quarta-feira, 14 de maio de 2014

GOMORRA

NOTA 7,0

Procurando desmistificar a
imagem de glamour em torno da
máfia, longa abusa do realismo e não
envolve o espectador completamente
Gangue ou máfia? Qual o melhor termo para se referir ao grupo de pessoas ligadas ao crime organizado? Bem, as duas caem muito bem, mas dependendo do nível cultural e financeiro dos envolvidos apenas uma é a melhor escolha. Quando falamos em facções criminosas no Brasil dificilmente nos vem a cabeça a imagem de engravatados, mas sim de marginais que sonham com roupas da moda e correntes gigantes de ouro penduradas no pescoço, mas se falarmos por exemplo em bandidos italianos logo resgatamos as lembranças dos criminosos elegantes do clã protagonista de O Poderoso Chefão, longa que ajudou a dar certo glamour aos inescrupulosos foras-da-lei. No entanto, há tempos e no mundo todo, criminosos que ouvem ópera e fumam charutos dividem o cenário da criminalidade com bandidos pé-de-chinelo adeptos de drogas e música popular. Enquanto a elite dá ordens a ralé tenta cumprir tudo direitinho sonhando inocentemente com o dia em que serão promovidos, pena que quando estão no limite dos esforços também estão prestes a terem suas vidas interrompidas por acertos com a Lei ou com os próprios criminosos. O filme Gomorra aborda justamente isso: como o mundo do crime tem poder de persuasão, a sedução do dinheiro fácil que cega novos adeptos que pedem para entrar nesse perigoso universo como se pedissem emprego em uma vendinha na esquina. Mal sabem alguns no que estão se metendo. O título é um trocadilho com uma conhecida figura de escrituras católicas, um Deus que propagava a ideia de que a destruição é uma obra do próprio ser humano. Entrelaçando algumas histórias de pessoas envolvidas de forma direta ou indiretamente com a Camorra, nome dado a máfia da cidade de Nápoles, na Itália, o longa mostra como a organização incentiva a degradação do homem e consequentemente de tudo que o cerca em busca de poder e riquezas. A obra ganhou repercussão internacional e chegou a ser considerado a versão italiana do nosso Cidade de Deus, mas com o acréscimo de mais violência. O roteiro do jornalista Roberto Saviano (dividindo o crédito na função com outros cinco autores) é uma adaptação do livro homônimo de sua própria autoria no qual se baseou em uma série de entrevistas com cidadãos napolitanos e em suas próprias experiências infiltrado na máfia local. A obra vendeu milhares de exemplares na Europa e irritou os mafiosos, obrigando o autor a viver durante um bom tempo sob proteção policial. Com relatos tão verídicos em mãos, não é a toa que o filme soa realista demais, chegando a algumas passagens fazerem o espectador se sentir mal diante de tanta crueldade. É preciso ter estômago, sem dúvida, mas também atenção para não perder o fio da meada.

