apenas para situar o espectador no contexto da época quando os constantes abusos da polícia de Los Angeles provocaram um grande motim de rua, uma verdadeira guerra entre raças. Baseado em um roteiro de James Ellroy, de Los Angeles – Cidade Proibida, o projeto ficou a espera de um estúdio que o bancasse por quase uma década até que ele foi parar nas mãos de David Ayer que o reescreveu inteiramente, mantendo apenas os nomes dos personagens e as ações concentradas no início da década de 1990. A história em si começa de uma forma confusa. Após o citado crime, que depois só será lembrado em alguns momentos para reforçar o cenário de conflito, duas tramas simultâneas começam a ser desenvolvidas. Keough entrou apenas há três semanas na polícia e já está sendo investigado por má conduta, teria matado um homem alegando que agiu em legítima defesa e seguindo os ensinamentos que recebeu em seu treinamento, tendo total aprovação de Perry, seu parceiro. O caso acaba sendo acatado por seus superiores que o absolvem e ele até ganha fama pela sua coragem e ousadia, mas logo terá que provar se realmente é um bom profissional ou apenas contou com a sorte de principiante.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

PIÑERO

NOTA 7,0

Visual estilizado chama a atenção
para contar história de artista
rebelde que teve oportunidades para
vencer, mas seus vícios o derrotaram
Muitos atores desacreditados agarraram com unhas e dentes oportunidades que julgam únicas, mesmo que para tanto precisem se distanciar de sua própria personalidade para dar vida a um personagem completamente diferente de si mesmo. Os resultados geralmente surpreendem e rendem prêmios, mas o mesmo não aconteceu com Benjamin Bratt ao aceitar protagonizar Piñero, a dramatização da vida do poeta, dramaturgo e ator latino Miguel Piñero. Quem? Pois é, talvez nesta simples pergunta esteja implicitamente a resposta para o fracasso do filme escrito e dirigido pelo cubano Leon Ichaso. Fora dos EUA, poucos conhecem a história deste porto-riquenho que se mudou ainda criança com a família para a “terra de sonhos” e se decepcionou com o que encontrou. Bratt, mais conhecido como o interesse romântico de Sandra Bullock em Miss Simpatia e como um dos affairs da vida de Julia Roberts, entregou-se de corpo e alma para retratar a conturbada e agitava vida do agitador cultural, na verdade um entusiasta da contracultura que marcou época, principalmente em Nova York, durante os anos 70 e 80 com o seu “Nuyorican Poets Café”, um espaço reservado para performances de artistas alternativos que como ele não viam sentido na arte tradicional que simplesmente lançava cópias em sistemática industrial e desprovidas de emoções. Nesse ponto de encontros, regados a drogas e álcool, Piñero e seus colegas declamavam poesias, interpretavam peças e escutavam músicas, tudo acompanhado de gesticulações e entonações de voz que remetiam a situações de protesto, como se clamassem para serem ouvidos. Após viver uma infância problemática por conta da ausência do pai, ver o sofrimento da mãe para cuidar de cinco filhos e constatar que o propagado sonho americano é apenas uma utopia, o artista buscou as ruas como consolo, onde logo se envolveu com pequenos crimes seguidos do envolvimento com drogas e vida promíscua. O resultado foi a prisão durante anos, mas onde aprendeu a se expressar através da escrita. Quando conseguiu a liberdade, alcançou um enorme sucesso com a peça “Short Eyes” baseada em suas memórias dos tempos de cárcere, produção vencedora de sete prêmios Tony, o Oscar do teatro. Embora tenha chegado a atuar e escrever para a TV, teve um momento em que Piñero passou a sentir os efeitos nocivos de sua vida desregrada, o que acabou refletindo também em sua arte. A vida certinha não servia para ele que costumava dizer que precisava se comportar mal para manter a qualidade de seu trabalho.

domingo, 15 de junho de 2014

A BOLA DA VEZ

Nota 8,0 Esta é mais uma história de uma criança amadurecendo diante dos percalços da vida

