NOTA 8,0 Último filme do cultuado diretor Sidney Lumet é cruel do início ao fim, mas presenteia o público com boa história e interpretações fortes |
Em tempos em que se discutem os
absurdos caminhos que parte da humanidade está trilhando, o cinema tem seguido
a tendência e cada vez mais abordando a temática das ações desesperadas. O que
nos leva a realizar certos atos que mesmo calculando seus riscos no fundo
sabemos que são errados e que inevitavelmente trarão consequências negativas
para alguém? É esse dilema entre ética e ambição o foco central de Antes
que o Diabo Saiba que Você Está Morto, suspense com toques dramáticos
dirigido pelo cineasta Sidney Lumet na época já bastante idoso, aos 84 anos
(morreu alguns anos depois sendo este seu último trabalho), mas demonstrando
ainda ter talento para dar e vender. Diretor de clássicos como 12 Homens e uma Sentença, Serpico e Um Dia de Cão, ele não só se mostrava
totalmente lúcido para tratar de temas polêmicos como também em sintonia com o
estilo de produções que andavam fazendo sucesso em meados dos anos 2000,
aquelas tramas que vão e voltam no tempo deixando para o espectador o prazer de
juntar as peças do quebra-cabeça e brincar de detetive, ainda que neste caso a
única dúvida seja acerca do destino dos personagens, visto que desde o início
sabemos de seus atos. Embora a primeira sequência possa causar repulsa para
muitos, ela já serve para nos situar a respeito do caráter do protagonista
Andrew “Andy” Hanson (Philip Seymour Hoffman), um executivo de meia idade cuja
vida profissional está desmoronando ao mesmo tempo em que ele próprio se afoga
no vício das drogas e do sexo. A quem não se importar com este detalhe do
início, uma surpresa está por vir. A narrativa desenvolvida pelo estreante
Kelly Masterson já revela o ponto crucial do longa antes de 15 minutos de
projeção: um assalto mal fadado. A partir de então por meio de longos
flashbacks ficamos conhecendo o cotidiano dos envolvidos dias antes do plano
ser executado e depois temos as consequências do ato. Andy deseja oferecer uma
vida de luxos para sua esposa Gina (Marisa Tomei), mas também precisa se livrar
de uma auditoria que acometerá sua área de trabalho e que revelará um grave
problema financeiro, um desfalque promovido por ele. Seu irmão mais novo Hank
(Ethan Hawke) também está em situação difícil e deve três meses de pensão para
a filha pequena, o pagamento do colégio dela entre outros apuros. Um homem com
profissão aparentemente estável e problemas fúteis. O outro que inspira
insegurança, mas com problemas bem mais sérios. As necessidades de ambos os
levaram à perdição.
Andy diz ter um plano infalível
para conseguir dinheiro e é incentivado pela esposa que não demora a se revelar
uma boa bisca. O executivo propõe ao irmão que eles assaltem a joalheria dos
pais deles, Charles (Albert Finney) e Nanette (Rosemary Harris). Como os dois
já trabalharam na loja eles têm conhecimento do esquema de funcionamento,
inclusive o segredo do cofre. Tudo seria relativamente fácil, apesar das
implicações éticas que tal ato acarretaria. Só haveria um pequeno detalhe: para
todos os efeitos os irmãos não teriam nada a ver com o crime. Enquanto Andy
estaria em seu escritório, Hank ficaria a postos no carro para ajudar na fuga
de Bobby (Brian F. O’Byrne), outro borra botas que topa qualquer coisa por uns
trocados e aceita invadir a loja. Na hora da ação esperavam que apenas uma
funcionária idosa estaria no local, alguém que poderia ser facilmente dominada,
porém, quem foi abordada é Nanette que reage ao assalto e atira em Bobby, este
que revida e acerta em cheio a idosa que não falece imediatamente, mas
clinicamente já é dada como morta pelos médicos. Charles então jura se vingar
custe o que custar dos culpados de tudo isso, mas nem imagina que estará
caçando os próprios filhos. O crime perfeito por fim se revela uma sucessão de
erros que cada vez mais cercam os irmãos que terão que lidar com problemas
legais, familiares, chantagens e complicações com a própria consciência. Como o
espectador já conhece o crime de antemão, a grande sacada do roteiro é fazer
com que exista interesse em saber o que motivou Andy e Hank a tal ato, seu
processo de planejamento e os rumos que suas vidas irão tomar visto que mais
que o medo da prisão o que os assombra é o peso de serem os culpados pela morte
da própria mãe. É curioso que os primeiros minutos do longa não dão pistas que
estamos para começar a acompanhar uma trama tão complexa. Andy surge em cena em
uma cena de sexo pouco glamorosa. Longe de ter um corpo de modelo, Hoffman se
despede literalmente de qualquer vaidade assim como sua parceira de cena. Tomei
exibe um corpo de dar inveja a muita jovenzinha, mas no conjunto a cena soa
desnecessária em um primeiro momento, ainda mais por fazer apologias ao uso de
drogas. Em seguida, a rapidez da sequência do assalto à joalheria é similar a
tantas outras de filmes de ação e podem não causar o impacto esperado. Somente
quando juntamos as peças das cenas seguintes, exibidas de forma
não-cronológica, é que tomamos consciência da gravidade da situação. Talvez seu
modo alternativo de trabalhar um texto com teor de suspense policial tenha
afastado o público que não deu muita bola para a produção, mas de qualquer
forma chamou a atenção dos críticos que cobriram a obra de elogios, ainda que
Lumet tenha feito produções bem melhores no passado.

Drama - 117 min - 2007
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