sexta-feira, 2 de maio de 2014

PSICOSE (1998)

NOTA 8,5

Refilmagem de clássico suspense
segue a risca o original, mas lhe falta
aura de mistério e personalidade, 

ainda que seja uma opção acima da média
Por que refazer um filme considerado perfeito? Em contrapartida, a reposta pode ser e por que não fazer? Pois é justamente essa indagação que o cineasta Gus Van Sant assumidamente ofereceu como justificativa para milhares de pessoas que não viam razão para um remake de Psicose, um clássico por acaso do cultuado Alfred Hitchcock. A obra original foi concebida apenas para cumprir um contrato do diretor com a Paramount antes de seu desligamento e por isso ele não queria perder tempo e nem dinheiro e trabalhou em cima de um projeto pequeno que quis o destino que se tornasse uma de suas maiores obras. A legião de fãs, que só veio a somar adeptos com o passar dos anos, torceu o nariz logo que as primeiras informações sobre a refilmagem começaram a pipocar. Reinventar uma obra do mestre do terror seria como resgatar para a modernidade um dos trabalhos de Charles Chaplin, ou seja, invariavelmente iria se perder alguma coisa pelo caminho para atender as novas exigências do mercado. Contudo, Sant colocou sua cara a tapa e com o respaldo do sucesso inesperado de Gênio Indomável entre plateias adolescentes, adultas e até com os críticos conseguiu finalmente realizar um de seus maiores sonhos e não causou a decepção esperada, pois fez praticamente uma réplica copiando fotograma por fotograma com atenção especial para reproduzir cenários, diálogos e até repetir as características físicas dos personagens, isso sem se esquecer de utilizar a clássica e marcante trilha sonora que de tão difundida já foi utilizada até em sátiras de filmes de terror e em publicidade para vender mata insetos, o que não deixa de ser um ultraje afinal não é uma melodia qualquer, foi composta para o filme de um cineasta de peso. Bem, como dizia Sant em 1998, muita gente hoje em dia sequer sabe do que se trata esta obra e como o público está sempre se renovando vamos ao enredo baseado nos escritos originais de Joseph Stefano. Em Phoenix, no Arizona, Marion Crane (Anne Heche) é uma infeliz secretária de uma imobiliária que tem raros momentos de felicidade ao lado do namorado Sam Loomis (Viggo Mortensen), dono de uma loja de bugigangas, assim o futuro não lhe parece muito promissor. Certo dia, em uma sexta-feira, seu patrão lhe confia a exorbitante quantia de 400 mil dólares para ser levada ao banco. A tentação é maior e a moça decide roubar o dinheiro e fugir da cidade. Na segunda-feira, quando descobrissem o roubo, ela já estaria longe e só então se comunicaria com o namorado para marcar um ponto de encontro e enfim conseguirem construir uma vida juntos.

No chuvoso sábado a noite, ela já estava cansada de dirigir por horas seguidas e decide pernoitar em um decadente motel de beira de estrada onde conhece o gentil Norman Bates (Vince Vaughn), o dono e administrador do local que vive às moscas desde que mudaram o trajeto da avenida principal. “Doze quartos, doze vagas”, diz o rapaz com ares de felicidade por finalmente ter uma hóspede, por isso ele faz de tudo para deixá-la a vontade, inclusive lhe servindo um lanche em seu escritório para não criar constrangimentos de um homem entrar em seu quarto. Eles conversam sobre a vida, a melancolia do lugar, o hábito dele de empalhar aves, mas a simpatia inicial se esvai completamente quando o assunto é a mãe dele que vive no casarão que fica atrás do motel. Com problemas mentais e constantes crises nervosas, ela nunca sai de casa e tem um relacionamento opressor com o filho que se acostumou a viver isolado e a disposição de seus caprichos. Marion indaga porque ele não a coloca em uma instituição psiquiátrica e o caldo entorna de vez e ela decide ir para o seu quarto tomar uma ducha e descansar. Neste momento temos algumas das principais mudanças do remake. Com sexualidade reprimida, embora há quem repare que suas roupas justas e trejeitos possam transparecer traços de homossexualidade, Bates tem estrategicamente um furo escondido na parede que dá visão ao banheiro do quarto ao lado da recepção, assim ele observa Marion no banho e se masturba, algo que não havia na fita original. Em seguida, não é surpresa alguma o que acontece para qualquer um que tenha ouvido falar minimamente sobre o filme, antigo ou “moderno”. A moça é esfaqueada várias vezes e um balé de câmeras tenta captar por diversos ângulos a cena, inclusive a inédita visão de cima do chuveiro quando o corpo dela cai e seu sangue com cor alaranjada (o tom que fica quando em contato com a água) é acompanhado até ser tragado pelo ralo. Em seguida, a câmera então fixa no olho de Marion vai se deslocando lentamente a fim de captar detalhes do estado em que o banheiro ficou até chegar no quarto e flagrar intacto o jornal no qual ela embrulhou o dinheiro roubado, comprovando que o crime não foi motivado por interesses materiais. Minutos depois, Bates entra no quarto e se desespera como se tivesse certeza que sua mãe é a responsável por medo de que ele se interessasse por Marion e o afastasse dela. É incomoda a maneira como ele lida com a situação, limpando tranquilamente o quarto e embrulhando o corpo na cortina do banheiro, mas ficamos hipnotizados com o sangue frio do rapaz em colocar a moça no porta-malas de seu próprio carro e depois atirá-lo em um pântano da região junto com todos os seus pertences, inclusive o jornal dobrado que não lhe levantou suspeitas quanto ao volume elevado. Com o passar dos anos, termos ligados a palavra psicose tornaram-se populares justamente por causa do filme e passaram a ser usados deliberadamente para adjetivar pessoas com desvios de caráter, conduta ou personalidades esquizofrênicas, assim não é difícil imaginar o que existe de verdade no icônico personagem Norman Bates, sua relação com a mãe e o tal assassinato, mas para quem desconhece o assunto fica  o incentivo para assistir  filme. Todavia, a trama não se resume a isso.

