sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

APENAS UMA NOITE

NOTA 7,0

Fidelidade, amor e desejos
reprimidos são discutidos
em romance realista que
foge dos clichês do gênero
Os filmes independentes são conhecidos por geralmente contarem histórias que prezam pelo realismo e não fazem questão de finais felizes ou apoteóticos. Nem mesmo reviravoltas de fazer o queixo do espectador cair são prioridades. Então o que pode atrair atores famosos e público para esse tipo de produção? Para os artistas, participar de filmes assim traz status a seus currículos e quem assiste se sente atraído para ver essa reunião de astros ou simplesmente para fazer o gênero de espectador cult. Bem, a julgar pelo elenco, realmente não deixa de ser uma boa opção o drama romântico Apenas Uma Noite que tem o mérito de reunir atores jovens, talentosos e muito requisitados pelo cinemão comercial. A base do enredo é trabalhar a forma como dois jovens adultos casados lidam com a liberdade temporária quando se encontram separados por algumas horas. Michael (Sam Worthington) e Joanna (Keira Knightley) formam um casal comum que se uniram muito cedo e não tiveram a oportunidade de experimentar plenamente os prazeres da vida. Certa vez, durante uma festa, a esposa percebe que seu marido parece ter muita intimidade com uma colega de trabalho, a sensual Laura (Eva Mendes). Joanna observa passivamente o comportamento deles ao mesmo tempo em que passa a refletir sobre os rumos de seu relacionamento com o marido. No dia seguinte Michael tem uma viagem de trabalho, obviamente acompanhado de Laura, e por arte do destino sua esposa encontra por acaso um ex-affair seu, o francês Alex (Guillaume Canet). Por apenas uma noite o casal estará separado e cada um deles terá a oportunidade de vivenciar experiências com parceiros diferentes ou simplesmente resistir as tentações e optar pela fidelidade. Dessa forma, o longa dirigido pela estreante Massy Tadjedin revela-se uma mistura estética e narrativa de Namorados Para Sempre com Closer – Perto Demais, ainda com pitadas de Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol. Praticamente temos em cena apenas dois casais, ainda que não oficiais, discutindo a relação deles e também como eles vivem com seus respectivos cônjuges ou revelam experiências passadas ou ainda sentimentos reprimidos. 

Embora os longas citados não agradem a todos os gostos, colecionando na mesma proporção críticas elogiosas e outras negativas, é certo que todos eles podem despertar o espectador para reflexão, cada qual a sua maneira. No caso do trabalho de Massy, que também escreveu o roteiro, digamos que a diretora iraniana reuniu o que há de melhor em todos eles e ainda adicionou um estilo próprio para conduzir sua câmera e seu texto, certamente referências do cinema produzido em seu próprio país ou adjacências. Com uma bela fotografia e um ritmo lento, o longa se apóia em diálogos, olhares, gestos e até mesmo no silêncio para contar uma história com premissa que induz a algo intenso e envolvente, mas a intenção é dissipada pouco a pouco, principalmente pelo desequilíbrio das interpretações. Parece que somente Keira Knightley evolui seu personagem ou dependendo do ponto de vista o faz regredir. No início sentimos sua Joanna como uma pessoa mais cheia de vida e alegria, mas aos poucos ela é tomada pela dúvida de uma possível traição do marido ao mesmo tempo em que é consumida pela tentação de dar o troco na mesma moeda. O enredo é manipulador quanto a isso. Estrategicamente colocam marido e mulher em situações tentadoras, mas não consegue atingir plenamente o emocional de quem assiste. Fora uma briga leve entre Joanna e Michael logo nos primeiros minutos ou acompanhar a desconfiança da jovem ao conhecer Laura, o espectador acompanha este longa de forma passiva, não chora e nem dá risada, todavia ainda se sente ligado de certa forma à narrativa. O grande gancho é a dúvida se um deles ou os dois vão sucumbir às tentações ou se irão preferir a fidelidade. Este leve suspense é acentuado pelo compasso da edição. Por exemplo, a mesma situação que um vive o outro também passará. Se Joana beija seu ex, Michael mais cedo ou mais tarde também beijará sua colega. O saldo final é que eles não podem discutir condenações, os dois tomaram as mesmas atitudes, não há culpados. Ou será que os dois ou pelo menos um deles foi além de uma simples troca de carícias? 

Voltando a falar das interpretações, Sam Worthington, o astro das aventuras Avatar e Fúria de Titãs, tem a chance de mostrar uma atuação mais minimalista e introvertida. Embora muitos o critiquem no papel, o ator deu conta do recado e provou que pode ultrapassar os limites dos blockbusters, podendo trilhar uma trajetória similar a de Gerard Butler que estourou no épico 300 e hoje transita livremente por diversos gêneros, inclusive o romântico.  Falando em amor, as cenas mais românticas acabam ficando por conta de Keira e o galã francês Guillaume Canet. Ainda que o ator não surpreenda, a relação entre os dois carrega um sentimento a mais que acaba colocando o casal em destaque na trama como se fosse um respiro à claustrofobia que sentimos nas cenas de Worthington com Eva Mendes. Ela, mais uma vez interpretando uma sedutora mulher, só que desta vez explorando mais sua voz e os sentimentos ao invés do corpo curvilíneo, parece a todo o momento envolver Michael em uma teia da qual parece não haver escapatória e ele próprio aparenta não fazer questão de fugir. De qualquer forma, sobra para as personificações das tentações o rótulo de personagens unilaterais. Eles estão lá para seduzir e só. De qualquer forma, Apenas Uma Noite vale a pena ser visto pelo simples fato de fugir dos vícios e clichês dos tradicionais filmes românticos, a começar pelo fato de nos poupar de um breve resumo do histórico dos protagonistas. Namorados desde os tempos de faculdade, nas mãos de alguém despreparado ou preguiçoso, certamente a história de Michael e Joanna poderia ser transformada em algo comum que culminaria na tentação de um felizes para sempre. Porém, Massy quis ir além do tradicional final dos romances hollywoodianos e focar seu trabalho em um período crítico da vida dos casais, quando o entusiasmo inicial se esvai e a melancolia da rotina toma conta. Com uma edição caprichada que permite ao espectador fazer analogias e comparar o perfil dos protagonistas e seus parceiros extraconjugais, uma narrativa que evita o moralismo, mas também não constrange, esta obra é para aqueles que gostam de romances realistas e menos idealizados. Realmente em apenas uma noite muita coisa pode acontecer. O dia seguinte é outra história.

Romance - 93 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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