segunda-feira, 24 de setembro de 2012

GNOMEU E JULIETA

NOTA 8,0

Clássico de Shakespeare é
adaptado para o universo
infantil com modificações e
protagonizado por anões de jardim
Tragédia não combina com o universo infantil, isso é fato, porém, quem disse que uma história triste não pode ser adaptada para ao universo dos pequenos? Baseado no romance “Romeu e Julieta” de William Shakespeare, Gnomeu e Julieta é mais uma animação a provar que o gênero pode ajudar as crianças a se aproximarem de uma literatura mais madura e clássica, tal qual a Disney já fez com Pocahontas e O Corcunda de Notre Dame, por exemplo, mas no caso o diretor Kelly Asbury muniu-se de um arsenal de piadas visuais e no roteiro para chamar a atenção da criançada. Co-diretor de Spirit – O Corcel Indomável e Shrek 2, o cineasta procurou nesta nova incursão no campo das animações não ser tão sério quanto na aventura do cavalinho, porém, sua incursão pelo mundo shakespeariano também não se revela tão divertida quanto seu passeio pelo reino de Tão Tão Distante, ou melhor dizendo, não se revela tão anárquica. Apesar de carregado de citações a filmes de sucesso e a referências populares e modernas, Asbury pegou mais leve no humor desta vez até porque tinha a preocupação de manter a essência do conto original, ainda que modificando o texto em vários pontos para atenuar a dramaticidade. A primeira cena traz um gnomo avisando que a história que está prestes a ser contada não é inédita, pelo contrário, já ganhou centenas senão milhares de adaptações mundo a fora seja em forma de filmes, especiais de TV, espetáculos teatrais, histórias em quadrinhos, enfim todas as plataformas midiáticas já usufruíram da essência daquele que é considerado o conto mais romântico de todos os tempos. Só para nos atermos no campo da sétima arte, considerando desde os tempos dos filmes mudos é uma conta trabalhosa somar o número de versões que tal narrativa já rendeu, mas é uma pena que a maioria das versões peca pela falta de originalidade, mas o desenho em questão surpreende positivamente. A rivalidade entre os Capuletos e os Montecchios continua sendo o mote principal, mas os visuais dos personagens e da ambientação da história mudaram bastante. Saem de cena as pessoas e os suntuosos cenários originais para entrarem em seus lugares os anões de jardim que vivem em gramados cercados de vegetação abundante e de cores vibrantes. Tais adornos de quintal conseguem conquistar logo a primeira vista com suas aparências simpáticas e personalidades bem delineadas, mas a opção por eles foi um risco assumido por Asbury visto que eles estão em desuso, uma ousadia ainda maior subvertendo a tragédia a um ambiente fantasioso onde tudo pode acontecer.

Em um subúrbio londrino, os jardins de duas residências vizinhas chamam a atenção por sua beleza e a paz que aprece imperar, mas os bonitos enfeites de cerâmica que estão expostos por lá não são meros ornamentos. Tal qual em Toy Story, quando não há humanos por perto os bonecos levam uma vida comum como qualquer pessoa de carne e osso e isso inclui as discussões com os vizinhos. Os gnomos azuis, sob o comando da Sra. Montecchio, vivem em pé de guerra com os moradores do outro lado da cerca, os gnomos vermelhos, estes obedecendo as ordens do Sr. Capuleto, dois grupos rivais que passam seus conflitos de geração para geração. Entre sabotagens, disputas e palavras depreciativas, eis que um dia o inesperado acontece. Por causa de uma orquídea rara que nasceu no alto de uma estufa presa a uma árvore cujos galhos ocupam o terreno das duas propriedade quis o destino que se encontrassem Gnomeu e Julieta, respectivamente representantes dos azuis e dos vermelhos. Ambos resistem inicialmente ao interesse que sentem um pelo outro, mas aos poucos começam a evidenciar que estão apaixonados, mas como viver esse amor quando as famílias inimigas estão tão próximas? O primeiro encontro dos dois é uma cena belíssima, digna de filmes de romance, mas não tarda para a sequência ser ironizada. De qualquer forma, mais uma vez o tema dos dois jovens apaixonados que vivem um amor impossível devido aos conflitos existentes entre suas respectivas famílias pode conquistar novas gerações. O romance é meloso e paradinho demais? Esqueça as adaptações clássicas. O roteiro escrito pelo próprio Asbury, inacreditavelmente dividindo os créditos da função com mais oito pessoas, prioriza o ritmo frenético e toma diversas liberdades para atenuar o texto shakespeariano para conquistar os mais novinhos, mas sem esquecer-se de homenagear um dos mestres da literatura mundial. Uma estátua do autor aparece em determinado momento para dialogar com Gnomeu sobre “Romeu e Julieta”, sem dúvidas a sua obra mais popular, e entrega que sua história é muito boa porque literalmente é uma tragédia, morre todo mundo no final. Tal citação é uma ironia do cineasta que obviamente teve que fazer uma manobra para garantir um final feliz ao casal de pombinhos, mas assistir a este trabalho já sabendo que a felicidade impera no final, com direito a show de dança a la Shrek e sua turma, não estraga a agradável surpresa de acompanhar os eventos que convergem em tal conclusão. O contentamento é ainda maior ao descobrirmos que existe sim a possibilidade de filmes de animação fora das empresas Disney, Pixar ou Dreamworks, modelos de sucesso, mas que também já contabilizam alguns fracassos devido a repetição de fórmulas.