Após o fim de semana sem notícias, Lila (Julianne Moore), irmã de Marion, resolve procurar Loomis a fim de notícias e a mesma ideia tem o detetive Milton Arbogast (William H. Macy) que foi contratado pelo patrão dela para investigar o roubo de sua empresa. O namorado nada sabe sobre o paradeiro da moça e os três então passam a investigar pistas sendo que o detetive é o primeiro a ser atraído até o Motel Bates. Um personagem na toca do bandido, dois a procura da mulher que sumiu... Bem, realmente é previsível o que acontece e talvez isso explique o porquê da refilmagem de Psicose não ter sido um grande sucesso. Embora tenha se esmerado a seguir todos os passos de Hitchcock, inclusive seguir a risca o mesmo cronograma de filmagens do mestre, falta aura própria a esta fita. Aos fanáticos pelo original, pode ficar a estranha sensação de estar vendo uma cópia colorizada do clássico com o acréscimo de versões alternativas de algumas cenas, mas para quem jamais assistiu tal versão a diversão está garantida sem dúvidas, pois é um suspense acima da média. O empecilho para novas plateias pode ser o fato de que a tensão oferecida não é no estilo que estão acostumadas e provavelmente fantasiavam acerca de um personagem que virou símbolo de vilania. Quem espera ver um sádico serial killer colecionando corpos com certeza vai se decepcionar, ainda que fique no ar que assassinatos são corriqueiros na história da rotina do motel Bates. Contudo, a refilmagem pode instigar a curiosidade para conhecer o antigo filme. Se o de 1998 não é assustador como se esperava, o que havia de tão assombroso naquele realizado em 1959? Os tempos eram outros, muitos assuntos eram proibidos e até a opção de filmá-lo em preto-e-branco foi exclusivamente para esconder a coloração avermelhada de uma única sequência que poderia impactar e gerar boca-a-boca negativo. Certamente, não é difícil encontrar pessoas para apontar falhas na produção, sendo as mais visíveis a ausência de sangue na faca entre as estocadas em Marion e a mudança de comportamento de Bates que deveria ser tão simpático a ponto de deixar o espectador na dúvida quanto a seus problemas mentais, além é claro do perfil da jovem assassinada também ser alterado excluindo a possibilidade de ela mesma ser a psicótica da história (sim, havia esse interpretação originalmente). No conjunto, parece mesmo que faltou personalidade à produção. Com medo de reprovações, Sant simplesmente se anulou como cineasta e copiou tintim por tintim algo excepcional e que já faz parte do inconsciente popular e universal, assim limitou também seu elenco que conscientes de estarem tendo a chance de interpretar personagens célebres também preferiram não criar nada a mais que os originais. Dos males os menores. Podem não ter reinventado a obra a cultuada, mas felizmente também não a reduziram a pó, pelo contrário, mantiveram um nível que faz com que a refilmagem seja uma ótima pedida até hoje assim como a clássica.

Suspense - 105 min - 1998 - Dê sua opinião abaixo.

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