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NOTA 7,0
Longa apresenta uma imagem de Frankenstein diferente, apostando em drama e romance, hoje acrescidos de nostalgia |
A década de 1980 deixou muitas
saudades para os cinéfilos, mas é curioso como algumas produções do período
atualmente são desconhecidas talvez por não fazerem a linha sessão da tarde,
porém, vistas hoje em dia elas podem despertar sentimentos diferenciados em
relação a época de seu lançamento. Naquele tempo em que os efeitos especiais
passaram a ser mais explorados e os gêneros de terror e suspense viram seu
público aumentar consideravelmente graças aos surgimentos das fitas VHS e das
locadoras, a ideia de trazer o clássico monstro Frankenstein de volta as telas
certamente fazia muita gente sentir calafrios, mas o cineasta britânico Frank
Roddam promoveu esse retorno de maneira mais fidedigna e com um bônus: uma
versão feminina da sinistra criatura. Cinquenta anos depois do lançamento de
A Noiva de Frankenstein, o diretor
retomou a premissa de uma criação para ser a companheira do tal monstro em
A
Prometida, mas injetou uma veia mais dramática ao enredo deixando a
violência inerente ao terror de lado, porém, não se esquecendo de criar uma
interessante atmosfera que lança o espectador para dentro de uma trama que
transpira mistério e ao mesmo tempo nos passa a ideia de ser uma agradável
aventura épica. Um produto desinteressante para a atualidade que exige que uma
fita de terror transborde sangue, uma ação seja dotada de altas cargas de
adrenalina ou um romance seja meloso e adocicado a níveis extremos? Está na
hora de rever seus conceitos, principalmente se você se intitula um cinéfilo de
carteirinha, mas só aceita produções novas e dotadas efeitos especiais de
ponta. Com referências óbvias ao romance da escritora Mary Shelley que leva a
alcunha do famoso monstro, o roteiro de Lloyd Fonvielle tem como ponto de
partida a inquietação do Barão Von Frankenstein (Sting) que estaria
insatisfeito com o resultado de sua última criação que foi batizada com seu
próprio nome. Ele então resolveu trabalhar na concepção de uma criatura
semelhante ao monstro, porém, o resultado final extrapolou suas expectativas e
assim que viu Eva (Jennifer Beals), a primeira representante feminina da
espécie, o cientista se apaixonou provocando assim a ira do grandalhão
Frankenstein (Clancy Brown) que também percebeu a repulsa de sua pretendente. Em
um momento de ira ele acaba colocando fogo na torre que era usada como
laboratório e foge. A partir de então as duas criações do Barão tomam rumos
diferentes.

Eva, embora no aspecto físico
aparente ser uma moça comum, por dentro ela é como um animal irracional e
precisa ser domesticada e essa é a tarefa da Sra. Baumann (Geraldine Page), sua
fiel governanta, que com muita paciência tenta ensiná-la passo a passo como se
tornar uma dama da aristocracia. Seu criador estava certo que poderia então
tomá-la como sua companheira, mas se surpreende ao perceber que ela demonstra
ter pensamentos e até desejos sexuais próprios de modo a evitar as investidas
do barão. Enquanto isso, a criatura original está vagando sem rumo pelas
redondezas até que conhece o bondoso Rinaldo (David Rappaport), um anão que
deseja ir para Budapeste na expectativa de trabalhar em um circo e parece não
se importar com o aspecto ameaçador de seu novo amigo e compreender o seu
comportamento arredio, afinal ele próprio sente o preconceito na pele devido ao
seu físico diminuto. Mesmo vivendo uma vida própria também se apresentando como
atração circense, Viktor, como o monstro se denomina nesta fase, não consegue
se esquecer de suas origens e após sofrer uma grande decepção no trabalho, que
o afeta também emocionalmente, decide voltar ao castelo de seu criador e
reclamar o direito de posse de sua noiva. O problema é que a esta altura do
campeonato a jovem já está envolvida em um complicado triângulo amoroso
envolvendo Josef Schoden (Cary Elwes), um pretendente com muita classe, mas
inexperiente e ingênuo, e o próprio barão que desenvolve um fascínio doentio
por sua invenção. Sinceramente, se existe alguma coisa que amedronte neste
enredo para justificar sua classificação como suspense tal proposta ficou perdida
no tempo. Romance ou drama rotulam muito melhor a premissa, ainda que um dos
protagonistas seja um ser com aspecto ameaçador, porém, de bom coração e dotado
de certa capacidade emocional e racional. A introdução pode parecer um pouco
confusa e a mocinha e seus dilemas não despertarem muito a atenção, porém, os
conflitos de Viktor e sua amizade com Rinaldo são os pontos altos da trama,
principalmente quando percebemos como ambos são tratados no circo, vistos como
aberrações que mereciam ser exploradas, um vício social propagado até hoje
contra os “diferentes”. Ainda bem que a ingenuidade do personagem grandalhão
tem como contraponto a esperteza do baixinho velho de guerra que já está
escaldado e sabe como o mundo funciona, ajudando assim seu amigo a encontrar
suas características positivas e a encontrar um rumo na vida.

O romance original no qual esta
produção se baseia já sofreu centenas de adaptações ao longo doas anos para os
mais diversos tipos de mídias e até hoje inspiram produções cinematográficas
que podem transitar nos mais variados gêneros já que o personagem carrega
consigo um leque de opções a serem trabalhadas. Seu aspecto feio e seu latente
instinto animal servem para sustentar um conto de horror ou até mesmo uma
comédia apostando no viés escrachado no melhor estilo peixe fora d’água. Sim já
tivemos versões de Frankenstein que poderiam estrangular qualquer um que
passasse em seu caminho como também versões do monstro se adaptando ao
cotidiano dos adolescentes frequentando inclusive o ambiente escolar por
exemplo. A essência do personagem também permite um passeio pelo campo
dramático explorando seus conflitos tanto em termos de convívio social como
também seus problemas para ele próprio se aceitar como um ser diferente, mas
que também pode ter suas qualidades. Da concepção original, uma criatura com
sentimentos complexos e plenamente articulada, até a sua imagem mais conhecida
como um ser violento, irracional e com um comportamento físico bastante
característico, digamos que Roddam conseguiu reunir em seu protagonista
diversas referências que o mesmo recebeu com o passar dos anos ao sabor dos
acontecimentos propostos para cada nova adaptação de seu conto.
A
Prometida não é definitivamente um suspense que atenda as expectativas
para quem deseja ver violência e sangue, mas para os amantes de cinema e
saudosistas é um prato cheio. Até mesmo para quem tem o pé atrás com produtos
do gênero, vale uma tentativa de variar o cardápio. Com um visual clássico e
gótico caprichado graças a uma eficiente cenografia e fotografia, uma mescla interessante
de emoções diversificadas e aquele saborzinho especial difícil de descrever,
mas que só os filmes de antigamente carregam, este trabalho tinha tudo para ser
uma obra característica dos anos 80, mas infelizmente foi suplantado pela ação
rápida e implacável do tempo, assim como as carreiras de seus protagonistas. A
quem interessar, o DVD foi lançado no Brasil há alguns anos e boas lojas do
ramo e locadoras devem o ter no acervo. Lembre-se, manifestando o desejo de ver
produções antigas é que incentivamos as distribuidoras a dar valor ao passado
cinematográfico e a disponibilizá-las no mercado com qualidade e legalmente.
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