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NOTA 9,0 Fatos verídicos e ficcionais casam-se com perfeição em drama que expõe os podres da vida de um ditador pouco conhecido |
Quando você vota em um político,
principalmente para presidente e outros cargos de alto escalão, você sabia que
estará definindo não só o futuro do seu país como também pode ajudar a
interferir nos rumos da História mundial? Para tomarmos conhecimento disso é
que são de suma importância filmes como O Ditador que revela
particularidades a respeito da vida de Rafeal Leonidas Trujillo. Quem? Pois é,
seu nome dificilmente consta nos livros escolares e tampouco é mencionado
quando a ditadura é destaque em retrospectivas e especiais da imprensa, mas sua
carrasca atuação no comando da Republica Dominicana por três décadas seguidas,
tendo seu auge em meados dos anos 50, interferiu também nos caminhos traçados
por outros países. Baseado no romance “A Festa do Bode”, do peruano Mario
Vargas Llosa, o longa apresenta de forma dinâmica momentos acerca da vida
pública e pessoal do governante, interpretado brilhantemente por Tomas Milian,
que lançava mão de arrogância, autoritarismo, cinismo, chantagem e até mortes
para se manter no poder, bradando aos quatro ventos que só deixaria a política
quando estivesse morto. Assim como todas as suas ordens eram acatadas, o
destino se encarregou de mais esse pedido. Ele foi assassinado no final de maio
de 1961, mas conhecer seu desfecho não anula o potencial do longa dirigido por
Luis Llosa, primo do autor do livro. Os méritos da obra, adaptada pelo próprio
cineasta em parceria com Zachary Sklar, estão em falar sobre os sujos
bastidores da política de forma a envolver o espectador em uma trama dividia em
três partes que se intercalam. A primeira é protagonizada por Urania Cabral
(Isabella Rossellini) que em 1992 estava voltando ao seu país-natal após 31
anos de ausência. Ela vai direto para a casa do pai, Augustín Cabral (Paul Freeman),
um homem que um dia chegou a ser o Presidente do Senado, mas hoje é apenas um
velho esquecido e doente. As empregadas e parentes dele acreditam que a filha
voltou por conta de seu aniversário de 80 anos, mas na verdade ela finalmente
criou coragem para confrontar seu passado. Sem marido e nem filhos, ela é uma
advogada ávida por justiça e História de seu país, porém, ela não acha na
literatura local detalhes sórdidos sobre a vida de Trujillo e aqueles que o
cercavam. Cabral era o braço direito do ditador e muitas vezes compactuou com
seus crimes, que incluíam pedofilia, para conseguir status e bens materiais, mas
uma única vez que o afrontou foi o bastante para o político se irritar e o banir de seu grupo,
chegando a acusa-lo de desfalque na imprensa.
Perdendo as regalias, Cabral se
desespera e é aconselhado a fazer uma loucura para servir como prova de
confiança ao Chefe (como Trujillo era comumente chamado pro seus aliados), algo
que seria a prova de que ele estaria ao lado do ditador irremediavelmente. A
ambição fala mais alto e tal ato mudaria para sempre os rumos da Republica
Dominicana como um todo, pois pela primeira vez o governante se sentiu
realmente desafiado. Urania e seus familiares são personagens fictícios que
sintetizam alguns dos males que Trujillo causou e suas tramas se encaixam
perfeitamente aos fatos verídicos que o longa aborda. Paralelo às memórias e
revelações da advogada, que vão chocar a família e justificar sua fuga quando
adolescente, acompanhamos os últimos dia de vida de Trujillo, incluindo a
preparação do grupo que jurou assassiná-lo para se vingar de seus atos que iam
desde humilhação até mortes. Para compreendermos este gancho é preciso prestar
atenção aos detalhes da terceira linha narrativa. Cada cena e diálogo são de
suma importância para entendermos como alguns podiam idolatrar o ditador
enquanto outros nutriam ódio avassalador. O primeiro crime revelado de Trujillo
é contra o escritor Jesus Galíndez (Gary Piquer) que participou de seu governo
por sete anos e que se desligou para se dedicar a livros e palestras que
revelam as fraudes e atrocidades do governo do ditador, deixando claro que a
semente para a decadência da ditadura estava sendo plantada pelo próprio líder.
Certa vez, após uma de suas apresentações, o escritor é capturado e levado para
dar explicações ao Chefe que manda imediatamente que o executem a sangue frio.
Em público, o mandante se defende dizendo que os boatos que o ligam a tal
assassinato é fruto de comunistas americanos que o querem fora do poder, mas
que enquanto ele estiver no comando toda a população estará a salvo da
manipulação, assim, com belos discursos, ele ia enrolando o povo e literalmente
derrubando quem estivesse em seu caminho. Galíndez recentemente havia conquistado
a cidadania americana e sua morte desperta a atenção da imprensa ianque que
está disposta a provar que Trujillo está envolvido, mas ele, por sua vez, já
pensa em maneiras de reverter as investigações a seu favor e decide limar os
envolvidos no caso, a famosa queima de arquivo. Tavito (José Guillermo Cortines)
foi um dos responsáveis por levar o escritor até o Chefe e isso preocupa seu
irmão Antonio (David Zavas) que decide intervir pelo rapaz e pedir ajuda a
Cabral que nega apoio. Poucos dias depois, o jovem é assassinado e Trujillo
chama seu irmão para uma conversa, na verdade, propor uma subordinação que não
é aceita. O Almirante Juan José Viñas (Steven Bauer) tornou-se outro desafeto.
O ditador mantinha um relacionamento com sua esposa, Magnolia (Catherine Bliss),
não só para satisfação sexual, mas também para conseguir informações
confidenciais sobre seu marido que desconfiava não ser fiel ao regime. Suas
suspeitas são confirmadas e em um almoço de confraternização com oficiais, o
Bode (outro apelido do Chefe devido a sua tara por ninfetas) humilha Viñas e
assume na frente de todos sem pudor algum que Magnolia foi até então a melhor
mulher que ele teve na cama.

Drama - 125 min - 2005
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