Como é agradável quando encontramos algum filme que estava encostado na locadora ou começamos a assistir na TV sem grandes pretensões e no final das contas temos uma boa surpresa. É curioso, mas muitas produções com elenco famoso e sucesso nos cinemas não chegam aos pés de outras que são lançadas diretamente em DVD. Esse é o caso de A Bola da Vez, uma deliciosa comédia com toques dramáticos pouco conhecida e cujo único nome relevante entre os atores é o de Helena Bonham Carter, que quando não atua em algum filme do marido Tim Burton dá a oportunidade do público conhecer suas verdadeiras feições, evitando o uso de maquiagens e figurinos espalhafatosos. Aqui todo o elenco manda muito bem, mas quem rouba a cena é o ator-mirim Gregg Sulkin com um personagem que sofre com problemas comuns aos garotos de sua faixa etária, mas digamos que ele tem um dilema um tanto particular a resolver. O roteiro de Bridget O’Connor e Peter Starughan, mesma dupla que anos mais tarde concorreria ao Oscar pelo texto de O Espião que Sabia Demais, procura retratar o clima de euforia que contagiava a Inglaterra em 1966, ano em que ela sediava os jogos da Copa do Mundo. No entanto, pelo menos um habitante do país não está ligando para o evento esportivo, pois está muito mais ocupado em pensar em algo que marcará sua vida. Bernie Reubens (Sulkin) é um garoto judeu que não é feliz totalmente. Ele não é popular na escola, é ofuscado pelo irmão mais velho, Alvie (Ben Newton), e seus pais, Manny (Eddie Marsan) e Esther (Carter) também parecem não ter muita consideração por ele. Todavia, ele acredita que tudo será diferente em pouco tempo, assim que ele comemorar o seu Bar Mitzvah, uma tradição judaica que marca a transição dos garotos para a vida adulta. O jovem estava animado com seu ritual de passagem acreditando que tendo o direito de assumir suas responsabilidades e atos finalmente receberia o respeito e notoriedade que merecia. Contudo, em meio a empolgação de organizar casa detalhe da festa, uma notícia lhe chega aos ouvidos como uma verdadeira bomba: a data da comemoração coincide com a final do campeonato de futebol.

sábado, 14 de junho de 2014

CERCADOS PELO MEDO

Nota 6,0 Testemunha oculta verdade e coloca vida de inocentes em risco em suspense razoável

Adolescência e criminalidade. Esta é uma mistura perigosa que diariamente alimenta os noticiários, mas ainda há quem pense que tal realidade é quase uma exclusividade do Brasil. Quantas famílias já enviaram seus filhos para o exterior na inocência de que em outro país as coisas são diferentes? Produções como Cercados Pelo Medo servem para dar este alerta. Embora seja uma produção modesta oriunda da TV americana, o longa escrito por Rachel Stuhler é eficiente e cumpre seu objetivo de entreter e porque não levantar uma problemática social. A trama se passa nos arredores de um colégio cujo bairro não tem boa fama e os próprios professores sabem que os alunos consomem drogas livremente e até são seduzidos a fazerem parte do tráfico, mas nenhum teve a coragem de Gloria Abraham (Penelope Ann Miller), a mais nova integrante do grupo de docentes. Em um de seus primeiros dias a caminho do trabalho, ela resolveu pegar um atalho por uma rua quase deserta onde se deparou com um homem disparando uma arma, mas aparentemente sem um objetivo a acertar. Assustada ela acaba indo embora rapidamente, mas mesmo assim Oscar Reyes (Lobo Sebastian) conseguiu gravar bem o seu rosto. Ele é um bandidão conhecido na área por tráfico de drogas e suspeito de pelo menos seis assassinatos, mas mesmo quando capturado pela polícia acaba sendo liberado por falta de provas já que possíveis testemunhas sempre somem misteriosamente. A professora comenta a cena que viu com seu namorado, Daniel Rodriguez (Yancei Arias), também funcionário da escola, mas só alguns dias depois é que descobre que foi testemunha do assassinato de um dos alunos da instituição, Dwayne Evert (Peter Pasco). O garoto fazia algumas entregas de entorpecentes para Reyes e foi acusado de não lhe entregar todo o pagamento das mercadorias. Agora quem está na mira deste criminoso é Gabriel Lopez (Shahine Ezell), amigo do falecido que também entrou para este submundo e logo é ameaçado pelo chefe que tem uma empresa de entregas de fachada e não quer seu nome envolvido com assassinatos, mesmo que para isso seja necessário cometer outros para calar testemunhas.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

THE EVIL DEAD - A MORTE DO DEMÔNIO (1981)

NOTA 9,0

Embora tosco e com erros de
continuidade, longa é referência
entre as fitas de terror por sua
ousadia e soluções criativas
Dizem que para fazer cinema basta uma boa ideia na cabeça e uma câmera na mão e foi assim mesmo que no início na década de 1980 um jovem cineasta revolucionou o gênero terror. Proibido por anos em muitos países, alguns só chegaram a vê-lo em mídia original já nos tempos do DVD, The Evil Dead - A Morte do Demônio se tornou o cartão de visitas do diretor Sam Raimi. Hoje em dia ele é um profissional muito competente que Hollywood abriga com toda a pompa e conforto possível, principalmente depois do mega sucesso da trilogia de aventuras do Homem-Aranha, um marco do cinema dos anos 2000. No entanto, seu início de carreira foi completamente diferente. Embora seus familiares não fossem do meio artístico, Raimi sempre gostou muita da sétima arte e desejava fazer parte desse mundo onde tudo é possível, inclusive ressuscitar mortos e falar com o capeta em pessoa (ou quase isso). Junto com o amigo de colégio Bruce Campbell, ele se divertia fazendo filmes caseiros até que a coisa se tornou séria com esta fita de terror de recursos escassos, mas certo apuro técnico em alguns momentos, soluções eficientes e até a “invenção” de uma câmera para dar o efeito da ótica do vilão perseguindo sua vítima, movimento que se tornou referência para produções que visam botar medo no espectador. A dupla escreveu o roteiro, tratou da produção e arrecadou o dinheiro necessário para contar a história de um grupo de jovens que aluga uma casa de campo para curtir um final de semana, mas quando chegam ao local descobrem que escolheram uma cabana bem capenga no meio do mato. Mesmo assim eles decidem ficar e começam a explorar o casebre para passar o tempo, sendo surpreendidos pela descoberta de um livro macabro escrito com sangue e encadernado com pele humana chamado “Necronomicon” junto com uma fita de áudio (um artefato de museu para as novas gerações) contendo a gravação de um historiador que ousou ler um dos trechos da publicação, provavelmente um cara metido a espertalhão que deve ter se arrependido amargamente do que fez assim como estes jovens que quando perceberam que estavam mexendo com forças negativas já era tarde demais. Ao reproduzirem a gravação que exalta os poderes do demônio em um estranho dialeto, as portas do inferno então se abrem, os espíritos malignos são despertados e um por um os jovens vão sendo possuídos e a carnificina segue sem limites.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

