segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

PINÓQUIO (1940)

NOTA 9,0

Clássico animado conquista
com história simples, mas
repleta de boas mensagens e
animação primorosa
Para alguns filmes quanto mais o tempo passa melhores eles ficam e as animações da Disney se beneficiam muito disso. Muitos trabalhos orientados de perto ou apenas idealizados por Walt Disney entre as décadas de 1930 e 1960 hoje em dia são verdadeiros clássicos, mas quando lançados foram considerados verdadeiras loucuras e não fizeram sucesso. Depois da boa recepção e repercussão de Branca de Neve e os Sete Anões, projeto desacreditado por muitos que surpreendeu a todos por sua qualidade, avanços em termos de técnicas cinematográficas e rendimento nas bilheterias, o estúdio recebeu carta branca do chefão para investir ainda mais na próxima animação. Em 1940 a equipe de desenhistas do estúdio deu mais um grande salto no campo da criação investindo em cenários e personagens bem detalhados e tomando maiores liberdades para contar a história de Pinóquio, baseado no livro clássico “As Aventuras de Pinocchio” de Carlo Collodi. A trama é bem popular em todo o mundo, mas não custa relembrar. O velho artesão Geppetto consegue adquirir um pedaço de madeira que considera muito especial e decide fazer algo inesquecível: um boneco que fosse o mais próximo possível de um ser humano, como se fosse a idealização do filho que ele nunca teve. Sua criação foi tão perfeita que nem ele próprio podia acreditava no que fez. O senhor que vivia sozinho nem desconfiava que assim ganharia um companheiro de verdade, mas as estrelas atenderam seu pedido. Graças a Fada Azul, Pinóquio, como o boneco foi batizado por seu criador, poderia se tornar um menino de verdade, desde que provasse sua lealdade e coragem, virtudes que ele deveria compreender por conta própria. Todavia, sempre que mentisse automaticamente seu nariz cresceria denunciando sua desobediência e diminuindo as chances de se tornar uma pessoa de carne e osso. Nessa jornada de aprendizados, o garoto conta com a ajuda do esperto Grilo Falante, mas nem assim ele deixa de arrumar confusão ou cair em armadilhas. O mascote da vez, um dos grandes estereótipos das produções Disney, é um dos grandes trunfos desde desenho, um personagem tão interessante e cativante quanto o próprio protagonista. Na realidade, o inseto-conselheiro foi uma liberdade dos criadores, visto que ele não existe no conto original, diga-se de passagem, bem mais soturno que esta sua versão animada. A ideia é que o personagem ensinasse ao garoto noções práticas do que é certo ou errado já que o boneco teria a personalidade parecida com a de um bebê que precisava ser educado passo a passo. A inserção deste mentor foi bem-vinda, dando mais credibilidade à trama, e o sucesso dele foi tão grande que lhe rendeu a participação em mais um longa-metragem futuramente, Como é Bom se Divertir, além de várias aparições em curtas e programas de TV.

