sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O HOMEM DAS ESTRELAS

NOTA 9,0

Protagonista é o retrato do povo
humilde da Sicília após a Segunda
Guerra e faz uso da magia do cinema
para sobreviver em tempos de incertezas
Giuseppe Tornatore é um diretor italiano que gosta de exaltar sua terra natal em sua filmografia, porém, não deixou se inebriar totalmente pelo tom da regionalidade e se envolveu em projetos com temas universais e sempre que pode demonstra seu amor pelo cinema de forma implícita ou escancaradamente explícita. O resultado é que seu nome atravessou fronteiras e é famoso no mundo todo, apesar de uma filmografia irregular com altos e baixos, mas tudo leva a crer que daqui alguns anos qualquer trabalho seu será tratado como uma verdadeira preciosidade. Amantes da sétima arte já topam pagar qualquer pequena fortuna para ter em sua coleção algumas de suas obras e curiosamente boa parte delas permanecem inéditas em DVD, como por exemplo O Homem das Estrelas, um filme de muito requinte e bom gosto vencedor do Grande Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza, uma honra que o torna marcante, mas inexplicavelmente esquecido por grande parte do público. Assim como em seu grande sucesso Cinema Paradiso, Tornatore investe mais uma vez em uma homenagem ao mundo cinematográfico através do personagem Joe Morelli (Sergio Castellito), um homem solitário que no início da década de 1950 chega a uma cidadezinha no interior da Sicilia no período pós-guerra e anuncia que procura novos rostos para trabalharem em filmes. Ele arma uma barraca na praça central e oferece a uma quantia modesta testes com candidatos a futuros astros da telona. Na realidade tudo não passa de uma mentira que ele transforma em seu ganha pão sem se preocupar se quem vai procurá-lo é um milionário exibicionista ou um humilde que busca uma chance de crescer na vida. A cada nova pessoa que o procura, muito mais que revelar talentos, o rapaz encontra instigantes histórias pessoais, porém, ele não se envolve com elas e vê o seu trabalho com frieza e apenas pensando nos resultados financeiros. Tudo muda quando aparece em sua vida Beata (Tiziana Lodato), uma moça que também está sozinha no mundo e acaba se afeiçoando àquele homem. Não demora muito e o amor entre os dois floresce. Pena que as alegrias duram pouco, pois o casal irá pagar um preço caro pelo passado de erros de Morelli.

O cineasta tem competência de sobra para falar da Sicília, seu cenário de costume, apesar de não ser natural da ilha, mas fez do local o seu porto seguro cinematográfico. A Segunda Guerra ou o período posterior a ela também são temas comuns em sua obra, pois remetem as memórias de sua infância. Um cenário belíssimo na Itália, a paixão pelo cinema e o contexto histórico como pano de fundo são os ingredientes básicos de grande parte da filmografia de Tornatore e sempre ganham uma nova visão através de propostas diferenciadas de trabalho. Para narrar a vida de peripécias e amores de Morelli o tema central é entender uma cultura através do próprio cinema. O protagonista é um dos tantos que tentaram seguir a vida após o período de combates inventando atividades para sobreviver. Por trás da aparente malandragem de enganar os populares que queriam uma oportunidade de brilhar e serem lembrados se escondia um homem ingênuo e sonhador, assim como sua clientela, e ele só se destacava porque achou um meio para tanto, apesar que depois isso lhe traria complicações. O filme consegue trazer uma linha narrativa diferenciada das tradicionais tragicomédias, aquelas que começam leves e com momentos divertidos e que aos poucos deixam cair o ritmo e abrindo espaço para as desgraças acontecerem. Aqui Tornatore consegue dividir sua trama em dois momentos distintos e uma cena em particular trata de romper com um gênero para abraçar outro. O amor ao cinema fica declaradamente em segundo plano para dar espaço a um retrato realista e contundente de uma Sicília ferida após a guerra e com uma população contrastante e variada, mas que pode ser resumida em uma única pessoa: Morelli. Pessoa humilde, batalhadora e que não quer ter sua passagem na Terra despercebida. Enfim, um típico siciliano. Um típico italiano. Um típico ser humano com todos os seus defeitos e qualidades. Quem aprecia o cinema brasileiro pode até notar semelhanças do argumento com Bye Bye Brasil, que aborda uma trupe de artistas de rua que viaja para regiões interioranas vendendo ilusões, e também com Central do Brasil, no qual a protagonista escrevia cartas dando esperanças aos que não sabiam ler e escrever que seus parentes distantes receberiam notícias, porém, as cartas nunca eram enviadas, somente o dinheiro lhe interessava até que algo lhe faz repensar suas atitudes.

O roteiro assinado por Tornatore em parceria com Fabio Rinaudo no fundo desenvolve uma temática presente até os dias atuais, a busca pela fama e o enriquecimento rápido. No passado, fazer cinema era o que alimentava os sonhos de populares. Hoje, ter os quinze minutos de fama na TV já são o suficiente para alguns darem uma guinada em suas vidas, mesmo que isso acarrete uma avalanche de achincalhes. Ilustrando tal ilusão, surge em cena o Brigadeiro Mastropaolo (Franco Scaldati), que por traz de sua farda imponente esconde-se um sujeito frustrado que entrou para a carreira policial apenas para agradar ao pai, mas deixa subentendido que a época e o local não lhe permitiam sonhar mais alto. Assim como ele, muitos outros populares expuseram seus desejos confiando no caráter de Morelli, mas sem perceber que a câmera nada filmava. Aparentemente simples, O Homem das Estrelas é mais um importante trabalho de Tornatore que só revela sua beleza e raízes quando dissecado minuciosamente. A poesia do texto e as belas paisagens impressas em cada cena podem dispersar a atenção do conteúdo implícito e é preciso pelo mais uma sessão para poder se aprofundar no enredo. O próprio cineasta comparou esta obra a seu sucesso máximo, Cinema Paradiso. Enquanto em sua oscarizada produção procurou extravasar seu amor pelo cinema deixando a Sicília em segunda plano, anos depois sua intenção era colocar sua amada cidade em destaque e usou a magia das telonas para denunciar a situação de miséria de boa parte da população local. A arte cinematográfica encanta e seduz, mas também pode trair e fazer sofrer. Não há desculpas para explicar o porquê desta produção não estar disponível no mercado de varejo ou locação hoje em dia no Brasil e em tantos outros países Tema relevante, obra prestigiada e premiada, um cineasta cultuado por trás das câmeras e uma excelente história. Com certeza saudosistas, cinéfilos e novas plateias se interessariam pelo título. Pena que o ditado que diz que brasileiro tem memória curta parece reger as ações da maioria das distribuidoras e produtoras de filmes que ainda nos privam de grandes obras do cinema.

Drama - 113 min - 1995

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