EU ODEIO O DIA DOS NAMORADOS

NOTA 3,5

Casal do sucesso Casamento Grego
deixa para trás toda a espontaneidade
e carisma que o marcou em reencontro
movido pela previsibilidade e monotonia
A data 12 de junho é umas das mais aguardadas pelo comércio, tempo de vender flores, chocolates, joias, roupas e os restaurantes ajeitarem os salões para abrigarem o máximo de número possível de mesas para casais. Quem está envolvido em um relacionamento, principalmente os mais jovens, também cultuam a data, a aguardam com ansiedade, mas para quem já está desencantado com o amor este dia é apenas mais um como outro qualquer. A protagonista de Eu Odeio o Dia dos Namorados vive uma situação dúbia quanto a essas impressões. Genevieve (Nia Vardalos) é dona de uma floricultura que lucra horrores com esta comemoração, mas ela própria foge de um compromisso sério. É claro que ela gosta de uma boa companhia, ganhar presentes, beijar e fazer amor, mas tem uma regra estabelecida para se proteger de futuras frustrações. Quando conhece alguém ela já se relaciona com um objetivo fixo, não cria expectativas além de cinco encontros, assim ela consegue aproveitar o melhor dos relacionamentos, a fase inicial em que tudo é maravilhoso. A primeira vez é para dar uma paquerada básica; a segunda tem que ousar um pouco mais para dar aquele friozinho na barriga e a vontade de quero mais; o terceiro encontro deve ser aventureiro; o quarto tem que ser divertido e surpreender o parceiro; e, por fim, o quinto e último deve ser inesquecível afinal deve fechar o ciclo com chave de ouro, de preferência acabando em uma cama. Passado tais compromissos é torcer para que o cara a esqueça ou ela própria passa a ignorá-lo até que ele caia na real, mas de qualquer forma Genevieve já estaria preparada para um rompimento sem traumas. Seguindo à risca essa receita, ela possui uma vida que considera perfeita e recomenda o estilo a todos, no entanto, certo dia surge uma pessoa em seu caminho capaz de fazê-la rever seus conceitos. O charmoso e bonitão Greg (John Corbett) abre um restaurante próximo à floricultura da moça, esta que se mostra interessada em mais uma conquista. A recíproca é instantânea e ela fala abertamente sobre sua teoria, o que instiga o rapaz a desafiá-la a vencer o desafio em sua companhia. É óbvio que quando a aposta está chegando ao fim o que era apenas curtição acaba se tornando algo mais sério, mas aceitando o amor Genevieve estaria traindo seus princípios e isso complica o que era para ser simples.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A TERRA ENCANTADA DE GAYA

NOTA 5,5

Desenho de origem europeia
tem bom argumento, mas seu
estilo de animação e narrativa
poderiam ser mais bem lapidados
Quando se falava antigamente em animação o sinônimo era Disney. Anos mais tarde a companhia do Mickey Mouse passou a dividir tal honra com a Pixar. No final das contas as empresas se uniram e fale de uma ou fale da outra estarão agraciando (ou difamando) as duas. Há décadas outros estúdios estão tentando chegar ao topo com suas animações, mas talvez só a DreamWorks conseguiu assustar a concorrência pesada. Se é difícil para americanos vencerem as batalhas, imagina para desenhos animados oriundos de outros países. Se as obras não estreiam em solo ianque, as chances de chegar a outros territórios também são minguadas, mas até que no Brasil muitas têm conseguido ligeiro progresso. A Terra Encantada de Gaya é um dos raros exemplos de desenhos estrangeiros que conseguiram uma passagem nos cinemas, ainda que relâmpago, antes de sair em DVD, mas nem por isso encontrou seu público. Esta é a primeira tentativa da Alemanha (em coprodução com a Espanha e a Inglaterra) em realizar uma animação computadorizada, mas apesar dos esforços mostra que ainda estão longe de brigar com cachorros grandes, não só quanto a parte técnica, pois o roteiro também deixa a desejar. A trama assinada por Jan Berger, Don McEnery e Bob Shaw, os dois últimos oriundos da Disney/Pixar, nos apresenta à “Gaya”, um programa de televisão que se passa em um universo paralelo criado por Albert Drollinger onde os personagens, híbridos de elfos com duendes, vivem aventuras que são acompanhadas por milhões de fãs. Em um dos episódios, o rei promove uma corrida automobilística oferecendo como prêmio um beijo de Alanta, sua rebelde filha que obviamente não gosta nada da ideia e quer provar que pode ser independente. Ela finge ser homem para participar do evento e provar que não é uma garotinha mimada, mas terá que enfrentar a dura concorrência de Zino e Boo, respectivamente o metido a herói e seu fiel escudeiro, que estão doidinhos por uma beijoca da princesa. Além disso, os Snurks, um grupo de trapaceiros formados por Galger, Zeck e Bramph, também estão no páreo para brigar com os Gayanos. Quando desaparece a dalamite, uma espécie de pedra mágica responsável por manter o equilíbrio desta terra, vilões e mocinhos são repentinamente arremessados para outra dimensão e vão precisar se unir para sobreviverem em um ambiente estranho.

