sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

AS VIAGENS DE GULLIVER

NOTA 4,0

Clássico conto infantil
ganha versão moderninha
que fica devendo tanto no
roteiro quanto no visual
Muitas das histórias que hoje consideramos clássicos infantis na realidade quando escritas foram pensadas para agradar ao público adulto e recheadas de mensagens subliminares. As inúmeras adaptações para cinema, teatro, TV e até para originar novos contos ou livros acabam pouco a pouco modificando os originais até que chegamos ao ponto de concluir que as açucaradas produções da Disney é que de fato são as mais próximas das versões reais. Talvez por isso um clássico livro que já gerou ou inspirou diversas peças teatrais, filmes, animações e frequentemente é citado com a finalidade da sátira não caiu no gosto da criançada. Faltou a fadinha Sininho (ou Tinker Bell para os contemporâneos) para dar o toque mágico que equivale à assinatura do estúdio do Mickey Mouse e das princesas. Coube a um ator de apelo popular e querido pelas crianças a tarefa de apresentar aos mais novos as aventuras de um gigante em uma terra habitada por pessoas bem pequenininhas, porém, As Viagens de Gulliver estrelada por Jack Black foi alvo de uma enxurrada de críticas negativas.  É certo que há produções que pretendem agradar crianças e adultos bem piores, mas realmente não há como tecer muitos elogios a esta enésima versão do clássico literário do escritor inglês Jonathan Swift, diga-se de passagem não creditado no filme, publicado pela primeira vez em meados do século 18, um conto aparentemente ingênuo, mas carregado de críticas subliminares às ações e ideais dos ingleses da época, tanto os pobres quanto os nobres. A adaptação cinematográfica do diretor Rob Letterman, da excelente animação O Espanta Tubarões e aqui estreando na direção de atores de carne e osso, não tem espaço para críticas inteligentes e é pouco fiel à trama original, mas sabe como agradar seu público-alvo, as crianças, com piadas bobas, aventuras mornas, um gancho romântico e usando e abusando de canções que se tornaram hits, além de uma avalanche de merchandisings e citações a fenômenos da indústria do entretenimento.
 
Black interpreta Lemuel Gulliver, um rapaz espirituoso que trabalha há um bom tempo como contínuo de um famoso jornal de Nova York. Ele sonha com uma oportunidade de trabalho melhor, quer escrever para o tablóide, mas não tem coragem para pedir aos editores, assim como também tem vergonha de se declarar para seu grande amor, a editora do jornal Darcy Silverman (Amanda Peet). Um dia, ele se enrola na tentativa de conquistar a moça, apresentando-se como um viajante profissional, e acaba recebendo a proposta de escrever uma matéria sobre viagens que será analisada pela própria Darcy. Para tanto, o rapaz é enviado ao misterioso Triângulo das Bermudas onde ficará por algumas semanas. Porém, ao chegar lá, ele enfrenta uma forte tempestade em alto mar que o leva até a cidade de Lilliput, um lugar habitado por pequeninas pessoas que o aprisionam, uma cena clássica que todos devem ter visto ao menos uma vez em algum lugar e que não pode faltar em um produto que se baseia ou satiriza o conto clássico. Inicialmente, Gulliver é visto como uma ameaça, mas aos poucos conquista a simpatia dos moradores. Entretanto, o rapaz desperta a ira do General Edward (Chris O´Dowd), pretendente a noivo da princesa Mary (Emily Blunt), já que Gulliver, justamente ele que não conseguiu declarar seu amor a mulher amada, está ajudando o tímido camponês Horatio (Jason Segel) a conquistar a moça. A popularidade deste “gigante corajoso” chega a tal ponto que seu nome e sua imagem passam a serem atrelados a espetáculos teatrais, programas de TV, filmes e até bugigangas tecnológicas que curiosamente fazem parte do cotidiano da pitoresca Lilliput que pode aparentar ser uma típica cidade medieval, no entanto, é um vilarejo super antenado com a modernidade. Talvez estas rápidas citações, como a história da vida do protagonista que diz ser filho do temido Darth Vader e que esteve presente no naufrágio do Titanic, sejam os poucos momentos realmente divertidos da produção. Não é surpresa alguma ver tantas citações à sucessos do mundo pop e referências a produtos de consumo afinal o roteiro é assinado por Nicholas Stoller, de Sim Senhor, e Joe Stillman, de Shrek. A trilha sonora repleta de canções famosas adicionadas em momentos estratégicos ajuda a manter o tipo de humor proposto pelo roteiro e até um sentimento de déja vu deve bater no espectador.
Black por se dedicar muito mais ao gênero comédia está acostumado a tirar humor e a manter a platéia atenta através das citações, foi assim com o mundo da música em Alta Fidelidade e revisitando a história do cinema em Rebobine, Por Favor, dois exemplos que só comprovam o quanto o ator não sabe conduzir sua carreira com um foco certo. Se fosse em outros tempos o papel de Gulliver seria perfeito para ele, mas a esta altura do campeonato ele já podia se dar ao luxo de descartar propostas fracas. No entanto, é justamente o desempenho de Black que salva As Viagens de Gulliver do fracasso total. Quem deseja assistir a um trabalho seu já sabe o que vai encontrar e, portanto, não deve se decepcionar com sua atuação cheia de tiques e caretas. Apesar de inicialmente seu personagem não ser muito cativante pela mania de grandeza, não apenas na altura, mas também de ego, potencializada pela bajulação dos lilliputianos, aos poucos compreendemos que essa virada de zero a herói é necessária para justificar a moral da história: mentir, principalmente para si mesmo, não é um bom negócio. Ou seja, é óbvio que em algum momento este bravo guerreiro vai fraquejar ou terá seu ponto fraco atingido e assim será desmascarado. O texto base deste filme já é um tanto previsível e mastigadinho para atingir crianças e jovens, mas roteiristas e diretor optaram por deixá-lo ainda mais infantilizado (ou imbecilizado, como preferir) adicionando piadas de mau gosto como quando nosso herói apaga um incêndio no castelo da cidade de um jeito peculiar sob os olhares espantados da ingênua princesa. Os efeitos especiais também são literalmente uma piada desnecessária dependendo do ponto de vista. Para atrair mais espectadores aos cinemas, o longa foi vendido com o respaldo de contar com a tecnologia do 3D, mas a produção funciona muito bem sem essa firula, aliás, até é melhor assim. Cenas como quando Gulliver entra no mar para combater um navio inimigo ganham ares de sátira sem a tecnologia avançada que certamente transformaria tal sequência em algo constrangedor. Na realidade os efeitos visuais são bem mais tradicionais e recorrem à trucagens simples de câmera. De qualquer maneira, mesmo com falhas grotescas no roteiro e um visual pobre que o aproxima de um telefilme ou algo do tipo, esta comédia cumpre seus objetivos de divertir crianças e até pode entreter os adultos menos exigentes e que estejam com seu espírito infantil aflorado. Todavia, a curta duração poderia ser ainda mais abreviada se fosse retirado o número musical final cheio de boas intenções alertando sobre a irracionalidade das guerras, mas capaz de deixar qualquer um envergonhado tanto por estar vendo tal sequência quanto por imaginar o que leva um ator a aceitar filmar uma cena dessas. Só vendo pra crer.
Infantil - 85 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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