quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O PREÇO A PAGAR

NOTA 7,0

Dois homens de classes sociais
distintas se aproximam por um
problema em comum: suas esposas
só querem o dinheiro deles
O que é uma mulher dondoca? Tal rótulo geralmente é dado às esposas que não trabalham e vivem de luxos conquistados às custas do marido. Em tempos em que o valor de uma pessoa é medido primeiramente pela etiqueta de sua roupa, pessoas do tipo são cada vez mais comuns e nada melhor que o cinema francês para fazer uma crítica irônica a esse respeito, afinal a França é conhecida por suas grifes famosas que vão dos sapatos ao perfume que as madames usam. Em O Preço a Pagar, a diretora e roteirista Alexandra Leclère aborda este tema por um viés sarcástico, mas no fundo ele tem potencial para despertar polêmicas. No entanto, ela mostra os dois lados da moeda, também apresentando uma personagem que busca justamente sua independência financeira através do trabalho. São dois casais protagonistas em situações financeiras opostas, mas conflitos semelhantes. Curiosamente, os personagens menos abastados não têm sobrenome enquanto os burgueses são chamados constantemente pelo sobrenome. Todavia, na hora do aperto todos são iguais e da identificação com problemas conjugais é que nasce a amizade entre Jean-Pierre Ménard (Christian Clavier) e Richard (Gérard Lanvin), respectivamente patrão e motorista. Ambos com idades próximas, em torno de 50 anos, eles estão insatisfeitos com seus casamentos. Monsieur Ménard é um empresário muito rico que está triste com o aparente desprezo da esposa Odile (Nathalie Baye), não havendo demonstrações de carinho entre o casal e nem mesmo com a filha adolescente que entra em cena apenas para figuração, assim como a empregada da família. Sem ter com o que ocupar seu tempo, Madame Ménard se dedica diariamente às compras de roupas, futilidades e idas a salões de beleza. Vez ou outra ela se lembra de comprar algo para o marido, como se fosse para se livrar de um peso que a atormentasse, mas na verdade é ele mesmo quem está pagando e, o pior, geralmente ela erra seu número de vestimenta, o que mostra o quanto ela se interessa por ele. O casal chegou ao ponto de até dormir em quartos separados com ela justificando a medida como algo necessário por conta dos hábitos noturnos diferenciados de cada um deles.

Richard, por sua vez, está casado, ou melhor, se juntou há cerca de cinco anos com Caroline (Géraldine Pailhas) e ganhou de presente dois filhos que acolheu como se fossem seus. Tentando dar tudo o que a família necessitava, ele só pedia em troca amor da esposa, mas há uns seis meses ela cismou que tinha talento para ser escritora e tem dedicado todo seu tempo a essa atividade, assim deixando o marido de lado. Talvez impulsionado por sua própria situação, quando Monsieur Ménard lhe dá brecha Richard fala o que pensa da maneira como a madame trata o marido. Não acha que ela deve trabalhar para pagar seus luxos, mas considera um absurdo ela se aproveitar de um dinheiro alheio sem oferecer nada em troca. Assim ele propõe ao patrão que cancele cartões de crédito e não dê mais dinheiro à esposa até que ela aceite a ter novamente uma vida sexual ativa com o marido. O problema é que Ménard nesta tentativa vai descobrir que Odile nunca o amou de verdade, deixando no ar que a filha do casal foi fruto da ambição da mulher que não queria perder sua mina de ouro. Mesmo praticamente dizendo que se sentiria um pedaço de carne prestes a ser devorado, a dondoca vai para a cama e cede ao desejo do marido que no dia seguinte retribui o favor com um polpudo pagamento. Nesta excêntrica relação na base da chantagem, o executivo se sente insatisfeito e estreita laços de amizade com o motorista, que se torna seu confidente, chegando a convidá-lo e a sua esposa para um jantar em sua casa, um evento que se transforma em uma lavação de roupa suja e deflagra guerra entre os dois casais. Ménard então tem certeza de que a esposa não o ama, afinal ela diz com todas as letras que precisa se embebedar porque assim que os convidados forem embora é que sua noite começa de verdade, uma referência a tortura que significa ter que dividir a mesma cama com ele. Contudo, a frieza desta mulher parece ser só com o seu cônjuge, afinal ela chega a dar em cima até do motorista elogiando sua boa forma. Já no caso de Caroline, pelos diálogos, fica entendido que ela se uniu à Richard realmente por interesse, para ter quem a sustentasse e a seus filhos, e no momento ela está dividida entre jogar tudo para o alto e ir em busca da realização do seu sonho ou se manter frustrada, mas ao menos ter a certeza de que suas contas serão pagas. É interessante que a cena do jantar, pela maneira como os protagonistas são disposto à mesa, passa a ideia que a diretora apostaria na previsibilidade da troca de casais, mas felizmente ela não envereda pelo caminho da obviedade, ainda que ensaie cair na mesmice ao criar situações que buscam comparar o físico robusto do motorista ao corpo flácido de seu patrão, o velho clichê da aparência é tudo.

A cineasta deixa bem exposta sua temática sem fazer muitos rodeios logo nos primeiros minutos de projeção. Ainda que o cinema francês sofra preconceito tolo por muitos ainda acharem suas produções sinônimos de chatice, quem se aventurar deve se sentir instigado a acompanhar o desenrolar destas duas histórias paralelas e semelhantes, pois é possível se identificar com os personagens, seja por já ter vivido ou acompanhado situações semelhantes ou até mesmo por a diretora investir em estereótipos e clichês já bastante conhecidos em comédias. Além disso, o contexto social e as críticas envolvidas no enredo são conexões universais, não temas restritos ao mundinho europeu, inclusive algumas piadas já são até clichês de telenovelas, como a ricaça sem dinheiro para o táxi ter que se conformar em pegar um metrô e se misturar com a ralé, mas a sua cara de enojada prova que ela está disposta a qualquer coisa para não viver novamente momento semelhante. Com raiva do marido que aparentemente foi buscar diversão na rua, Odile vai encher a cara em um bar e acaba sendo confundida com uma mulher de vida fácil e aceita ir para a cama com um desconhecido, no entanto, ela não consegue se prostituir, mas aceita a proposta de encontrá-lo outras vezes apenas fazer companhia ao tal homem na cama em troca de dinheiro e um bom café da manhã, afinal Ménard dispensou a empregada e comprava comida pronta só para ele. Enquanto a trama do casal burguês vai seguindo um caminho mais cômico, talvez uma alfinetada que possa ser interpretada como uma forma de dizer que os ricos não têm problemas sérios, mas fazem uma tempestade em copo d’água por qualquer motivo, a história do casal mais simples é marcada por contornos mais dramáticos. Caroline não se uniu a Richard para ganhar jóias e roupas finas, sabia muito bem a quem estava se ligando. Aproveitando-se de seu bom coração, o elegeu como tábua de salvação, queria apenas alguém para sustentar a ela e seus filhos enquanto eles eram pequenos. Quando crescidos, ela se sentiu pronta para trabalhar e tentou fazer o que gostava, mas sem sucesso mostra-se disposta a aceitar qualquer emprego, tudo para conseguir dinheiro e poder sair de casa. O Preço a Pagar traz desfechos realistas aos dois casais, ainda que possam ser interpretados em um primeiro momento como desleixo de Alexandra, mas se analisarmos bem eles são totalmente críveis e acontecem com mais frequência que imaginamos. Filme francês pode ser reflexivo e divertido ao mesmo tempo, eis a prova.

Comédia - 90 min - 2007 

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