terça-feira, 10 de junho de 2014

REFLEXOS DA INOCÊNCIA

NOTA 7,0

Apostando em nostalgia, drama
quer levar o espectados a refletir
sobre como experiências de vida
podem ditar quem seremos no futuro
Quando somos jovens a vida parece infinita e as novidades são oferecidas aos montes, assim é comum fazermos escolhas erradas, experiências que em um primeiro momento podem parecer insignificantes, porém, mais adiante poderão fazer muita diferença. A juventude é para isso mesmo, experimentar para aprender a discernir o que é certo ou errado, obviamente procurando ter cautela para não se afundar na lama precocemente. Quando chegamos à casa dos 30 ou 40 anos é comum refletirmos sobre o que vivemos a fim de encontrar respostas para situações do presente ou soluções para o futuro. Todos tem um passado e inevitavelmente ele influencia o restante da vida, seja para o bem ou para o mal. É essa consciência que o egocêntrico personagem Joe Scott (Daniel Craig) vivencia no drama Reflexos da Inocência. Ele é um ator que já viveu seu período de auge em Hollywood, mas hoje é frustrado com a fama, recebe poucos convites de trabalho e preferiu se isolar em sua mansão onde gasta seu dinheiro com extravagâncias, bebidas, drogas e sexo, recorrendo até mesmo ao decadente fone erótico com o qual sente prazer em fingir ser outra pessoa. O protagonista seria o estereótipo de várias celebridades que já experimentaram o sucesso, depois amargaram o ostracismo e procuraram compensação nos vícios e na vida promíscua. A introdução se dedica a realçar tal perfil, mas em tempos em que um filme deve fisgar a audiência em dez minutos no máximo digamos que o início da obra é um tanto arriscado com diálogos e situações que parecem desconexos e o próprio Scott é de causar repulsa com suas neuroses que conflitam com seu jeito explosivo em outros momentos. Sua percepção da vida começa a mudar quando certo dia recebe um telefonema da mãe, obviamente com quem não se comunicava há tempos, avisando que seu melhor amigo de infância havia falecido inesperadamente. A notícia mexe com seu gélido coração e assim ele é forçado a encarar seu passado, reencontrar pessoas e reviver situações, inclusive uma tragédia que causou grande impacto nos rumos que sua vida tomou. Na realidade, antes de voltar à cidade onde passou sua infância e juventude, Scott se prepara relembrando momentos importantes e que justificariam o que ele é hoje. Ao contrário da maioria dos filmes com temática semelhante, aqui os flashbacks não intercalam a trama, na realidade praticamente a sustentam.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

