quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

HISTÓRIAS CRUZADAS

NOTA 7,5

Longa aborda o racismo
e a relação patroa versus
empregada nos anos 60, mas
é o elenco que se destaca
Nos EUA é muito comum o termo “feel good movie”, algo como filmes que trazem mensagens positivas, aqueles que deixam o espectador com uma boa sensação ao subirem os créditos finais. Para os críticos de cinema essas produções são dotadas de artifícios que manipulam as emoções para fazer as pessoas se envolverem e até mesmo chorarem facilmente, ou seja, trocando em miúdos, consideram trabalhos que não acrescentam absolutamente nada na história do cinema ou para aumentar o intelecto do público tornando-se assim obras desnecessárias. Por outro lado, tais filmes estão cada vez mais ganhando as atenções das premiações. Os organizadores de festivais e festas dos melhores do ano estão visando chamar a atenção de plateias mais jovens dando visibilidade a produções que caíram no gosto popular, como foi o caso de Histórias Cruzadas, uma das maiores surpresas nas bilheterias americanas na temporada de premiações de 2012. O enredo eficiente e de fácil assimilação aliado a um competente elenco feminino trataram de fisgar as atenções. A pequena e pacata cidade de Jackson, no estado do Mississipi, parece que parou no tempo e as pessoas vivem em uma sociedade que separa negros e brancos, pobres e ricos. Em plena década de 1960, durante a conturbada luta pelos direitos civis e o início dos debates sobre a discriminação racial, Skeeter (Emma Stone) retorna a sua cidade natal e está decidida a seguir a carreira de escritora. Porém, o tema que ela escolheu para seu primeiro livro é um tanto espinhoso e mexe com os brios da sociedade americana conservadora, muito bem representada pela malvada Hilly (Bryce Dallas Howard). A jovem escritora começa a entrevistar mulheres negras que deixaram suas famílias e as próprias vidas de lado para trabalharem como empregadas e babás nas casas da elite branca, classe social da qual a própria Skeeter faz parte. Aibileen (Viola Davis), a empregada da casa da melhor amiga da escritora, é a primeira a conceder uma entrevista, o que desagrada os vizinhos. Apesar das críticas e olhares maldosos, Skeeter e Aibileen tornam-se amigas e juntas conseguem novos depoimentos, como da atrevida governanta Minny (Octavia Spencer), ainda que as empregadas sintam receio de revelar os segredos de seus patrões para não serem punidas.

O diretor e roteirista Tate Taylor colocou suas mãos em um projeto ambicioso. Para seu segundo trabalho atrás das câmeras ele foi atrás dos direitos da adaptação cinematográfica do livro “The Help”, best seller de Kathryn Stockett que toca levemente em uma ferida que até hoje faz sangrar a sociedade americana como um todo. A produção ficou a cargo de Chris Columbus, mestre em filmes para agradar a família. Trilha sonora, fotografia, cenários e figurinos caprichados para deixar o longa com cara de premiável e por fim um elenco feminino afiado e competente, mas cujo único nome de peso é o de Sissy Spacek arcando com um papel secundário. Tudo parece perfeito, mas ao longo de quase duas e meia de filme percebemos falhas que não comprometem drasticamente o resultado final, porém, incomodam um pouco. O roteiro também possui algumas subtramas com o intuito de montar um panorama comportamental da época, enfocando obviamente a condição da mulher, mas são situações pouco necessárias para a construção da narrativa central. Outro problema fica por conta dos personagens “chapados”. Eles não têm variações de personalidades, tornando-se assim estereotipados, como é o caso da madame Hilly, malvada e ponto final, e da doméstica Minny, desbocada e valentona. A única exceção fica por conta de Celia, papel de Jessica Chastain, uma mulher da elite, mas bondosa, de bem com a vida e sem traços de superioridade. Apesar das personagens estereotipadas, ou talvez pela fácil classificação que o espectador pode fazer das mesmas, o elenco feminino é o que interessa nesta produção. As criações despertam empatia e a edição permite que todas possam ter espaço suficiente para apresentarem seus dramas ou momentos de ironia através de diálogos fartos e bem distribuídos. Destacam-se as atuações de Viola Davis, acertando no tom dramático, e de Octavia Spencer responsável pelos toques de humor do filme, trabalho que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Aliás, todo o elenco foi bastante premiado, inclusive faturando troféus como melhor conjunto de intérpretes. Quanto ao elenco masculino, bem o espaço dos homens aqui é tão limitado que no final das contas suas participações são totalmente esquecíveis.
Priorizando uma narrativa mais intimista, mas com tiradas irônicas aqui e ali, Taylor colocou os dramas pessoais das personagens em primeiro lugar e deixou os eventos históricos em segundo plano. Para evitar o rótulo de produção de época, alguns fatos são superficialmente citados o que para muitos faz com que a obra perca muito valor. Todavia, casar questões políticas e históricas com dramas pessoais, além do cuidado para manter um clima agradável, não é uma tarefa fácil e o diretor preferiu não se arriscar. Fez bem! Resumindo o enredo, pode parecer que Histórias Cruzadas é mais um lacrimoso drama retratando um período difícil para os negros, principalmente às mulheres da etnia, mas no final das contas são os causos cômicos que dão certo frescor à proposta. Todavia, a opção de pouco explorar a dura vida das representantes negras que abandonam suas famílias e sonhos para sobreviver tomando conta da rotina dos outros não agrada a todos os gostos. Para muitos foi jogada no lixo fora a chance de discutir a discriminação racial através do olhar feminino e de uma forma mais leve ou tocante. Bem, dramaturgicamente falando, é um erro mesmo apenas citar uma agressão vivida por uma doméstica, um ponto-chave da ideia inicial, para em contrapartida gastar muitas cenas acerca de uma duvidosa torta servida como vingança a uma patroa (o conteúdo de tais sequências não será revelado, mas o fato é que elas não se encaixam muito bem na proposta, parecendo piadas de comédia para adolescentes). De qualquer forma, mesmo sendo um trabalho longe da perfeição que a campanha do Oscar e de outras premiações venderam, vale a pena dar uma conferida pelo menos para lembrarmos quem em pleno século 21 ainda convivemos com problemas raciais que já deveriam estar ultrapassados. Seria o preconceito um ciclo sem fim?

Vencedor do Oscar de atriz coadjuvante (Octavia Spencer)
Drama - 137 min - 2011
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