Pequenos detalhes visuais ou nos diálogos comprovam o eficiente emprego do humor e da criatividade de todos os envolvidos. Seguindo tendências, obviamente não faltam referências a outros filmes de sucesso para fazer graça como, por exemplo, Gnomeu se disfarçando como um guerrilheiro no melhor estilo Rambo. Outras piadas surgiram do próprio conto escrito em meados do século 16, assim algumas referências foram readaptadas como os clássicos duelos de espadas que foram substituídos por uma corrida de aparadores de grama, que por sua vez fazem alusão as famosas disputas de bigas de Ben-Hur (diga-se de passagem, situação que levou ao estopim de mais uma briga entre as famílias). Ainda há referências a O Exterminados do Futuro, Tango e Cash e a modismos como uma brincadeira com a empresa Apple no qual seu símbolo é trocado, uma maçã por uma banana. Além do roteiro divertido e criativo, merece atenção o visual dos anões de jardim, totalmente verossímil, quase real. Os mais novos tem um brilho sutil enquanto os mais velhos aparecem com alguns defeitos na pintura indicando o seu tempo de uso e em ambos os casos os sons que eles fazem quando se movimentam lembram o toque de uma peça de cerâmica ou de gesso em uma outra. São pequenos detalhes que encantam e diferem a produção, assim como Shrek e sua turma que tem traços e aspectos característicos e que viraram marca registrada. Embora este projeto seja mais modesto, tanto em objetivos quanto visualmente, isso não foi problema para as equipes de criação e animação cujos trabalhos ganharam mais vida com os hits selecionados para a trilha sonora, alguns sucessos conhecidos e outros inéditos, inclusive alguns compostos por Elton John, um dos produtores executivos do longa. A opção de levar uma narrativa adulta e dramática para o universo infantil em um primeiro momento pode espantar negativamente, mas felizmente Gnomeu e Julieta dosa bem o seu nível de infantilização. Apesar da pouca duração e do mal aproveitamento dos personagens coadjuvantes, como o flamingo Featherstone e a rã Ama, ambos a favor do relacionamento dos protagonistas, esta é uma boa oportunidade de instigar o público infantil a se interessar por literatura de uma maneira envolvente e sem ferir a inteligência ou a paciência dos adultos que também devem se divertir bastante. Para quem conhece o conto romântico até de traz para frente, esta animação sacia com folga o anseio por novidades em termos de adaptação. Apesar das liberdades tomadas Shakespeare não deve ter ficado chateado.

Animação - 84 min - 2011 - Dê sua opinião abaixo.

3 comentários:

Gilberto Carlos disse...

Adorei esse filme. Tem umas músicas bem bacanas do Elton John, além da hilária dublagem de Jason Statham fazendo o vilão.

renatocinema disse...

Gostei dessa animação. Porém, esperava algo melhor.

Não é espetacular, mas agrada.

Mateus Leite disse...

Gostei do filme. A trilha sonora é muito boa. Mas o roteiro achei fraco, mas mesmo assim achei uma boa animação.
Visite também:
mateus-leite.blogspot.com

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