AMOR E OUTRAS DROGAS

NOTA 3,0

Romance, drama, denúncia e
humor apelativo se misturam
em estranha produção que não
cativa e excede em sua duração
Realizar uma comédia romântica não exige muitos esforços já que seu público-alvo quer sempre a mesma coisa: o casal protagonista unido no final. O caminho até esse final feliz, no entanto, pode ser complicado. Recorrer aos clichês de sempre é inevitável, mas também tentar fugir deles pode ser uma armadilha. Tentando servir o produto tradicional com embalagem diferenciada Amor e Outras Drogas se perde em uma narrativa que busca contar uma história de amor e paralelamente tecer críticas à bilionária indústria farmacêutica. Com inspirações no livro “Hard Sell: The Evoluttion of a Viagra Salesman” escrito por Jamie Reidy, um ex-propagandista de laboratório que resolveu escrever sobre suas experiências de trabalho, a trama começa a se desenrolar a partir de meados de 1996 quando o mulherengo Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) largou a faculdade de medicina para lucrar com sua lábia e poder de sedução em uma loja de produtos eletrônicos. Contudo, logo ele foi despedido por conta de uma denúncia de assédio (mal sabiam os patrões o que ele já havia aprontado) e acaba se interessando pela carreira de representante de laboratório farmacêutico afinal ela prometia grana alta sem precisar muito esforço. Um ano depois ele estava se formando na turma de trainees da empresa Pfizer, uma das mais respeitáveis do ramo, mas a rotina de trabalho não é moleza como esperava. Paparicar médicos que não querem saber de conversa, oferecer brindes em troca de cinco minutos de atenção e aguentar o mau humor dos pacientes nas salas de espera são alguns dos perrengues diários. Claro que com sua cara-de-pau ele tenta sempre cantar as secretárias e enfermeiras para elas o ajudarem a se aproximar de seus clientes para que eles prescrevam seus produtos para os pacientes e descartarem a oferta da concorrência. Em uma dessas maratonas acaba conhecendo Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma garota que mesmo tendo vinte e poucos anos já sofre do mal de Parkinson e tem mania de doenças. Em comum eles defendem a liberdade sexual e a falta de pudor, mas em um primeiro momento se estranham, porém, nada que uma “rapidinha” não dê jeito. O problema é que essa pequena dose de sexo passa a ser quase que diária e vicia estes dois jovens que então perceberão que a relação não é um simples flerte, ainda que a ficha caia para cada um em tempos diferentes.  Por causa da doença Maggie não quer se envolver a sério com ninguém, não sabe como será o seu futuro. Jamie também prefere o sexo casual, porém, por causa do excesso de mulheres querendo uma vez com ele. Conforme o tempo passa, no entanto, surge um sentimento a mais nessa brincadeira, algo que os fazem sentir necessidade de estarem juntos não só na cama, mas como lidar com o receio dela e a promiscuidade dele, ainda que o rapaz seja o primeiro a dar o braço a torcer e reconhecer estar apaixonado?

domingo, 8 de junho de 2014

ARITMÉTICA EMOCIONAL

Nota 4,0 Elenco forte e bons ganchos são desperdiçados por drama que fica só nas boas intenções

O tempo passou e praticamente não temos mais viva uma importante parte da História mundial. Os sobreviventes do Holocausto pouco a pouco foram falecendo, mas suas tristes lembranças continuam a serem perpetuadas através de seus descendentes e registros em jornais, livros, revistas, televisão e obviamente o cinema. Aritmética Emocional poderia ser mais uma obra a ampliar essa extensa lista de produções que preservam momentos históricos, mas infelizmente o tema do extermínio dos judeus serve apenas como uma desculpa para uma trama sobre amores esquecidos e dificuldades para lidar com traumas, porém, tudo tratado de forma muito superficial apesar de contar um quarteto de renomados atores. Não é um trabalho horroroso, pelo contrário, mas a sensação de que poderia ser um daqueles dramas de dar nó na garganta é inevitável. Roteirizada por Jefferson Lewis, a trama se passa em 1985 quando Melanie Lansing (Susan Sarandon) finalmente recebe notícias de Jakob Bronski (Max Von Sydow), um prisioneiro que a ajudou a sobreviver aos horrores da Segunda Guerra Mundial durante o período em que viveu em Drancy, um campo de concentração constituído próximo a Paris, uma espécie de entreposto de prisioneiros antes de serem enviados para os nazistas para realizarem trabalhos forçados ou serem mortos. Sentindo-se com uma dívida de gratidão, ela o convidou via correspondência para ir passar alguns dias junto com ela e sua família, mas isso não agrada muito a David Winters (Christopher Plummer), seu marido, pois acredita que tal visita poderia piorar o estado de sua esposa que recentemente saiu de uma clínica psiquiátrica e tornou-se dependente de remédios para os nervos, tudo por conta das marcas que ficaram de sua traumática infância. Por conta dessas crises, Melanie nunca conseguiu levar uma vida totalmente feliz e isso se refletiu em seu casamento que se já era estremecido ficou ainda mais complicado quando descobrem que Jakob não veio sozinho. Junto com ele está Christopher Lewis (Gabriel Byrne), outro garoto acolhido pelo bondoso senhor nos tempos de Drancy. Mais que relembrar momentos dolorosos, o encontro com esse amigo do passado traz de volta um amor adormecido.

sábado, 7 de junho de 2014

CINCO DIAS PARA A MORTE

Nota 4,0 Feito para a TV, suspense se perde em meio a situações desnecessárias ou absurdas