É óbvio que Pinóquio conseguirá entrar nos eixos, demonstrando sua bravura no clímax do conto em um fatídico acidente em alto mar no qual demonstra seu amor por Geppetto. A sequência do ataque de uma baleia é mais um dos pontos relevantes da obra. São cenas difíceis para a realização na época que realçam a coloração obtida através das pinturas das cenas realizadas a base de tinta a óleo e muitas técnicas inovadoras foram utilizadas para fazer o efeito da água do mar revolto. Aliás, investir no que podia haver de mais moderno era a ordem. Foram desenvolvidas novas técnicas a fim de utilizar ao máximo todo o potencial da câmera multiplano, equipamento que sobrepunha diversas camadas de desenhos para gerar a ilusão de profundidade, por isso é possível, por exemplo, ter a sensação de aconchego do lar do artesão, efeito potencializado pelo fato dos personagens ou elementos cênicos em destaque parecerem iluminados e se destacarem em meio ao fundo de cores sóbrias. Também foi usada a técnica de rotoscópia (animação sobreposta a uma filmagem prévia) para a criação da Fada Azul e recorreram a trucagens sonoras para dar mais naturalidade às cenas quando necessária a entrada de personagens em sequências já iniciadas. Até a ousadia de mostrar o Grilo Falante em cenas-solo dirigindo-se diretamente ao espectador como se quisesse fazer confidências foi uma forma que encontraram para deixar as tomadas mais fluídas. Mesmo com todas as inovações técnicas e artísticas, é óbvio que esta obra não teria o mesmo valor se não tivesse uma boa narrativa. O enredo hoje pode ser considerado um tanto simplório e ingênuo se comparado a produções mais modernas, porém, leva vantagem pelo fato dos personagens serem extremamente bem desenvolvidos e carismáticos, inclusive os mascotes Fígaro e Cléo, respectivamente um gato e um peixe. Ambientado na Itália, o enredo construído por uma equipe de seis roteiristas levou três anos para conseguir o script definitivo, tudo para conseguir um resultado impecável atendendo as exigências do Sr. Disney. Realmente o material original é de um conteúdo universal e atemporal, tanto que ainda inspira outros trabalhos, como A. I. – Inteligência Artificial, de Steven Spielberg. Fora a explícita mensagem de honestidade e amor ao próximo, a certa altura Geppetto diz ao filho que ele deve ir para a escola, deixando implícito que é saindo de casa que um ser humano aprende realmente o que é viver e isso implica em saber lidar com os “gatunos” de plantão prontos para se aproveitar da ingenuidade das pessoas de bem. Não é a toa que um dos vilões é o gato João Honesto, nome contraditório ao seu caráter. Stromboli também é outra figura duvidosa que atravessa o caminho de Pinóquio e o convence a participar de um show de marionetes, prendendo-o em uma jaula para impedir sua fuga quando percebe a mina de ouro que tem em mãos. Não fale com estranho, eis mais um conselho-clichê da obra, mas sempre bem-vindo.

Muito elogiado pela crítica, o longa assinado pelos diretores Hamilton Luske e Ben Sharpsteen na época de seu lançamento foi considerada um fracasso. Não se tornou popular imediatamente e o público que vivia o pavor da Segunda Guerra Mundial não se interessou em vivenciar uma mágica experiência por alguns minutos no escurinho do cinema e logo em seguida embarcar novamente no pesadelo sem fim da vida real. E essa situação se repetiu no mundo todo, assim a renda das bilheterias não cobriu os altos gastos da produção. No entanto, a situação se reverteu ao longo dos anos com os diversos relançamentos que o desenho teve para as telas grandes a partir de 1945 quando os ânimos começaram a esfriar com o declínio da guerra. A partir da década de 1980, o longa passou a acumular renda com o estouro de vendas de VHS. Os especialistas até hoje dizem que esta animação é a melhor do catálogo Disney e a própria empresa reconhece a importância do título tendo o escolhido como o primeiro a ser lançado no mercado de DVDS. Pinóquio, cujo papel-título teve seu visual criado sem a necessidade de um modelo vivo para inspiração, sintetiza todos os elementos básicos de um verdadeiro clássico infantil ou em outras palavras reúne as características primordiais de um legítimo e tradicional longa animado da casa do Mickey Mouse e companhia bela, com as lições de moral e de vida que se já eram necessárias há décadas atrás imagine atualmente em que as sociedade parecem viver sem regras ou almeja tal liberdade sem pensar nas consequências. Entretanto, é triste constatar que apesar de ainda ser encantador dificilmente as crianças de hoje em dia se deixam envolver por essa mágica experiência, só mesmo as bem pequenas ou as “disneymaníacas”. É preciso que os pais não se deixem seduzir completamente pelas animações modernas e abram caminho para que seus filhos conheçam belos trabalhos do passado e tenham com o que sonhar, assim como um dia o Sr. Disney sonhou em construir um mundo encantado e certamente o conto do menino de madeira que queria ser gente foi muito importante para essa concretização. Apesar de cenas antológicas como as de Pinóquio com seu longo nariz de mentiroso ou o citado conflito com uma baleia, apresentando os personagens em apuros no interior do corpo do animal, a mais marcante sem dúvidas é a do toque que a Fada Azul dá com sua varinha de condão na marionete, momento que acabou se transformando em um símbolo da Disney, assim como a música que acompanha esta sequência, “When You Wish Upon a Star”, canção que traduz o espírito dos tempos antigos e áureos do estúdio com perfeição. Assistir a este clássico deveria ser uma obrigação de todas as crianças, mas a recomendação também vale para os adultos de tempos em tempos.

Vencedor do Oscar de trilha sonora e canção

Animação - 89 min - 1940

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