O roteiro acompanha cinco histórias, creditadas separadamente e com um grande número de personagens envolvidos, mas todas sobrepostas, com ligação com o crime organizado e tendo a decadência social como pano de fundo, uma montagem bem no estilo filme-mosaico de Traffic e Crash – No Limite. Embora tal opção não seja uma unanimidade em aprovação por parte dos espectadores, é certo que essa estrutura ajuda a enxergarmos vários ângulos de uma mesma temática dando um panorama geral das complexas relações estabelecidas, neste caso, para sustentar o mundo do crime. Algumas tramas podem nos envolver mais, outras nem tanto, isso é natural. Logo na introdução temos um grupo de mafiosos fazendo tratamentos de beleza em um espaço exclusivo para tais vaidades masculinas, mas eles são surpreendidos por um bando armado que os assassinam sem pestanejar, queima de arquivo ou por razões de rivalidade, tanto faz. O que importa é que essa mesma frieza guiará os personagens principais em busca do poder através da ilegalidade. Dante (Alfonso Santagata) é um executivo que é pago por industriais para sumir com o resíduo tóxico de suas fábricas e despeja os detritos em uma pedreira desativada sem preocupação alguma dos efeitos nocivos que isso traria a população vizinha ao terreno. O jovem Toto (Salvatore Abruzzese) tem apenas 13 anos e já trabalha como mensageiro para um grupo de traficantes de drogas e armas e o contato com este universo o leva a sonhar com a vida de mafioso para seu futuro. Pasquale (Salvatore Cantalupo), um alfaiate contratado secretamente por chineses para treinar operários para confecções ilegais de alta costura, descobre tardiamente no que realmente se meteu e subitamente se vê em perigo. Don Ciro (Gianfelice Imparato) é tesoureiro do crime, o responsável por levar dinheiro a famílias cujos membros, também bandidos, estão presos ou mortos, uma espécie de cala boca. Por fim, Marco (Marco Macor) e Ciro (Ciro Petrone) são dois jovens fascinados por violência, vivem de pequenos delitos e que enxergam o universo do crime de forma cinematográfica, um glamour que a máfia italiana não respira já a algum tempo. Os outros personagens fazem as vezes dos demais habitantes de Nápoles e adjacências que têm suas vidas regradas pelas ordens da Camorra. Quem não adere ao crime, por vontade própria ou simples persuasão, certamente não levará uma vida tranquila até que ceda à causa ou acabe sendo uma vítima fatal. 

O diretor Matteo Garrone utiliza o tom realista para expor como a expansão do crime organizado afeta a sociedade como um todo, mas a medida é positiva e também negativa. O lado bom é que a organização criminosa é vista em sua forma mais perversa longe da glamorização de filmes hollywoodianos que certamente influenciaram os personagens Marco e Ciro a flertarem com gente grande deste universo sujo. Falando nisso, os cenários pobres e escuros, a predileção por luzes naturais que acarretam muitas cenas sombrias, assim como a maioria dos personagens que se apresentam mal vestidos e obcecados pela ganância e a violência, conseguem causar uma sensação de repulsa perturbadora. Para quem gosta de um mínimo de requinte estético, melhor procurar alguma produção norte-americana em que os bandidos andam de carros conversíveis e bebem uísque importado. Essa comparação serve até como uma experiência. Certamente nenhum filme ianque do tipo sobreviverá em sua memória tanto tempo quanto Gomorra, principalmente pela sua cena final que é um verdadeiro choque de realidade sem precisar recorrer a violência (bem, não nos moldes como estamos acostumados a ver). Por outro lado, mostrando de forma crua o submundo napolitano, Garrone também conseguiu deixar seu trabalho desinteressante. Nenhuma trama paralela desperta realmente a atenção do espectador que tende a “boiar” na narrativa desde a primeira cena já que o diretor não faz questão de organizar a intercalação de suas narrativas, parecendo que tudo é jogado na tela. Porém, a graça é justamente essa. Fugindo do esquema de cinema mastigadinho, Matteo propõe que o espectador preste atenção a cada detalhe para montar pouco a pouco o quebra-cabeça em sua mente enquanto busca em seu inconsciente conhecimentos gerais para formatar o universo em que cada história é desenvolvida, assim não é de se estranhar que os dramas de Toto e dos amigos Marco e Ciro se tornem as mais interessantes, pois dialogam com o conteúdo de filmes mais comuns que mostram o processo de sedução do inocente para ingressar na ilegalidade. As sequências do alfaiate e do empresário do lixo já soam mais distantes da maior parte dos espectadores, pois exigem conhecimentos mais específicos a respeito do universo corporativo, embora estejam longe de serem incompreensíveis. O fato é que falta emoção e sobra violência neste filme o que pode torná-lo enfadonho, algo acentuado por sua longa duração, assim não é fácil manter o foco de atenção, exige uma concentração maior por parte do espectador que não deve ter medo de expor sua verdadeira opinião diante da ameaça de prêmios e do longa ser baseado em um best-seller. Sem dúvida é um produto com conteúdo, estética diferenciada e que alcança seus objetivos de denunciar uma triste realidade, mas é fato que é uma obra para um público restrito e ainda assim com o risco de colher críticas negativas neste nicho afinal o realismo não é um tipo de quadro bonito tão pouco agradável de se ver.

Suspense - 137 min - 2008 

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