Desde que filmes como O Sexto Sentido, Amnésia e Efeito Borboleta surpreenderam com finais impactantes ou tramas que se sustentam na base da intriga do vai e vem no tempo, realizar um suspense de mesmo nível tem sido uma obsessão de muitos cineastas, até mesmo dos profissionais da telinha. Produzido para a TV, Cinco Dias Para a Morte tenta ser mais do que pode e acaba se atropelando nas próprias pretensões. A cena inicial mostra um homem sendo assassinado a tiros e logo em seguida um aviso informa que a ação regride cinco dias, começa em 07/06/2004, mais um dia aparentemente normal na vida de J. T. Neumeyer (Timothy Hutton), um professor de física. O dia só seria diferente por mais uma vez renovar alegrias e tristezas. Nessa data ele perdeu a esposa durante o parto de sua filha Jesse (Gage Golightly), assim a cada aniversário da garota é impossível disfarçar a melancolia. Na universidade, tudo também correria bem se não fosse um atrito que teve com um de seus alunos, Carl Axelrod (Hamish Linklater), que gostaria de tê-lo como orientador de sua tese de mestrado, mas parece que o professor não se simpatiza pelo rapaz que chega a lhe fazer uma ameaça. O dia fica estranho mesmo quando Neumeyer e a filha vão visitar o túmulo da mãe dela e magicamente ele encontra uma moderna pasta-cofre com seu nome, mas travada com senha. Justamente a data deste dia peculiar serve para destravá-la e revelar seu sinistro conteúdo. Documentações mostram que o professor estaria morto dentro de cinco dias e seria assassinado dentro de um clube de strip-tease, local que ele não frequenta. O impactante é que além de balas de revólver embaladas como se fossem para a perícia, também existem fotos comprovando a morte com ele vestindo o mesmo casaco que ganharia dentro de poucas horas da namorada Claudia (Kari Matchett), esta que se mostra incomodada com o assunto, principalmente porque seu nome consta nos boletins de ocorrência como uma das suspeitas. Carl também está na lista e Neumeyer tem certeza de que foi seu aluno que resolveu amedrontá-lo por vingança.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A PROFECIA (2006)

NOTA 3,5

Refilmagem de clássico do
terror frustra com trama
previsível, pouco sustos e aura
de golpe de marketing
A data 06/06 é repetida todos os anos, agora 06/06/06 é uma raridade e caiu como uma luva para os propósitos do diretor John Moore, vindo da aventura O Voo da Fênix. A sequência numérica 666 é conhecida por representar uma simbologia que evoca o demônio. Certamente essa coincidência única foi a justificativa para a existência de um remake de A Profecia e também é o que explica o fracasso da produção. É provável que alguns executivos perceberam tardiamente essa “data-evento” e encomendaram uma refilmagem deste clássico de terror em velocidade recorde para realizarem um lançamento mundial e oportunista, inclusive obrigando os cinemas a alterarem suas grades de horário em uma terça-feira confiando na audiência dos supersticiosos. Se perdessem essa chance para gerar burburinho em torno do temido número outra igual só depois de cem anos, porém, a pressa é inimiga da perfeição. Passado o impacto da temida e enigmática data, qual o propósito do projeto? A ideia de um remake certamente já estava sendo amadurecida para aproveitar as comemorações dos trinta anos de lançamento do longa original dirigido por Richard Donner, um marco na História do cinema e que arrecadou uma polpuda bilheteria, contudo, não conseguiu sobreviver a ação implacável do tempo, não chegando ao status de O Exorcista, por exemplo. Mesmo com a obra disponível em DVD e vez ou outra sendo exibida na TV, é difícil convencer espectadores mais jovens a conferirem a produção, assim refazê-la viria a calhar, mas o problema é que a nova versão jamais seria totalmente igual a primeira, pior ainda, teria que se adequar ao século 21. Na realidade esta refilmagem tem apenas algumas sequências adicionais e apresenta sensível queda no nível de interpretação do elenco em relação à obra original, mas a trama é basicamente a mesma. O título está relacionado a uma passagem que consta na Bíblia a respeito do nascimento do Anticristo justamente na tal data cabalística. A ação do filme começa em Roma cinco anos antes mostrando o nascimento do filho de Katherine (Julia Stiles) e Robert Thorn (Liev Schreiber), este acompanhando a comitiva do embaixador dos EUA em sua visita à Itália. Infelizmente a criança acaba morrendo no parto e antes que a mãe se dê conta Spiletto (Giovani Lombrado Radice), um padre do hospital, convence o marido a adotar um bebê que nasceu quase simultaneamente, no sugestivo dia 06 de junho às seis horas da manhã, mas cujo pai é ausente e a mãe não resistiu à cirurgia. Pensando no desespero da esposa ao saber o que aconteceu, e ainda mais com o risco de não poder mais ter filhos, Robert concorda com a adoção, mas pede sigilo absoluto.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

BRIDESHEAD - DESEJO E PODER

NOTA 3,0

Plasticamente belo, drama tem
vários temas relevantes, mas a
narrativa insossa e as interpretações
fracas comprometem o conjunto
Produções de época costumam ter como cartão de visitas sua parte estética, principalmente quando a trama possibilita a exploração de ambientes luxuosos, mas é preciso tomar muito cuidado para que os filmes não acabem virando reféns desse artifício. É isso que aconteceu com Brideshead – Desejo e Poder, mais uma obra a abordar a decadência da aristocracia britânica, porém, mergulhando fundo nesse universo frio e de aparências do início ao fim, praticamente um trabalho talhado para colecionar prêmios, porém, que somou uma assustadora quantidade de críticas negativas e merecidas. Roteirizada por Andrew Davies e Jeremy Brock, a trama se passa na Inglaterra pós Primeira Guerra Mundial, período marcado por transformações como o fato da nobreza não conseguir mais se sustentar como antes, mas ainda assim os burgueses falidos não abriam mão de suas convicções e tradições para manter as aparências e enganar inocentes como Charles Ryder (Matthew Goode), um jovem de classe média e aspirante a artista plástico para quem o contato com o mundo aristocrático era apenas uma fantasia. No entanto, ele consegue passe livre para este “mundo à parte” quando se torna amigo de Sebastian Plyte (Ben Winshaw), com quem mais tarde passa a viver um relacionamento amoroso, diga-se de passagem, mostrado de maneira um tanto tímida. Eles se conheceram na universidade de Oxford e um dos primeiros diálogos da dupla já entrega os rumos da história. Charles teria que aprender a se vestir e falar melhor, adotar um novo comportamento e postura, enfim teria que moldar um personagem caso quisesse fazer parte da alta sociedade, ou seja, o rapaz de boa índole logo seria corrompido pela ganância, viveria intensamente tudo quanto é pecado até chegar o momento de sua redenção. Em tese é isso mesmo que acontece, mas o problema é que essa transformação do protagonista não é bem construída, falta emoção a seus atos assim como para os demais personagens que atuam aparentemente a base de sedativos tamanha a desenvoltura. Sebastian parecia querer esconder sua família do namorado, mas eis que um dia decide levá-lo para Brideshead, a suntuosa propriedade de seu clã, mas o apresenta como um amigo para não afrontar a mãe, a Sra. Marchmain (Emma Thompson), uma católica fervorosa e autoritária que apesar de todos os seus esforços é frustrada por ver que dois de seus quatro filhos acabaram seguindo caminhos desvirtuados. Sebastian adora uma farra e bebida, mas sua irmã Julia (Hayley Atwell) também não é nenhuma santa e logo começa a jogar charme para o novo hóspede.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

BOBBY

NOTA 7,0

Ficção e realidade se misturam para
narrar os eventos de um dia comum
de um grupo de pessoas, mas elas não
imaginavam que tal data seria histórica   
As narrativas do tipo mosaico, aquelas que trabalham com um grande número de personagens distribuídos em diversas tramas paralelas que acabam convergindo no final ou se interligam por meio de uma temática semelhante, tornaram-se muito populares nos últimos anos, embora já fosse uma tendência defendida há tempos pelo cultuado Robert Altman, diretor com quem os atores sonhavam trabalhar, mesmo que fosse só para literalmente fazer uma ponta em suas obras. O problema é que esse tipo de produção pode ser uma armadilha para quem faz e a rejeição do público é quase certa, salvo em casos que o longa é indicado a prêmios e ainda assim as pessoas só conferem para não ficarem por fora do assunto. Estamos acostumados a tramas com poucos personagens que nos permitem avaliar simplesmente se o filme é bom ruim. Quando há muitas situações e perfis a serem desenvolvidos provavelmente nos identificamos com alguns núcleos, mas fatalmente a avaliação do conjunto é no máximo regular, pois sempre tem algum ator ou passagem que foi mal explorado. Talvez justamente por também ser ator é que Emílio Estevez quase chegou a perfeição com o drama Bobby, o qual roteirizou e também dirigiu. Tecnicamente uma produção perfeita e sem dúvidas calcada na força de um elenco de peso que faz o que pode para tornar atrativo o relato de um dia na vida de pessoas desconhecidas, mas tal data não é qualquer uma. A trama se passa em 04 de junho de 1968, dia em que o então candidato à presidência dos EUA Robert F. Kennedy estava sendo aguardado no Ambassador Hotel, em Los Angeles, para fazer um discurso em um evento comemorativo à sua campanha, porém, ele acabou sendo baleado. Cerca de quatro anos antes seu irmão mais velho John F. Kennedy já havia sido assassinado, mas um novo membro do clã tentando chegar ao comando do país entusiasmava muitas pessoas, principalmente os estrangeiros que lá viviam. Há poucos meses Martin Luther King, o defensor das minorias, havia sofrido um atentado e muitos se sentiam desamparados até este novo candidato surgir e devolver a esperança pregando a ideia de um governo justo e em busca da paz e igualdade. Estevez não dedica atenção propriamente ao atentado, mas sim as situações vividas horas antes por 22 personagens fictícios que estavam de alguma forma envolvidos com o hotel ou ao evento. Hóspedes, funcionários, convidados e voluntários da campanha mais especificamente. Todavia, o diretor passou anos pesquisando detalhes para reconstruir com perfeição o clima de entusiasmo da época abalado pela tragédia também dramatizada minuciosamente nos minutos finais.

terça-feira, 3 de junho de 2014

TOTALMENTE APAIXONADOS

NOTA 4,0

Longa explora os problemas que
o tempo de convivência traz, mas
apelas para piadas escatológicas
e personagens que não cativam
Estamos acostumados a comédias românticas protagonizadas por adolescentes, mas nos últimos anos o público mais maduro também tem se visto retratado no cinema em histórias do tipo, embora a maioria das vezes sendo pintados como adultos frustrados ou ainda irresponsáveis. Totalmente Apaixonados tem o mérito de juntar estas duas “qualidades” para desespero dos trintões e quarentões. Tentando dar uma injeção de ânimo ao combalido gênero, o diretor e roteirista Bart Freundlich, do superior Novidades do Amor, procurou falar de relacionamentos amorosos de uma forma mais madura abordando dois casais de idades semelhantes, mas com trajetórias opostas.  Rebecca (Julianne Moore) e Tom (David Duchovny) são casados já há um bom tempo e no momento estão vivendo uma realidade com a qual estão precisando se adaptar. Ela é uma atriz de cinema que decidiu experimentar a sensação de atuar nos palcos e ao vivo, o que lhe obriga a se dedicar a exaustivos ensaios. Seu marido, um publicitário de relativo sucesso, então optou por abandonar o emprego e se dedicar aos afazeres domésticos, o que inclui cuidar dos filhos pequenos. Provavelmente ambos estão passando pela crise de meia-idade, os anos de união estão pesando e eles não sabem muito bem o que querem da vida, assim de vez em quando o casal faz uma visita ao analista para tentar resolver seus problemas conjugais, principalmente os aspectos sexuais da relação. Já o outro casal é composto por Elaine (Maggie Gyllenhaal), uma escritora de livros infantis em ascensão, e o jornalista Tobey (Billy Crudup), um rapagão com síndrome de Peter Pan. Eles estão cerca de sete anos juntos, mas ainda não tornaram a união oficial, porém, a moça acha que chegou a hora de formar uma família, porém, como sonhar em ser mãe se o próprio marido seria um crianção? Em comum, além dos problemas de relacionamento, os casais têm laços de sangue e de amizade. Tobey é o melhor amigo de Tom e é o irmão mais novo de Rebecca esta que por tabela acabou se tornando muito amiga da cunhada. Perceberam o drama? Os problemas conjugais não ficam restritos as paredes de suas respectivas casas e são compartilhados entre os casais em forma de segredo, mas inevitavelmente cada dupla acaba discutindo sobre a vida dos outros defendendo seus pontos de vistas e seus próprios dilemas acabam sendo colocados em xeque no calor das discussões. E o bate-boca vai longe, pois pouco mais de uma e meia de duração parecem durar o dobro com a falta de boas piadas para dar uma arejada no texto que no fundo tem bases dramáticas.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

POR AMOR (2007)

NOTA 7,0

A história de amor é o que
menos importa em drama que
traz vários pontos relevantes a
respeito de como superar uma perda
Há males que vem para o bem. Duas pessoas acabam unidas por conta de tragédias pessoais, ou melhor, três. Assim resumidamente se define Por Amor, drama eficiente e com bom argumento, mas prejudicado pelo genérico título nacional que vende uma produção romântica adocicada. O clima gélido da cidade em que a trama se passa, cujo nome não é especificado, a trilha sonora melancólica e a opção por cores frias nos cenários e figurinos revelam o tom sério da produção. O longa de estreia do diretor e roteirista David Hollander é muito mais profundo que seu título pode sugerir e trabalha com um dos maiores medos do ser humano: a morte. Na verdade não aborda o medo individual de simplesmente deixar de existir e tampouco dúvidas se há outra vida depois desta, mas sim como os parentes dos falecidos lidam com a dor da perda. Se já é difícil se acostumar com a ideia de que alguém pode morrer por causas naturais ou por conta de alguma doença, imagina o quanto é complexo compreender que uma vida foi interrompida por causa de um ato crimino. É essa situação que acaba aproximando os protagonistas desta obra que começa com uma narração em off de Clay (Spencer Hudson), um adolescente que nasceu surdo e mudo e é através de seu relato mental que a história toma corpo. Seu pai foi assassinado por Mark Jankowski (Brock Johnson), um grande amigo da família que por coincidência aparece na última foto que ele tem do falecido, uma ironia do destino. A dor desta perda acaba levando-o a se identificar com o drama vivido por Andrew Blount (Ashton Kutcher), um jovem esportista que abandona seus sonhos abalado pelo inesperado e brutal assassinato da irmã gêmea queimada e mutilada. Ambos não só perderam de forma cruel seus entes queridos, mas também possuem a sensação de terem herdado as coisas que os falecidos deixaram, mais especificamente suas famílias machucadas para sempre. Os dois, no entanto, se conhecem por um acaso. Andrew estava acompanhando Gloria (Kathy Bates), sua mãe divorciada, a um grupo de apoio aos familiares de vítimas de atos violentos quando conheceu Linda (Michelle Pfeiffer), a mãe de Clay. Ambas as mulheres dividiram suas histórias, angústias e sonhos desfeitos com o grupo, mas a relação destas famílias sói vai ganhar laços sólidos nos tribunais. O julgamento do acusado de matar o marido de Linda não é muito explorado pelo roteiro, acaba sendo solucionado de forma rápida, mas é a desculpa necessária para aproximar a viúva de Andrew, este que terá uma longa jornada em busca de justiça.

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